"Universo Orante" é o título do novo livro da Ir. Maria José Oliveira | Diocese Bragança-Miranda

A ecologia integral, no sulco da encíclica Laudato Si (LS), e do cântico das criaturas de S. Francisco de Assis, que o Papa Francisco ali evoca, vai muito além do estilo de uma ecologia moderna, se esta se coloca apenas como uma consciencialização perante a degradação dos recursos naturais e uma forma, portanto economicista e interesseira, de lhe colocar travão e de criar hábitos para uma sustentabilidade natural.

O chamado “Cântico do Irmão Sol” do poverello de Assis continua a ser nos nossos dias, e até mais do que nunca, um sinal não apenas da consideração pelas coisas criadas, mas uma atitude de deslumbramento perante as obras de Deus e a beleza que nelas inscreve a sua omnipotência. As próprias maravilhas da criação são muito mais do que apenas motivos do louvor, mas os seus protagonistas e, especialmente, o ser humano, consciente, coloca-se em comunhão com elas para aceder ao Deus que nelas se revela.

Deus é grande nas suas obras e estas dizem do seu autor, falam do seu amor, cantam a sua bondade. Toda a Bíblia, particularmente o livro dos Salmos, é perpassada deste louvor. As obras de Deus falam, louvam, rezam. «Todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus» (LS 84).

Durante muito tempo o ser humano se considerou o centro do Universo, e isso pareceu autorizá-lo a depredar os recursos naturais e a “dominar”, no sentido mais agressivo do termo, tudo aquilo que Deus lhe colocou à disposição para sua felicidade. E, no entanto, como nos recorda o Papa Francisco: «na tradição judaico-cristã, dizer “criação” é mais do que dizer natureza, porque tem a ver com um projecto do amor de Deus, onde cada criatura tem um valor e um significado. (…) O amor de Deus é a razão fundamental de toda a criação: “Tu amas tudo quanto existe e não detestas nada do que fizeste; pois, se odiasses alguma coisa, não a terias criado” (Sab 11, 24). Então cada criatura é objecto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo» (LS 76-77). Mas o irmanar-nos com todas as criaturas, só é possível na força da filiação divina e implica, em primeiro lugar, a fraternidade com os seres humanos que Deus fez nossos próximos.

Tomar consciência de um amor permanente que nos envolve e recria é o grande propósito deste livro da nossa muito estimada Irmã Maria José, SFRJS, que contém meditações, em forma de monólogos, sobre alguns elementos do universo que, tanto na Bíblia como na Liturgia, são como que ingredientes de oração e de louvor. Muitas vezes a excessiva espiritualização das realidades, fez crer que tudo o que era material era avesso às coisas de Deus. O desenvolvimento de um certo “ódio ao mundo” talvez tivesse empobrecido esta dimensão “material” da oração, no entanto, «enquanto unida à verdade do amor, a luz da fé não é alheia ao mundo material, porque o amor vive-se sempre com corpo e alma; a luz da fé é luz encarnada, que dimana da vida luminosa de Jesus. A fé ilumina também a matéria, confia na sua ordem, sabe que nela se abre um caminho cada vez mais amplo de harmonia e compreensão (…) Convidando a maravilhar-se diante do mistério da criação, a fé alarga os horizontes da razão para iluminar melhor o mundo que se abre aos estudos da ciência» (LF 34).

Para a autora, é um erro considerar que a Liturgia vive de “coisas do outro mundo”, porque afinal este nosso mundo é o mundo de Deus e a eternidade planta-se no tempo. Este livro pretende também ajudar-nos a rezar nesta consciência de uma comunhão orgânica entre o ser humano e a terra, a qual o próprio Deus assume. É um contributo que nos pode ajudar a educar o olhar e a atenção para as mensagens de Deus disseminadas em tudo o que nos rodeia, a arrebatar-nos a alegria para a sublimidade das coisas que consideramos banais, a fazer-nos valorizar o milagre da vida que eclode nas coisas mais simples.

Somos chamados a dar um sentido ao que celebramos. Afinal a Liturgia não está longe do nosso dia a dia, não é uma interrupção, ela é uma fonte na linha do nosso tempo, ela é o coração deste louvor universal! A Liturgia é até o maestro desta sinfonia que se expande pelo cosmos! No Dom total da Graça, a Liturgia é «a Verdade vestida de oração» (R. Guardini).

Habituados aos estrondos da tecnologia e dos artifícios de uma “criatividade industrializada”, parece que já nada nos surpreende, nada nos chama a atenção. Para o contemplativo, no entanto, tudo é motivo de espanto. É urgente ressuscitar o espanto nas nossas vidas, deprimidas com o arrastar das horas oprimidas pela monotonia.

O pronome eu pode ser conotado como o pronome egoísmo, do egocentrismo. Na primeira secção deste livro, tal pronome parece enxamear o texto, todavia não se trata de uma propaganda autopromocional, mas uma disponibilidade que afirma e canta a harmonia. Os vários elementos colocam-se em perspectiva com o Deus Criador que lhes atribui uma missão dentro deste universo. É um desafio a cada um de nós tomar consciência que não somos fruto de um acaso, mas que fazemos parte daquela precisão divina que dá uma missão grande a cada detalhe do que somos e temos. A singularidade de cada um é amada e desejada pelo autor da vida!

Quem dera que cada um de nós pudesse encontrar em si próprio aquela alegria de Deus que nos chamou à existência! Assim não viveríamos uma existência voltada para nós mesmos, mas posicionada como uma componente de um todo harmonioso. A nossa presença é parte da harmonia, não apenas da social, da eclesial, mas da universal.

A comunhão orgânica entre o ser humano e as várias espécies com a terra é algo de tão forte! Há uma continuidade entre os elementos do universo, com o ser humano, com o Deus criador. Tomar consciência de que fazemos parte desta sinfonia de oração coloca a vida numa outra perspectiva. A solenidade não é mais do que o colocar o simples e aparentemente banal na perspectiva de um amor extremo que provoca o milagre da vida. Os ingredientes do louvor afinal estão mais perto de nós do que às vezes pensamos.

A Liturgia da Igreja educa e exulta de alegria para a oração integral: «Tudo quanto respira louve o Senhor» (Sl 150,6).
 

+ José Manuel Garcia Cordeiro
Bispo de Bragança-Miranda
Presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade

 

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SOL

No imenso e vasto universo encontro-me tão perto da terra, esse lar que abriga aqueles em quem Deus põe as suas complacências! A minha essência nasceu à primeira palavra de Deus: “Faça-se a luz!” (Cf. Gn 1, 3), e nos fulgores dos primeiros momentos em que o tempo nasceu, Ele confiou-me a presidência dos dias (Cf. Gn 1, 16), mas também doo a minha luz àquele luzeiro que preside à noite.

Eu sou a fogueira da vida, junto da qual o Criador aquece a obra das suas mãos. Emissão do amor de Deus, fonte da sua luz, na minha irradiação eu possibilito a visão, dou provimento às cores, alegro o espaço. Posso ser uma estrelinha insignificante que palpita no centro de uma galáxia chamada pelos humanos a Via Láctea, nas funduras incomensuráveis do espaço, mas também sou um gigante incandescente junto às retinas humanas que, desde a minha superfície, observam tempestades e ejecções de ventos ardentes, projecções de luz, auroras boreais…

Eu sou um caldeirão dinâmico de energia que partilho com a terra. Eu provoco aquele exemplo do que é sair de si. A energia, ainda que venha de muito longe, nunca se perde. Na minha distância eu toco o mundo e os seres. Toco-os e eles, sensivelmente, me acolhem. Eu emito energia, fotões que provocam reacções vitais, às vezes até feridas. Nas folhas verdes alvoroço a clorofila, faço renovar os fluxos atmosféricos que provocam o ambiente feliz para a respiração dos seres.

Eu simbolizo esse ardor de Deus que fere o ser humano com a beleza e a luz, que o reveste, que o cobre de realeza! A luz é um manto de realeza, porque permite a visão.

O sol é o símbolo da imparcialidade; eu sou o astro que nasço sobre bons e maus (Cf. Mt 4, 45), sendo rosto do Pai misericordioso e bom que dá a cada ser humano a possibilidade de uma escolha, nunca constrangida. Proponho o meu brilho com uma generosidade sem retenções, porque “o sol quando nasce é para todos”!

Estou numa distância que tempera a combinação orgânica, onde a vida encontra o espaço ideal para a sua formulação e a água pode dançar entre os seus estados.

Eu sou o teto dos desertos, onde os filhos dos homens recebem tentações acrisolantes. Sou também a sedução dos mares quando deles recolho a água que as nuvens hão-de distribuir pela terra sedenta. Mas também provoco a sede!

Eu interajo com a pele dos seres vivos, infiltrando nela uma pujança vital.

Timoneiro do tempo, percorro a duração dos dias e provoco os ritmos do trabalho e do descanso. Escondo-me nos poentes e ressuscito as madrugadas como o símbolo mais belo daquela manhã em que a ressurreição de Jesus deu sorriso a todos os dias que eu acenderia. Sim, eu sou este símbolo da presença de Deus e da sua ardência.

Parei quando um ser humano tinha pressa de se livrar dos seus inimigos, Josué que me invocou como um aliado das suas lutas (Cf. Jos 10, 12-14).

De facto estou imobilizado no firmamento, mas acolho a rota em que a terra persiste, permitindo a tudo o que ela contém ressarcir-se na minha generosidade.

A festa será dos que não desperdiçarem as horas de luz!

Felizes os que se alegram com a aparição de novos dias e correspondem à alegria da vida, à bênção da luz e agradecem a força de estar vivo, dão graças pela bem aventurança de ver. Celebram o milagre!

Porque sou este desafio de luz que provoca os músculos humanos na sua perseguição da vida. A minha aliança será com os que dão luta às noites do desterro… do erro, será com os que se vencem por dentro, e transbordam para a minha luz a bondade e a força que descreve a Deus. O meu incremento será a favor dos que desejam saborear a luz, aproveitar as horas enamoradas que visito com a minha ardência, que irradiam a sabedoria de Deus na sua actividade entusiasmada. Sim, pararei! Serei este luzeiro que os convoca, que os acolhe, que fixa e prolonga sem fim a sua actividade. Na minha irradiação permanente até à terra, sou o símbolo do colóquio ininterrupto que o divino entabula amorosamente, e no qual, a qualquer altura, o ser humano pode aceder e inefavelmente participar.

O símbolo mais belo em que me torno é Jesus, o Sol de Justiça que não tem ocaso, um sol eterno que não perde nesga de fulgor, ainda nas noites mais escuras. A sua ressurreição inaugurou este dia eterno. Aqui me deterei eternamente até que a sua permanente claridade se digne prescindir de mim.

Eu sou a alegria que vence as trevas, sinal da verdade que guerreia o erro (Cf. Jo 1, 9). Eu denuncio as obras, ponho às claras os procedimentos humanos (Cf. Jo 3, 20), estendo perante a visão os perigos e a viabilidade dos horizontes.

Só não chego aos espaços interditos pelos telhados e os bunkers, como quem se afunda no erro, abrigado pela sua autorreferencialidade.

No meu espaço franqueio os requisitos da beleza.

Simbolizo Jesus o Centro, o centro do universo, o centro de cada vida que respira do divino. Eu estou no centro do sistema solar como a imagem daquele em torno do qual orbitam os filhos da luz. Magneticamente seduzidos, não param na sua dança enamorada, num ritmo de carrossel, que não cansa, nem se cansa, nem descansa. Vive! E que por seu turno, banhados de luz a repartem em fagulhas de clarividência. Jesus convidou os seus a serem luz do mundo, a fazerem brilhar as obras da verdade (Cf. Mt 5, 13-16), a investirem numa esperteza (Cf. Lc 16, 8) que não se caracteriza pelos critérios da astúcia, mas pelas regras da seriedade e de uma verdade límpida.

Eu sou o símbolo da fé, daqueles que vêem por dentro, que têm olhos nas profundidades das suas motivações e por detrás de evidências opacas, das ideias forjadas ao serviço da sua mesquinhez…

Eu vesti Jesus quando no monte Tabor (Cf. Mt 17, 1-9; Mc 9, 2-10; Lc 9, 28-36) Ele manifestou a sua glória, e alimentou de luz os discípulos, povoou-os de alegria e de fé para as horas em que iriam engolir as trevas demolidoras do Calvário, este lapso de espera até à grande manhã!

Eu visto também Aquela que se levanta como a aurora e resplandece como o sol nascente (Cf. Ct 6, 10), a mulher vestida de sol e com a lua debaixo dos pés (Cf. Ap 12, 1) que anuncia o domínio Daquele que serve. A mulher Rainha que dá à Luz o Rei!

Além de tudo isto, posso ser incómodo, por tanto dar a conhecer, pois são terríveis as coisas que nitidamente se vêem!

 

Oração perante o Sol

Ó doce Sol divino, que fabricas as componentes do meu canto aceso, eu te louvo e te bendigo. Tu és a alegria espalhada na minha esperança, atmosfera afogueada e vibrante de sentido. Faz-me luz na tua Luz! Apaixona-me pela verdade.

Celebro em ti o meu desperto novo, o deslumbramento da harmonia de quem anseia ver. Alimenta-me da luz, aquela que arrasa os esconderijos da maldade, aquela que faz arder as corrupções íntimas. Devolve-me a fisionomia perdida nas rugas do pecado. Ó transfigurado renova-me com o cosmético da tua disponibilidade, cura-me a vista com o colírio do teu fogo. Alumia em mim o rosto do outro, acende-o no meu olhar maduro e misericordioso. Acende-o como face tua, teu projecto, teu enlevo, teu Filho amado.

 

O Sol de justiça que não conhece ocaso

Vinde, Jesus,

Brilhe no mundo a vossa Luz.

Vinde, Senhor,

Reine entre os homens vosso Amor.

 

 

Vinde, Senhor: a Igreja Vos espera,

Sol de justiça, eterna primavera.

Vinde, Senhor: a Terra Vos procura,

Vós sois a Luz de toda a criatura.

Hino do Ofício de Leitura, Advento

 

Oh inefável manancial de luz,

Verbo, onde o Eterno seu esplendor contempla,

Astro de que o sol é imperfeita sombra,

Dia sagrado a quem o dia pede a sua claridade.

 

Ergue-Te, Sol adorável,

Que a eternidade transformas num só dia feliz;

Ilumina-nos sempre com teu fértil clarão,

Derrama em nosso peito o teu amor em chama.

Liturgia das Horas, Outros hinos, Tempo Comum

Senhor nosso Deus,

sol que ilumina todos os homens,

concedei ao mundo a paz duradoira

e fazei brilhar em nossos corações

a luz admirável que orientou os passos dos Magos.

 

            Colecta, quarta feira, dias feriais do tempo do natal

 

 

Nós Vos pedimos, Senhor,

que este círio, consagrado ao vosso nome,

arda incessantemente para dissipar as trevas da noite;

e, subindo para Vós, como suave perfume,

junte a sua claridade à das estrelas do céu.

Que ele brilhe ainda quando se levantar o astro da manhã,

aquele astro que não tem ocaso:

Jesus Cristo, vosso Filho,

que, ressuscitando de entre os mortos,

iluminou o género humano com a sua luz e a sua paz

e vive glorioso pelos séculos dos séculos.

 

            Precónio Pascal

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ÍNDICE

Apresentação

 

Respirar com o universo orante

SOL

Oração perante o Sol

O Sol de justiça que não conhece ocaso

NOITE

Oração perante a Noite

A noite que brilha como o dia

ESTRELAS

Oração perante as Estrelas.

Coordenadas do Céu

LUA

Oração perante a Lua

Aspirando às coisas do Alto

ÁGUA

Oração perante a Água

Peregrinação da água

ORVALHO

Oração perante o Orvalho

O orvalho da graça.

NUVEM

Oração perante a Nuvem

No coração da nuvem luminosa

SAL

Oração perante o Sal

Até ser sal da terra

TERRA

Oração perante a Terra

A comunhão com a terra

INCENSO

Oração perante o Incenso

A oração que sobe

PÃO

Oração perante o Pão

Saborear como o Senhor é bom

VINHO

Oração perante o Vinho

No encalço do Vinho da salvação

AZEITE

Oração perante o Azeite

Força e medicina de Deus

AR

Oração perante o Ar

O nosso habitat

VENTO

Oração perante o Vento

No embalo do Espírito

 

 

O ARCO-IRIS DA LITURGIA

Branco

Revestidos de Cristo

Verde

Respirar com o universo

Vermelho

A força do amor

Roxo

Purificação

Rosa

Renovada alegria

Azul

Digna morada

Preto

Até à suprema beleza

 

CINCO TESTEMUNHOS SOBRE O NATAL

A manjedoura

A palha

As faixas de linho

O silêncio

A luz

 

AS ÁRVORES DE JERUSALÉM

A Palmeira

A Videira

A Oliveira

O Espinheiro

A Cruz

 

ORAÇÕES DO CORPO

 Os meus pés

As minhas mãos

A minha boca

Os meus olhos

Os meus ouvidos

O meu olfacto