Uma reflexão sobre o Advento - Ir. Maria José Oliveira, SFRJS | Diocese Bragança-Miranda

NÃO HAVIA LUGAR PARA ELES NA HOSPEDARIA!

Não havia lugar para eles na hospedaria (Lc 2, 7)… E quanto lugar haverá em mim?!

Jesus, quando hoje ouço dizer que, com Maria e José, foste rejeitado no momento em que ias nascer, considero a insensibilidade das gentes de Belém. É claro que eu te acolheria! Mas quando hoje ouço dizer que voltas de novo, tenho de fazer um esforço para te levar a sério, penso-o como uma ideia metafórica e poética, que me dá aso a fazer o presépio e a celebrar um Natal de há muito, muito tempo atrás!

E… voltas mesmo, Senhor?! Mas não é hoje, pois não?! Se fosse numa urgência, eu algum cantinho havia de arranjar para ti, mas quando vieres quero que tenhas instalação condigna para um Deus! Se viesses hoje, virias em muito má hora. Hoje juntaram-se-me tantos hóspedes em casa!

A presunção cavaqueia com o orgulho, na sala de estar: teria pavor que ali te deparasses com eles! Teria de arranjar modo de os despistar ou desalojar. O comodismo visita-me com frequência e traz com ele a indiferença. Ambos se apossam dos meus quartos: não tenho como os acordar e lhes dar uma ordem de despejo!

Ainda ontem chegou uma peregrinação de vendedores de ilusões e ardo de curiosidade em consultar os seus catálogos extensos… Hoje, como vês, é um tempo mau para te dispensar a atenção que mereces.

Para te acolher teria de fazer uma limpeza séria ao átrio da minha entrada. Não ficaria bem que entrasses e tropeçasses na ostentação que intimida o hóspede, que te resfriasse a astúcia que cobra a hospedagem, que sentisses desconforto ante as câmaras de vigilância que comprometem a confiança…

Mas há outra coisa que tenho de resolver, antes de te dar guarida: controlar as minhas idiossincrasias. É um problema lidar com elas! Deixo-as a entreter no ginásio, sem ter tempo, nem coragem para lhes domesticar os critérios… ao teu modo!

Se tu viesses hospedar-te em mim teria de me decidir fazer manutenção aos aposentos da alma… tenho vindo a adiar este passo pelo muito trabalho que me dá, Senhor! Tenho o mobiliário danificado por vícios e impaciências, o chão salpicado por estilhaços de conflitos, as superfícies poeirentas de intrigas, as paredes manchadas de desleixo, ornadas de convenções… umas compradas na feira, outras em lojas de marca, as prateleiras inundadas de reflexões derrotistas… Tudo teria de arejar com a leveza da alegria! E bem sabes como está cara a alegria nestes tempos depressivos!

Tenho presente também que os vidros das janelas teriam de ser limpos, com o apuro da atenção. Tu logo alterarias o sentido das minhas janelas… desde o meu espelho narcísico para as ruas carregadas de olhares carentes e caminhos desafiantes. Tu, de imediato, me voltarias a face para onde nascem os rostos dos outros e far-me-ias abrir as cortinas, deixando-os entrar como o sol da manhã… E isto, assim, de repente, dá-me calafrios!

Contigo por perto, o teu Evangelho invadiria os sótãos do meu pensamento, mas por desgraça tenho o ar pesado por juízos pulverizados, preconceitos, e nem sempre faço uso do insecticida da prudência para combater a praga das fantasias voadoras.

A tua presença na minha morada obrigar-me-ia a dar uma volta aos trastes que repousam nos sótãos da memória e que, às vezes, até me custa identificar. Levaria mesmo muito tempo a arrumar as velharias destes espaços densos: teria de aspirar o cotão do egoísmo, deitar ao lixo aqueles projectos meados, à espera do apoio do oportunismo, salvar montes de intenções boas, interrompidas por orçamentos mesquinhos, resgatar a gratidão, esquecida sob tantos dons adormecidos…

Se tu viesses teria de apurar a arte culinária. A mesa das refeições tenho-a reservada às minhas fomes, alimentada pelos recursos das minhas possessões. Tu logo repartirias o meu ser a modo de Eucaristia. Até tremo só de pensar que, na tua presença os meus celeiros, acumulados para os tempos de incertezas, seriam arrombados para alimentar as bocas dos órfãos…

Confesso que temo hospedar-te, Senhor, Tu irias colocar escadas de emergência junto às minhas mãos, e todos saqueariam o depósito do meu trabalho e das minhas habilidades. Todos te seguiriam até às portas da minha casa: estaria comprometido o meu sossego!

Mas pronto, eu tenho intenções de sujeitar-me a isto tudo! Prometo que sim, que te receberei, que não quero de modo nenhum ser incluída no catálogo dos insensíveis. Mas dá-me tempo, Senhor! Tu podes prever a hora do teu nascimento. Como Filho de Deus, tens direito a marcar a hora, não?! Bom, de qualquer modo, hoje não venhas, por favor… Hoje estou ainda a roer um tempo de urgências duras. Amanhã ainda é muito prematuro também. Deixa ver… daqui a um mês?! Não, espera… não arrisquemos, vamos fazer assim: quando vir que tenho o espaço adequado para ti, dou-te um “toque”, pode ser?

E é então que te ouço dizer: “Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo. (Ap 3, 20) Desejo ardentemente comer contigo» (Cfr. Lc 22, 15)

Oh, Senhor, atacas-me na ferida mais sensível com este desejo que afinal é teu… És Tu que queres encontrar-me?! Sabes, Tu és também o meu esperado. Mas pensava em Ti como um esperado ornamental, calado e passivo… Assim, declarado o teu desejo, fazes-me tremer! No entanto quero fazer como Tu queres. Esquece as minhas justificações gastas, os meus propósitos inconsequentes, as minhas agendas lotadas, o meu desejo adiado e vem! Vem, Senhor Jesus! Sei que não tenho capacidade de renovar-me por mim, mas faço erguer este grito do fundo das minhas entranhas, enquanto invoco o fogo que me queimará as possessões. Sim, Senhor Jesus, só esse Espírito que lavrou o ventre puríssimo de Maria para te semear terá poder para me inundar da água da humildade que me lavará a alma até ao fundo. Quero acolher-te na totalidade, na genuinidade do meu ser, porque Tu não és um hóspede, és a minha habitação, o meu abrigo e fortaleza. Tu és o Alimento que perdura. Tu és a Vida que me faz viver!

Oh, Senhor, Tu és o Amigo de todas as horas, que podes conviver com as misérias que de todo não consigo expulsar dos antros da minha fraqueza, mas me vais ajudando a ser o que Tu, como amante divino, queres encontrar de melhor em mim. Não, não posso prescindir de Ti! Tu embelezas-me, só em Ti posso aspirar à beleza, à luz imortal! Tu és o Esposo desejado, não te posso adiar, não posso resistir ao teu bater à porta… abro-te, escancaro o meu ser para ti: vem, Senhor Jesus, vem cear comigo! E fica…

Texto: Ir. Maria José Oliveira, SFRJS

Fotografia: Igreja da Encarnação - UP Senhora do Amparo (Irene Rodrigues/SDCS)