São Bartolomeu dos Mártires | Diocese Bragança-Miranda

Carta de D. Bartolomeu dos Mártires ao Vigário Episcopal de Moncorvo

 

Rde. Pter.

Gratia et patientia.

Depois que sou nesta terra, lhe tenho escrito duas ou três vezes, e esta, ao presente, somente lhe escrevo para lhe fazer saber que já cá chegaram as novas de algumas ondas que lá se levantaram contra ela, que para mim foram as mais tristes que dessa terra vieram depois que cá sou e... Não me escrevem nem o suspeito que pode ter maior culpa nestas alterações senão alguns ímpetos de palavras coléricas, que é paixão que ele já deve de conhecer em si e de que eu e outros seus amigos já o avisaram. E a verdade é que os homens que regem o mundo mais se perdem e desacreditam por palavras ásperas, que por justiças rigorosas. E sempre ouvi dizer a prudentes Prelados: «mãos longas e línguas curtas», porque são os homens tão delicados que mais sofrem demasia nas penitências que nas palavras: Vir linguosus – dizia David – non dirigetur in terra. Peço-lhe mui muito, pela honra de Deus e pela sua, que traga perpétua guerra consigo em reprimir ímpetos coléricos, e se determine nunca castigar ninguém com palavras sem primeiro as ter mastigado e contadas por peso e medida, nem creia sempre a seus serviços e zelos, porque muitas vezes lhe parecerá que tudo é zelo de Deus, e, na verdade, uma só faísca será disso, e tudo o mais será acendimento de cólera natural.

E quando algumas vezes, depois que passa o agastamento e paixão, e a consciência o acusa que excedeu o modo nas palavras, não se afronte de tornar a acafelar com brandas e prudentes palavras o que com asprezas lhe parece que acanhou. Lembre-lhe que está escrito: Non sumus percussores sed pastores. Item: Dominus dedit Mihi linguam eruditam, ut sciam quando debeam profere sermonem. E do Santo Bispo canta a Igreja: Os iusti meditabitur sapientiam et língua eius loquetur iudicium, et quod disponit sermones suos in iudicio com sumo libramine prudentiae.

            Traga diante dos olhos que é Bispo verdadeiro dessa Comarca, e não lhe pareça que é pequeno Bispado, porque seis Bispados de Itália não têm, às vezes, tantas paróquias como ela tem. E sendo assim, lembre-se que não é o principal seu negócio julgar causas no foro contencioso, mas curar doenças d’alma, entre as quais não são as menores ira e impaciência, nem pode mestre impaciente fazer discípulos pacientes e mansos, pelo que dizia um Filósofo que era grande despropósito quod Magister iracundissimus non irascendum praecipisset. Pelo qual lhe encomendo muito e amoesto que se o povo da Torre ou de Mogadouro está em alguma maneira exasperado dela que procura com entranhas de Mãe, com brandura prudente e prudência branda, delinir e untar essa chaga e samar (sic) esses corações. Falo em geral, porque não sei o que passa lá em particular.

             Bem sei que para alguns duros e contumazes há mister constância e fortaleza, e não quebrar, e assim, se é verdade que o Meirinho dos Clérigos é floxo em seu ofício e de doce e presuntuoso se despreza do seu ofício, e não quer trazer vara, é necessário humildá-lo com suspensão do ofício e ameaça-lo com privação. E sobre isso escrevo a P. frei João. Nem me parece mal que queira que os duros e soberbos conheçam a autoridade da sua vara, mas há se fazer da maneira que não nasçam turbações e escândalos nas comunidades.

            Responda-me logo a esta e mande-me novas do que lá passa e de como está já tudo em paz, por sua prudência e diligência.

            Faça encomendar nessa Comarca o processo do Concílio ao Senhor, porque até agora está começado prosperamente. Abriu-se aos 18 de Janeiro e estão nele cinco Cardeais Legados e cento e vinte Prelados, pouco mais ou menos. Confio em Nosso Senhor que tenha de pôr remédio a muitos abusos Eclesiásticos. O nosso Embaixador chegou a 7 de Fevereiro e foi recebido gloriosamente de todo o Concílio.

            Testificor coram Deo et Christo Iesu qui iudicaturus est vivos et mortuos, imple ministerium tuum, argue, obsecra in omni patientia et doctrina. Super omnia invigil in perficiendis idoneis presbyteris per parochias, porque toda a substância do nosso ofício está em pôr bons médicos nos hospitais de Deus, que são as paróquias. Digo isto naquelas onde os reitores estão legitimamente dispensados a não residir, se alguns há, porque, quanto ao negócio da residência, quero que seja um bravíssimo executor do Breve Apostólico dado ao nosso Cardeal. Nisto queria que empregasse todo o ímpeto do seu zelo sem froxo algum, pois o principal mal destes tristes tempos, e foi a raiz das outras calamidades, é que as ovelhas de Cristo não tem pastores, senão comedores, como que Cristo não ordenara suas ovelhas senão para fartar os pastores, e não para serem pastadas por eles. Neste negócio arranque da sua espada e corte por todos os mercenários ou lobos.

            Nunca mais soube se há escola de Latim, para a qual dava uma ajuda, e se em Freixo vai por diante o exercício dos Casos de Consciência. Também me escreva quantos Pregadores pregaram este ano nessa Comarca.

 

            Dominus, Charissime, te impleat Spiritu Charitatis et lenitatis.

 

Escrita em Trento, a 12 de Fevereiro de 1562

 

                                                                                  O Arcebispo Primaz

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R. ROLO, carta existente na BPMP, fundo Azevedo, ms. 51, f. 172v – 174r.

Graça e paciência.

 O caluniador não tenha assento sobre a terra, caia no infortúnio o homem violento (Sl 139,12); Que o caluniador – dizia David – não se afirme sobre a terra. (Bíblia de Jerusalém); Que os caluniadores – dizia David – não estejam firmes na terra. (Bíblia dos Capuchinhos); Não terá sobre a terra – dizia David – o homem de má língua. (João Ferreira de Almeida).

Não somos perseguidores, mas pastores. Isto é: O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos (Is 50, 4).

A boca do justo profere a sabedoria e a sua língua proclama a justiça (Sl 36, 30), e expõe as suas palavras de justiça com suma rectidão da prudência.

Que o Mestre muito iracundo não teria ensinado com ira.

Conjuro-te diante de Deus e de Jesus Cristo, que há-de julgar os vivos e os mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: Proclama a palavra, insiste a propósito e fora de propósito, argumenta, ameaça e exorta, com toda a paciência e doutrina. Sobretudo velar pelo idóneo aperfeiçoamento dos presbíteros para as paróquias.

Caríssimo, o Senhor te encha do Espírito de Caridade e mansidão.

Carta
Casa em Freixo de Espada-à-Cinta
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