Santa Maria das Graças - 22.08.2018 | Diocese Bragança-Miranda

Homilia de D. José Cordeiro, em Bragança, na Catedral, no dia da Bem-aventurada Virgem Maria, Rainha sob a invocação "das Graças" Titular da Igreja Catedral e Padroeira principal da cidade de Bragança.

SANTA MARIA DAS GRAÇAS

1. Fonte que lava

            «Virgem Mãe do mesmo Deus, Virgem Filha de Teu Filho, não há estrela de mais brilho nesses céus. (...). Navegando mas de pé, neste mar cavado embora, vou na barca salvadora que é a Fé. (...) Mãe de Deus e de Deus Filha, Mãe do Céu» (Hino da Liturgia das Horas).

Um Tropário Bizantino, ou seja, um texto litúrgico poético da Igreja do Oriente, que é cantado nas Primeiras Vésperas do Natal e repetido mais vezes no Tempo do Natal, diz assim: «Que coisa Te ofereceremos ó Cristo já que Tu, para nós, apareceste Homem sobre a terra? Cada uma das criaturas por Ti feitas, oferece-Te a ação de graças: os Anjos, o hino, os céus, a estrela, os magos, os dons, os pastores, o encanto, a terra, a gruta, o deserto, a manjedoura; mas nós oferecemos-Te a Mãe Virgem. Ó Deus que existes antes dos séculos, tem piedade de nós».

 Panagi,a – o nome mais popular que os Gregos dão à Virgem Toda Santa, a Santíssima Virgem Maria. «Avé, ó ponte que levas os homens ao céu»; «Avé-Maria! Pórtico de entrada para o insondável mistério!»; «Avé, ó fonte que lavas as almas» (Do famoso hino Akathistos).

 

2. Quem é minha Mãe e quem são meus irmãos?

O Evangelho proclamado (Mt 12,46-50) confronta-nos com a pergunta da pertença a Cristo e à Igreja. Todos os que fazem a vontade do Pai são membros da família de Deus. A vontade é a de sermos sua imagem e semelhança.

«A alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja» (Amoris Laetitia 1). Numa linguagem simples, próxima e concreta, o Papa Francisco conduz-nos a descobrir antes de mais a beleza e o valor do Matrimónio cristão como obra prima e graça de Deus criador para constituir uma família feliz. Matrimónio e família são um dom de Deus e, simultaneamente, uma vocação e missão específica do ser humano.

A linguagem deste desafiante texto, a começar pelo título «A alegria do amor» é de acolhimento e de integração das famílias na grande família de famílias, que é a Igreja. É um olhar muito positivo sobre a Família.

Todos somos imensamente amados em Jesus Cristo. Hoje, gostaríamos de lembrar especialmente as famílias, os migrantes e a minorias étnicas, longe da Família e longe da Pátria. Nestes dias de verão, as festas cristãs congregam quase todos no encontro das famílias, das aldeias, vilas e cidades, dos santuários. Para a maioria é Páscoa com Santa Maria, Mãe das Graças. Também nestes dias realiza-se o IX Encontro mundial das famílias.

Com o Papa Francisco questionamo-nos. «o Evangelho continua a ser alegria para o mundo? E mais ainda: a família continua a ser uma boa notícia para o mundo de hoje? (...) como é importante que as famílias se interroguem, frequentemente, se vivem a partir do amor, para o amor e no amor. Concretamente, isto significa doar-se, perdoar-se, não perder a paciência, antecipar o outro, respeitar-se. Como seria melhor a vida familiar, se cada dia vivêssemos as três simples palavras: “com licença”, “obrigado” e “desculpa”».

Entre nós, a emigração continua a ser significativa tanto para países da Europa (sobretudo Alemanha, Espanha, França, Luxemburgo, Reino Unido e Suiça) como para países Lusófonos (Angola, Brasil, …) e grandes áreas urbanas do litoral português.

            O êxodo reveste agora novos moldes: trabalhos sazonais em Espanha e França. Esta modalidade abrange sobretudo os sectores da construção civil, transportes, quadros técnicos especializados e técnicos superiores.

            Na sua quase totalidade os que se deslocam para migrações externas e internas são católicos. Nos países de emigração mantêm, em geral, hábitos de vida cristã e procuram assegurar a Iniciação Cristã dos filhos. É bastante habitual virem à terra para casar e baptizar os filhos.

            Paralelamente, a nossa região, como o resto de Portugal, é também zona de imigração. Bastantes cidadãos internacionais (sobretudo do Brasil e de países do Leste da Europa) trabalham no território da Diocese nomeadamente na construção civil, agricultura e serviço doméstico.

As minorias étnicas são também, entre nós, os ciganos. A Diocese, pelo Serviço Diocesano de Migrações e minorias étnicas, em articulação com o Município de Bragança e outras instituições diocesanas desejamos que todos se sintam família humana de Jesus e sejamos mais fraternos uns com os outros.

 

3. Eu sou a mãe da santa Esperança

Somos chamados a ajudarmo-nos uns aos outros a esperar, fazendo o Bem. Fazer o Bem, faz bem, mas exige um tal martírio da paciência!

O Papa Francisco, no encontro com milhares de jovens italianos, no dia 11 de agosto, dia inaugural da novena da Senhora das Graças nesta mesma Unidade Pastoral, apelou a que todos caminhos na caridade e na Esperança, com estas palavras: «É bem não fazer o mal, mas é mal não fazer o bem» (St. Alberto Hurtado).

Temos de lutar constantemente contra as murmurações, as intrigas, as bisbilhotices.... Uma verdadeira objeção de consciência. Quando alguém começar a falar mal de qualquer pessoa, tenhamos a coragem de parar a conversa e de bem dizer ou de mudar de conversa mais positiva.

O silêncio orante não é ausência de conteúdo, mas o silêncio diante da dor, do sofrimento, do mal dizer pode ser cúmplice de quantos não se querem converter ao Bem Comum.

Na carta do Papa Francisco ao Povo de Deus, escrita há 2 dias por causa do sofrimento vivido por muitos menores provocado pelo crime dos abusos, diz-nos: «“Um membro sofre? Todos os outros membros sofrem com ele”, disse-nos São Paulo. Através da atitude de oração e penitência, poderemos entrar em sintonia pessoal e comunitária com essa exortação, para que cresça em nós o dom da compaixão, justiça, prevenção e reparação. Maria soube estar ao pé da cruz de seu Filho. Não o fez de uma maneira qualquer, mas permaneceu firme de pé e ao seu lado. Com essa postura, Ela manifesta o seu modo de estar na vida. Quando experimentamos a desolação que nos produz essas chagas eclesiais, com Maria nos fará bem «insistir mais na oração» (cf. S. Inácio de Loiola, Exercícios Espirituais, 319), procurando crescer mais no amor e na fidelidade à Igreja. Ela, a primeira discípula, nos ensina a todos os discípulos como somos convidados a enfrentar o sofrimento do inocente, sem evasões ou pusilanimidade. Olhar para Maria é aprender a descobrir onde e como o discípulo de Cristo deve estar».

Toda a pessoa é para respeitar e amar, nunca para humilhar ou abusar. (Re)aprendamos com o olhar terno da Mãe das Graças através do coração a pulsar de vida, de fé, de esperança e de amor.

 

+ José Manuel Cordeiro