S. Bento, líder do povo à luz do Evangelho | Diocese Bragança-Miranda

Homilia, Solenidade de S. Bento, Padroeiro da Diocese de Bragança-Miranda (475 anos) e da Europa (56 anos), Catedral, 12 de julho de 2020.
Celebrações presididas pelo Bispo Diocesano: 10 de julho (Concatedral); 11 de julho (antigo mosteiro de Castro de Avelãs); 12 de julho (Catedral)
 
 
S. Bento, líder do povo à luz do Evangelho
 

1. Padroeiro da Diocese e da Europa

Na bela imagem de S. Bento, que veneramos aqui na catedral, inspirada naquela que se encontra no antigo mosteiro de Castro de Avelãs, sobressaem alguns elementos: a cruz, o arado, o ramo de oliveira, o báculo, o corvo, o pão e o livro. Estes símbolos caraterizam o nosso padroeiro: «mensageiro de paz, fazedor de união, mestre de civilização e, sobretudo, arauto da religião de Cristo e fundador da vida monástica no Ocidente». (S. Paulo VI).

A centralidade de Deus e da nova humanidade na “casa comum” expressam-se tão bem no mote beneditino: «Ora, lege et labora». Este é um programa que harmoniza a ação e a contemplação, o trabalho e a oração. Não se trata de mudar todo o mundo, mas de contribuir com a criatividade responsável, a atividade espiritual, política e social, para construir comunidade na família, no grupo, na empresa, na paróquia, na unidade pastoral.

 

2. S. Bento, líder humilde da Paz

Liderar é muito difícil. Liderar é servir e amar. Liderar é um serviço de humildade. Na verdade, «O “líder de comunhão” privilegia o ouvir em vez do falar, prefere o tempo ao espaço, a brandura à violência. Deixa os outros fazer por si mesmos, prefere o serviço ao lucro, o amor ao egoísmo, o acordo à imposição, a sabedoria à ideologia» (J. Morán).

No Missal Próprio da nossa amada Diocese cantamos: «... dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Jesus Cristo, vosso amado Filho. Da Sua imensa bondade e da Sua graça iluminastes a alma de São Bento, que sempre colocou o amor de Cristo em primeiro lugar, e com ele os seus filhos espirituais se consagram ao Vosso serviço. Vós o tornastes ilustre pela santidade e insigne pelos milagres, fazendo-o eminente mestre de vida monástica; e para todos o fizestes doutor de sabedoria espiritual no amor à oração e ao trabalho. Fulgurante guia do povo à luz do Evangelho, subindo aos céus por uma estrada luminosa, ele ensina os homens de todos os tempos a encontrarem-Te, no caminho certo e a usufruir das riquezas que para nós preparastes» (Prefácio de S. Bento).

S. Bento é um líder do povo à luz do Evangelho, com um fogo interior que abrasa o coração, iluminando e contagiando na alegria e na liberdade da paz. Ele deixou tudo para seguir Jesus Cristo (Evangelho), recebendo em recompensa o cêntuplo “das alegrias da vida eterna” (Sta. Escolástica). Nele, a oração era “momento de eternidade” no tempo.

 

3. Escutar a Paz do coração

Como posso ser artesão de paz e de unidade? Porque que coisa arde o meu coração? De quem me aproximo eu? Que lugar têm os mais velhos na minha vida? Que me quer dizer este tempo duro que vivemos juntos? As estatísticas deixam-me ver a realidade? São algumas perguntas que nos desafiam a escutar a Paz do coração.

S. Bento deixou uma Regra, há quase 1500 anos, que continua viva e muito válida, começando assim: «Escuta, filho, os preceitos do Mestre e inclina o ouvido do teu coração, aceita de boa mente o conselho dum pai cheio de ternura e põe-no em prática, para que, pelo trabalho da obediência, tornes a Aquele de quem, pela cobardia da desobediência, te afastaras». Este caminho é um trilho integral de regresso a Deus, do qual nos distanciamos e aponta prudências saudáveis para a vida familiar, convivência e relações sociais. Escutar é um permanente desafio!

A escuta tem de ser entendida no sentido pleno, designando «uma atitude global que inclui a obediência: com efeito, obedecer vem de uma palavra latina que quer dizer escutar (oboedire ou obaudire)» (J. Lucas). Por isso, a primeira leitura do livro dos Provérbios interliga-se com o prólogo da Regra de S. Bento. «... dando ouvidos à sabedoria e inclinando o coração para a verdade».

No documento Recomeçar e reconstruir, os Bispos da CEP auguramos: «Esta pode ser uma ocasião para implementar a globalização da solidariedade, desde logo no plano da saúde pública, a qual não pode deixar de ter, hoje mais do que nunca, uma dimensão universal. Tornar universal o acesso à futura vacina contra a Covid-19 é dos primeiros passos nesse sentido. A União Europeia enfrenta um desafio que talvez seja o maior da sua história: perante a crise económica e social gerada pela pandemia, deverá atuar como uma verdadeira comunidade em que cada um dos seus membros sente como seus os dramas que atingem os outros» (CEP, 16.06.2020).

Onde estão as raízes autênticas do Evangelho na Europa? Encontramo-las na família, na comunidade cristã, na cultura integral, na (agri)cultura, no património imaterial e material, na convivialidade plural do verdadeiro humanismo.

A Europa, sob a proteção de S. Bento, seja, cada vez mais, um lugar de paz e de solidariedade, para recomeçar na Esperança.                              

+ José Cordeiro