Nota Pastoral para o Ano do Batismo, o Dom da água que dá vida verdadeira e eterna | Diocese Bragança-Miranda

«Se conhecesses o Dom de Deus» (cf. Jo 4, 5-42)

A nossa Diocese de Bragança-Miranda, desafia-se, para o triénio litúrgico pastoral 2017-2020, para continuar a caminhar na fé da Igreja sempre desperta, vivendo e proclamando nos areópagos de hoje a alegria do encontro com Jesus Cristo sob o lema vital: Por Cristo, com Cristo e em Cristo.

Como rezamos na Liturgia, a Igreja é por essência peregrina: «Ó Igreja de Cristo peregrina, Ele é o Sol que à tua frente avança; Proclama Jesus Cristo glorioso, Anuncia a palavra da esperança» (Hino Tempo pascal). No caminho da missão, os peregrinos experimentam: o gozo e o temor do desconhecido, a partilha, a escuta das Escrituras, a fraternidade, o sentido da pertença ao povo de Deus, o calor da comunhão, a alegria da celebração, o sabor da oração, a beleza da criação e a liberdade da mobilidade humana.

Conforme o nosso projeto pastoral trienal, construído em caminho sinodal, ousaremos promover a Iniciação Cristã, como processo de formação integral da fé e como que um sacramento em três etapas sacramentais: Baptismo, Confirmação e Eucaristia, que implique uma atitude de viver como discípulo missionário em fidelidade ao amor de Deus. Tornar-se Discípulo Missionário em caminho com Jesus Cristo, eis o convite desafiante do Ser Cristão, como escreveu Santo Ambrósio: «Cristo é tudo para nós».

1. Iniciação Cristã

Por Iniciação Cristã ou iniciação à fé da Igreja, entende-se os três sacramentos – Batismo, Confirmação e Eucaristia – que inserem o fiel no corpo da Igreja. Todavia, a Iniciação Cristã é muito mais que a preparação para a celebração destes sacramentos, sendo uma iniciação ao mistério de Cristo, ao mistério da Igreja e à vida cristã através dos sacramentos. De facto, chegou o tempo de se «oferecer a todos os fiéis uma iniciação cristã exigente e atrativa, comunicadora da integridade da fé e da espiritualidade radicada no Evangelho, formadora de agentes livres no meio da vida pública» (Bento XVI, aos Bispos de Portugal em Fátima, 13 de maio de 2010).

Antes de mais, para este triénio, o Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos (RICA) será o caminho referencial.  A Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa – Catequese: a alegria do encontro com Jesus Cristo – servirá de GPS para a nossa ação pastoral diocesana. Ainda, o livro editado pelo Secretariado Nacional de Liturgia – Catequeses para a Iniciação Cristã – será uma preciosa ajuda no caminho das Paróquias e das Unidades Pastorais.

O Papa Francisco na Visita Ad Limina Apostolorum de 2015 pediu-nos: «para passar do modelo escolar ao catecumenal: não apenas conhecimentos cerebrais, mas encontro pessoal com Jesus Cristo, vivido em dinâmica vocacional segundo a qual Deus chama e o ser humano responde». 

Não podemos esquecer que «Todos somos Discípulos Missionários» (Evangelii Gaudium 120) e chamados a passar de discípulos a missionários: «Ide, fazei discípulos de todas as nações; baptizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e ensinai-lhes a cumprir tudo quanto vos mandei» (Mt 28,19-20).

A Iniciação Cristã apresenta uma unidade dinâmica, não de índole cronológica, mas de nível teológico. Internamente os três sacramentos, Baptismo, Confirmação e Eucaristia, estão orientados entre si, como um processo formativo e uma verdadeira escola de fé, de esperança e de caridade.

Os preliminares gerais do Ritual Romano, tanto da celebração do Baptismo das crianças como na Iniciação Cristã dos adultos, afirmam a centralidade da celebração do mistério pascal de Cristo: «pelos sacramentos da Iniciação Cristã, os homens, libertos do poder das trevas, mortos com Cristo, e com Ele sepultados e ressuscitados, recebem o Espírito de adopção filial e celebram, com todo o povo de Deus, o memorial da morte e ressurreição do Senhor. Com efeito, unidos a Cristo pelo Baptismo, eles são constituídos em povo de Deus e, depois de recebido o perdão de todos os pecados, libertos do poder das trevas, passam ao estado de filhos adoptivos, feitos nova criatura pela água e pelo Espírito Santo, pelo que são chamados e são de verdade filhos de Deus». Com efeito, a fecundidade da celebração sacramental é dada pela função insubstituível da comunidade cristã que acolhe e agrega a si o crente e o torna participante no mistério da morte e Ressurreição de Cristo. Estas premissas ao rito oferecem os grandes temas doutrinais em relação à fé, ao mistério pascal, à entrada na comunidade eclesial e ao conjunto da Iniciação cristã, nos quais gravita a celebração do Baptismo.

A Iniciação Cristã, enquanto incorporação ao Mistério de Cristo e da Igreja, não se limita só à celebração dos sacramentos, apesar de ser o seu ponto culminante. Neste sentido o Catecismo da Igreja Católica refere: «desde o tempo dos Apóstolos que tornar-se cristão é programa que se processa através dum itinerário e duma iniciação em diversas fases. O itinerário pode ser percorrido rápida ou lentamente. Mas deverá sempre incluir certos elementos essenciais: o anúncio da Palavra, o acolhimento do Evangelho que implica a conversão, a profissão de fé, o Baptismo, a infusão do Espírito Santo, o acesso à comunhão eucarística» (Catecismo da Igreja Católica 1229).

Nos caminhos progressivos da escolha da fé e da conversão, a prioridade é dada à evangelização. A Palavra inicia, acompanha e segue cada etapa da Iniciação Cristã, porque ler, meditar, rezar, contemplar as escrituras «é como passear pelo mundo agarrando Deus pela mão» (Y. Raguin). Alguém se torna cristão, porque adere à Palavra que é proclamada, escutada e celebrada. «A fé, feliz dom de Deus, é o primeiro sinal, o primeiro presente da caridade divina para connosco. O amor de Deus manifesta-se-nos primeiro com a vocação à fé» (Paulo VI).

2. O Dom da água que dá a vida

No primeiro Ano deste itinerário da Iniciação Cristã, escolhemos o texto do evangelho segundo S. João que a Liturgia oferece no terceiro Domingo da Quaresma, do ciclo A, que bem sublinha o caminho baptismal e que melhor anuncia a todos, especialmente, aos Catecúmenos como a sua sede de Deus é saciada. Neste domingo, o início do tempo da purificação na Iniciação Cristã dos Adultos, celebra-se o primeiro escrutínio para “os eleitos”. Queremos, por isso, sublinhar o Dom da água que dá vida, o Baptismo, qual «Fonte de água que jorra para a vida eterna» (cf. Jo 4, 5-42) e como a samaritana no poço queremos conhecer mais e melhor o Dom de Deus.

A água, só por si, não dá a vida, mas a água, transformada por Cristo, salva e dá a vida. Com um autor do séc. II, podemos, com efeito, afirmar: «felizes daqueles que, pondo toda a sua esperança na cruz, desceram à água do Baptismo». Com efeito, a fé mergulha no dom da água que dá a vida.

A propósito, são muito expressivas as palavras da mensagem ao Povo de Deus da XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, publicada no 3 de novembro de 2012:

«Deixemo-nos iluminar por uma página do Evangelho: o encontro de Jesus com a mulher samaritana (cf. Jo 4, 5-42). Não há homem nem mulher que, na sua vida, não se encontre, como a mulher da Samaria, ao lado de um poço com uma ânfora vazia, na esperança de encontrar que seja satisfeito o desejo mais profundo do coração, o único que pode dar significado pleno à existência. Hoje são muitos os poços que se oferecem à sede do homem, mas é preciso discernir para evitar águas poluídas. É urgente orientar bem a busca, para não ser vítima de desilusões, que podem arruinar. Como Jesus no poço de Sicar, também a Igreja sente que se deve sentar ao lado dos homens e mulheres deste tempo, para tornar presente o Senhor na sua vida, para que o possam encontrar, porque só o seu espírito é a água que dá a vida verdadeira e eterna. Só Jesus é capaz de ler no fundo do nosso coração e de nos revelar a nossa verdade: “Disse-me tudo o que fiz”, confessa a mulher aos seus concidadãos. E esta palavra de anúncio — à qual se junta a pergunta que abre à fé: “Será Ele o Cristo?” — mostra como quem recebeu a vida nova do encontro com Jesus, por sua vez não pode deixar de se tornar anunciador de verdade e de esperança para os outros. A pecadora convertida torna-se mensageira de salvação e conduz a Jesus toda a cidade. Do acolhimento do testemunho o povo passará à experiência pessoal do encontro: “Já não é pelas tuas palavras que nós cremos, mas porque nós mesmos ouvimos e sabemos que Ele é deveras o salvador do mundo”».

Ninguém nasce cristão, torna-se cristão pelo Batismo, a fonte de todas as vocações. O percurso iniciático, o catecumenado, de âmbito catequético-litúrgico e moral destina-se não apenas a fazer o cristão, mas a própria Igreja. A insistência do caracter sacramental da Iniciação quer sublinhar a iniciativa divina gratuita de Deus. A evangelização exige o tempo da maturação na fé no tempo a que se chama catecumenado. «Quando se assume um objectivo pastoral e um estilo missionário, que chegue realmente a todos sem exceções nem exclusões, o anúncio concentra-se no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário. A proposta acaba simplificada, sem com isso perder profundidade e verdade, e assim se torna mais convincente e radiante» (Papa Francisco, Evangelii Gaudium 35).

Na tradição da Igreja, o catecumenado antecede o Baptismo dos Adultos e «pela sua própria natureza, o Baptismo das crianças exige um catecumenato pós-baptismal. Não se trata apenas da necessidade duma instrução posterior ao Baptismo mas do desenvolvimento necessário da graça baptismal no crescimento da pessoa. É o espaço próprio da catequese» (Catecismo da Igreja Católica 1231).

3. A alegria do encontro com Jesus Cristo

Como lembramos na referida Carta Pastoral dos Bispos de Portugal, o encontro com Jesus Cristo é para todos: crianças da primeira infância, crianças da infância, adolescentes, jovens, adultos. Na verdade, «ainda hoje os cristãos são ou devem ser assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações (At 2,42). Atividades em que o Ressuscitado vem igualmente ao nosso encontro, para d’Ele, com Ele e para Ele vivermos» (n. 6).

A pastoral actual na nossa Diocese é ainda muito marcada pelo modelo de cristandade, apresentando muita dificuldade, e às vezes, muita resistência para assumir uma reviravolta missionária. Esta conversão pessoal, pastoral e missionária é claramente proposta pelo Papa Francisco: «sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual que à auto-preservação» (Evangelii Gaudium 27).

Na cuidada atenção à Família e ao Matrimónio, gostaríamos de encontrar lugares criativos de encontro, onde a fé, o discernimento e a vocação, constituem um enorme desafio a acompanhar nos próximos tempos e em especial com os adolescentes e os jovens. Não esqueçamos, por isso, que todos somos corresponsáveis como discípulos missionários do Evangelho, a ser uma família de famílias.

Felizmente já existem algumas boas práticas neste caminho progressivo da fé, mas na maioria das Unidades Pastorais, ainda não passamos de boas intenções. Na verdade, já existem comunidades que oferecem «à catequese pós-baptismal uma dinâmica e algumas notas qualificativas: a intensidade e a integridade da formação; o seu carácter gradual, com etapas definidas; a sua vinculação com os ritos, símbolos e sinais, especialmente os bíblicos e litúrgicos; a sua constante referência à comunidade cristã...» (Directório Geral da Catequese, 91). Algumas ações da escuta da Palavra, de lectio divina, de celebração litúrgica, de adoração eucarística, de caridade, de formação permanente paroquial, da Unidade Pastoral, do Arciprestado e da Diocese têm contribuído muito para esta consciência de pertença a Cristo e à Igreja e ao novo paradigma pastoral da corresponsabilidade eclesial.

Precisamos de Paróquias e Unidades Pastorais, no sentido de comunidade de comunidades, onde as pessoas, os grupos, as relações humanas e os espaços de comunicação sejam mais importantes que as estruturas, a organização e os serviços. Na realidade, «Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual. Na realidade, toda a ação evangelizadora autêntica é sempre “nova”» (Evangelii Gaudium 11).

Neste Ano Litúrgico-Pastoral dedicado ao Baptismo, o Dom da água que dá vida verdadeira e eterna, também podemos cantar com S. Francisco de Assis, no Cânticos das Criaturas: «louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta».

Este Ano é uma ocasião feliz para cada um de nós fazer uma peregrinação à fonte baptismal onde foi baptizado e de celebrar, na alegria da fé, o dia do aniversário do Baptismo.

A Virgem Santa Maria, Mãe da Igreja, nos acompanhe no caminho do encontro «mantendo os olhos fixos em Jesus, autor e consumador da fé» (Heb 12,2) e na proposta alegre da ousadia do Evangelho a fazer a todos e a cada um: «Se conhecesses o Dom de Deus!» (cf. Jo 4, 5-42).

O caminho para Deus Pai, «a fonte de toda a santidade» (Oração Eucarística II), é por Cristo, com Cristo e em Cristo, no louvor, no amor infinito e no Dom (Espírito Santo).

Queira Deus que sigamos a exortação do nosso padroeiro, S. Bento: «não prefiram absolutamente nada a Cristo, nada preferir ao amor de Cristo».

 

Abraço-vos cordialmente por Cristo, com Cristo e em Cristo

Bragança, 7 de outubro de 2017, 16º aniversário da dedicação da Catedral.

+ José Manuel Cordeiro

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Fotografia: Baptistério da Igreja da Senhora da Encarnação, na Unidade Pastoral Senhora do Amparo, de Mafalda Neves.

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