Missa Crismal inaudita em tempo de pandemia Covid-19 | Diocese Bragança-Miranda

Pastores discípulos eucarísticos permanentes

Catedral, 22.05.2020

 

Saudação a todos, especialmente aos 5 aniversariantes de ordenação (25 e 50 anos) e a memória dos 3 Padres falecidos este ano e todos os Pastores e benfeitores defuntos.

A Eucaristia é vital (cume, fonte e centro) na missão dos presbíteros e da Igreja toda. Jesus Cristo confiou à Igreja «sua Esposa amada, o memorial da sua Morte e Ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, alma se enche de graça e nós é concedido o penhor da glória futura» (SC 47).

Hoje, na nobre simplicidade da celebração eucarística sublinha-se o sacramento dos sacramentos e sacramentais, o Santíssimo Sacramento, consagrando e benzendo o azeite para a celebração do Batismo, da Confirmação, da Unção dos Doentes, da Ordenação dos Presbíteros e do Bispo, da dedicação da igreja e do altar.

A Missa Crismal, hoje, 22 de maio de 2020, no grande espaço da nossa Catedral: festeja em “radiosa tristeza” o 475º aniversário da criação da nossa amada Diocese; agradece decisivamente em Tempo Pascal, a 40 dias da solenidade da Páscoa da Ressurreição do Senhor, embora com o sabor do grão de amendoeira amargo, o dom do mistério e do ministério da vocação cristã; recomeça na esperança “em tempo de vésperas” e experimenta as orientações para as celebrações litúrgicas comunitárias no bom senso humano e pastoral.

A Missa Crismal sinaliza igualmente o dia diocesano: do Crismando; do Ministro Extraordinário da Comunhão; dos Ministérios Laicais e serviços relacionados com o azeite dos Catecúmenos, dos Enfermos e do Santo Crisma.

 

1. Pastores discípulos eucarísticos permanentes...

Jesus deu-nos três mandamentos inteiriços: «fazei isto em memória de Mim» (Lc 22,19); «amai-vos uns aos outros. Assim como Eu vos amei, também vós deveis amar-vos uns aos outros» (Jo 13,34); «ide, fazei discípulos entre todas as nações e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28, 19).

O Sacerdócio batismal de todos e o nosso Sacerdócio ministerial é ainda mais claro ao considerarmos a passagem evangélica do lava-pés, lugar onde Jesus revela o Seu amor total de eterna vida. Para Jesus, a única autoridade é o serviço. E nós somos «servos inúteis a tempo inteiro» (D. Tonino Bello) e o não queiramos ser em part-time, porque o último lugar já está ocupado por Jesus Cristo (cf. Beato Charles de Foucauld).

A ação pastoral não esteve suspensa mesmo neste tempo de pandemia do Covid-19, onde se evidencia ainda mais o tom eucarístico de nos pormos aos pés dos que mais precisam, embora fosse tempo de coração encolhido com “Missas sem povo e povo sem Missa”. A aparente “calma apostólica” está a ser fecunda gerando renovados bons pastores e redescobrindo os ministérios laicais e serviços eclesiais. Ser eucarístico é ser permanente manifestação da presença de Jesus Cristo Pastor nossa Páscoa e nossa Paz.

Jesus é mestre no servir e interpela-nos a fazer o mesmo. «Jesus não fala, quando se ajoelha diante dos discípulos para lhes lavar os pés. O seu ato vale pela palavra: o seu ato faz corpo com a sua palavra ou a sua palavra faz corpo com o seu ato. O seu ato é palavra» (José A. Mourão).

A Eucaristia é, com efeito, para cada Presbítero, dom e serviço: «Esta é a sua função específica, principal e não delegável» (Francisco QA 87). Recordamos que a Liturgia é a celebração do sacerdócio de Cristo (cf. SC 7). Ele está presente entre nós, especialmente na celebração da Eucaristia.

 

2. ...em Jesus Cristo

A expressão singular de sermos em Jesus Cristo é o Evangelho da Esperança, que Jesus propõe no caminho de santidade das Bem-Aventuranças (cf. Mt 5, 3-12) e, entre estes, a obediência, o celibato e a pobreza, a serem vividos na condição própria do presbítero diocesano com o povo fiel e santo de Deus.

A obediência pastoral define-se essencialmente a partir da escuta e disponibilidade para seguir o chamamento, na entrega total de si, como Cristo: «eis que eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade, como no livro está escrito a meu respeito» (Hb 10,7). Ele foi o verdadeiro obediente. Tal obediência faz com que o presbítero «não se feche em si, nem se celebre a si mesmo, mas que esteja atento à vontade de Deus e depois se mostre disponível e disposto a fazer o que percebeu como exigência de Deus» (Greshake).

O celibato é o dom de si, sinal da consagração do coração inteiro a Jesus Cristo e com Ele à Igreja: «imita o que virás a realizar». Esta expressão da ordenação presbiteral sintetiza o núcleo da espiritualidade presbiteral centrada na Eucaristia, desafiando o presbítero a converter-se em imagem viva do mistério celebrado para quem ama mais que querer ser amado. Sim, à totalidade e à gratuidade da caridade vivida na partilha. Não basta o convívio, é necessária a partilha.

A pobreza do presbítero é estilo bondoso na sequela Christi, conforme escreveu há 75 anos na abertura do último Sínodo Diocesano, um nosso estimável predecessor D. Abílio: «Nós, pastores, devemos ser perante o nosso rebanho a imagem viva do Divino Pastor no desapego dos bens temporais, no zelo ativo, ardente da salvação das almas, no sacrifício da nossa saúde e da nossa vida por esta que é a mais nobre das causas! Adotemos esta norma de ação: bem servir a Deus e bem servir as almas. À imitação do Divino Mestre, pratiquemos a virtude antes de a recomendarmos pela palavra aos outros. Nestes tristíssimos tempos em que o materialismo impera como soberano em todas as classes sociais, é mais do que nunca urgente a nossa ação salvadora». A simplicidade de vida e a partilha têm de ser uma realidade cada vez mais generosa entre nós. Por isso, não podemos agradar a Deus e ao dinheiro.

O princípio fundamental permanece: trata-se de viver o que se celebra, de tomar o ministério eucarístico como modelo, de assumir uma condição de oferecimento de si mesmo em tão nobre e simples missão. Os Padres são homens da ação com «mãos longas e línguas curtas» (S. Bartolomeu dos Mártires), centrados na Eucaristia, que é ao mesmo tempo, cume e fonte de toda ação da Igreja. Não será o tempo de “menos Missas e melhor Missa”, após da experiência de “Missas sem povo e do povo sem Missa”?

 

3. ...nos conduza todos juntos à vida eterna

Os Presbíteros santificam-se vivendo a caridade na forma pastoral, como rezamos na Oração Eucarística desta Missa Crismal: «como verdadeiras testemunhas da fé e da caridade, comprometem-se generosamente a cumprir a sua missão, prontos, como Cristo, a dar a vida por Vós e pelos homens seus irmãos».

Estamos a realizar obras no nosso tão querido Seminário de S. José, casa pastoral aberta a todos: Presbíteros, Diáconos e esposas, Leigos, Movimentos, Serviços eclesiais, Grupos, especialmente para a formação inicial e permanente do Clero e dos Leigos na hospitalidade e na espiritualidade. A todos convidamos à caridade na partilha e na generosidade. Todos os sacerdotes fomos seminaristas; alguns de nós fomos e somos ali formadores; todos somos corresponsáveis na missão do Seminário, escola viva do Evangelho da Vocação.

Damos graças a Deus pelo Presbitério que somos, pelos Párocos que temos. Graças ainda pelos benfeitores do Seminário e da Diocese. Gostaríamos de dizer que a Diocese quer cuidar bem de todos e de cada um nas boas práticas da cultura do cuidar que nasce e se fortalece na Eucaristia. Os Presbíteros sintam cada vez mais o Seminário de S. José, o Instituto Diocesano do Clero e a Fundação Betânia como casas da comunhão, da partilha, da oração, do descanso e do encontro em todos os momentos da sua vida, em especial na velhice e na fragilidade do nosso sacerdócio.

Renovamos a gratidão, neste momento da ‘linha da retaguarda orante’, os da ‘linha da frente’ a sua heroicidade e dedicação à dignidade da vida humana: aos médicos, aos enfermeiros, aos técnicos, aos auxiliares, aos voluntários: nos lugares da saúde da ULSNE, nas casas, nos lares, nas IPSS’S (queremos agradecer especialmente à Cáritas Diocesana, às Fundações, aos Centros Sociais Paroquiais e às Santas Casas da Misericórdia); às escolas; aos profissionais: da PSP; da GNR; dos Bombeiros; dos Estabelecimentos prisionais; da comunicação social e de tantos e tantas de quem nem sequer sabemos o nome e todo o bem que fazem. Muito obrigado! «A oração é a força da Esperança» (Papa Francisco).

É nos gestos de amor, de partilha, de serviço, de encontro, de fraternidade, que encontramos Jesus Cristo vivo, a transformar e a renovar o mundo.

Peçamos juntos ao Senhor que nos livre de orbitar sobre nós mesmos e nos conceda o dom da unidade e da fidelidade na paz fraterna. «Sofre ao menos com paciência, se não podes sofrer com alegria» (Imitação de Cristo 57, 2).

O nosso Presbitério e toda a nossa Diocese seja cada vez mais um lugar de caridade fraterna e como nos recorda S. Bento, nosso padroeiro: «nada absolutamente anteponham a Cristo, o qual nos conduza todos juntos à vida eterna». Com a Mãe, a Senhora das Graças, reaprendamos que: «Ele não é só Cristo, mas também crisma: “o teu nome é um myron derramado” (Ct 1,3)» (N. Cabasilas).

Jesus Cristo nos conduza todos juntos à Vida eterna. Todos juntos! Todos unidos em Jesus Cristo!

+ José, Bispo de Bragança-Miranda