Missa Crismal - «Doar-se no Dom total da Graça, como Maria» | Diocese Bragança-Miranda

Missa Crismal

Catedral de Bragança, 13 de abril de 2017

Doar-se no Dom total da Graça, como Maria

 

A solene Liturgia da Missa Crismal, mostra bem o sentido pleno da Igreja que peregrina neste território do Nordeste Transmontano, celebrando aqui na Catedral o dom da Graça dos sacramentos, especialmente do sacerdócio. Na verdade, com a bênção do azeite para os Catecúmenos e dos Enfermos e a consagração da mistura do azeite e perfume do Crisma, para a Confirmação, a Ordenação dos Presbíteros e dos Bispos e da dedicação da igreja e do altar e com a renovação das promessas sacerdotais cantamos com toda a alma a gratidão do dom da Graça, como a Virgem Santa Maria.

1. O azeite, dom perfumado da unção

Há uma quadra popular que ouvi na minha aldeia, que exprime bem a relação da azeitona e do azeite com o dom total da Graça sacramental da Páscoa de Cristo: «verde foi meu nascimento/ e de luto me vesti /para dar a luz ao mundo/ mil tormentos padeci».

O azeite deste ano é oferecido pelo santuário do Imaculado Coração de Maria de Cerejais, a Fátima do Nordeste. O simbolismo do azeite é muito forte na liturgia dos sacramentos e na adoração perene da Eucaristia junto do sacrário. Igualmente a oliveira carrega uma riqueza simbólica de paz, fecundidade, alegria e vitória.

2. Doar a vida toda por Deus e pelos irmãos

O texto do Prefácio desta Eucaristia intitula-se: «O sacerdócio de Cristo e o ministério dos sacerdotes» e faz a Igreja rezar assim ao Pai: «Pela unção do Espírito Santoconstituístes o vosso Filho Unigénitopontífice da nova e eterna aliança,e no vosso amor infinitoquisestes perpetuar na Igreja o seu único sacerdócio. Ele revestiu do sacerdócio real todo o seu povo santo, e, de entre os seus irmãos, escolheu homensque, mediante a imposição das mãos,participam do seu ministério sagrado. Eles renovam em seu nome o sacrifício da redenção humana, preparando para os vossos lhos o banquete pascal;dirigem com amor fraterno o vosso povo santo, alimentam-no com a palavra e fortalecem-no com os sacramentos. Como verdadeiras testemunhas da fé e da caridade, comprometem-se generosamente a cumprir a sua missão, prontos, como Cristo, a dar a vidapor Vós e pelos homens seus irmãos».

O sacerdote é aquele cristão a quem foram impostas as mãos para o serviço inteiro do Evangelho da Esperança. Por isso, não desiludamos o povo santo de Deus com a nossa vida. A nossa vida há-de ser honesta, sóbria, alegre, em serviço humilde e totalmente disponível para escutar e acompanhar a todos, especialmente os mais pobres. A nossa relação há-de ser vivida sem inveja, ciúme e intriga, ou como diz S. Bento na regra: «e o que houver recebido a ordenação veja não se deixe levar pela exaltação do orgulho». A nossa vida há-de ser uma arte possível do discernimento. A nossa vida há-de ser resposta à pergunta que hoje mesmo se renova nesta Liturgia: «quereis permanecer fiéis dispensadores dos mistérios de Deus na celebração eucarística e nas outras ações litúrgicas e desempenhar fielmente o ministério da pregação, como seguidores de Cristo, Cabeça e Pastor, sem ambicionar bens temporais, mas movidos unicamente pelo zelo das almas?»

Não será que alguns padecem de “anemia espiritual”? sem doação total a Cristo e à Igreja? Peçamos com confiança, a graça corajosa da conversão progressiva para crescer e viver em Cristo, sujando as mãos ao serviço do Evangelho e dos irmãos, mas permanecendo com o coração limpo.

Doai a vida, caros Presbíteros, e não só a gasteis, ou melhor, gastai a vida doando-vos a Deus e aos irmãos, porque alguns gastam-se sem nunca se doarem inteiramente.

Como nos lembra o Papa Francisco: «O povo de Deus precisa de ser guiado por pastores que gastam a sua vida ao serviço do Evangelho. Por isso, peço às comunidades paroquiais, às associações e aos numerosos grupos de oração presentes na Igreja: sem ceder à tentação do desânimo, continuai a pedir ao Senhor que mande operários para a sua messe e nos dê sacerdotes enamorados do Evangelho, capazes de se aproximar dos irmãos, tornando-se assim sinal vivo do amor misericordioso de Deus».

Renovo aqui e agora a questão que continuamos a refletir no Conselho Presbiteral? No actual contexto de paróquias, párocos e novos recursos, como fazer mais Igreja, criando maior Comunhão, com maior Consciência Missionária e Comunidades mais abertas à eclesialidade?

3. Hoje mesmo aberto ao amanhã de Deus

A palavra Hodie ou Hoje, que está aqui no ambão da Catedral e que escutámos no Evangelho, refere-se ao eterno “hoje” da Liturgia, na qual se torna presente o único e mesmo mistério de Cristo. Ele utilizou o termo “hoje mesmo” quando exortava a aprofundar todas as Escrituras a partir do seu acontecimento pessoal, proclamando a sua missão na sinagoga de Nazaré (cf. Lc 4,21).

A Irmã Odete Prévost, martirizada na Algéria no dia 10 de novembro de 1995 deixou isto escrito sobre o hoje e o amanhã de Deus: «vive o hoje: Deus to oferece, é teu, vive-o n’Ele. O amanhã é de Deus, não te pertence. Não deixar para amanhã as preocupações de hoje: o amanhã é de Deus, recomeça-o n’Ele. O momento presente é uma ponte frágil: se o sobrecarregas com as lamentações de ontem e com a inquietação de amanhã, a ponte cede e tu não podes passar. O passado? Deus o perdoa. O futuro? Deus o dá. Vive o hoje em comunhão com Ele».

4. O rosto materno da Igreja

Na feliz oportunidade do centenário da Mensagem de Fátima e do Ano Litúrgico-pastoral Mariano na nossa amada Diocese, é bom recordar, como diz a carta pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa: «a mensagem de Fátima inspira a Igreja a encontrar e a aprofundar os traços do seu rosto mariano». De facto, também nós: «No trilho da imensa multidão dos peregrinos que desejam beber do Evangelho nas fontes de Fátima e se confiam ao cuidado materno da Senhora do Rosário, a Igreja rejubila com o dom do acontecimento de Fátima neste seu centenário», como sinal de Esperança para o nosso tempo.

O Concílio Vaticano II apresenta-nos claramente Maria, como o maravilho exemplo da docilidade ao Espírito Santo: «Ela, a quem os presbíteros devem amar e venerar com devoção e culto filial, como Mãe do sumo e eterno sacerdote, como rainha dos Apóstolos e auxílio do seu ministério» (cf. Presbyterorum ordinis, 18).

Como a Virgem Santa Maria, vivamos o dom do mistério recebido na fidelidade, na confiança e no crescimento contante da fé.

+ José Cordeiro