Homilia de Sexta-feira Santa | Catedral, 10.04.2020 | Diocese Bragança-Miranda

Amor mais forte que a morte

Catedral, Bragança, 10 de abril de 2020

 

1. A fé na Cruz

A fé na Cruz é a arte de servir na Esperança com o amor que até é mais forte que a morte! Um filósofo contemporâneo escreveu. «Há coisas que para nós, humanos, são demasiado grandes: a dor, a solidão e a morte, mas também a beleza, o sublime e a felicidade. Foi para isso que criámos a religião. E o que é que acontece quando a perdemos? Acontece que aquelas coisas continuam a ser demasiado grandes para nós. Resta-nos então a poesia da vida individual. Mas será que ela é suficientemente forte para nos sustentar?» (P. Mercier)

 A paixão de Jesus Cristo continua na humanidade em tempo duríssimo da pandemia covid 19: nos doentes, nos idosos, nos que vivem sós, nos esquecidos da sociedade, nos jovens sem rasgos de futuro, nos desempregados, nos emigrantes, nos pobres, nas vítimas de violência física e psicológica e nos desanimados da vida, mesmo aqui no Nordeste Transmontano.

Por isso, ousamos dizer: «adoramos, Senhor a vossa Cruz, louvamos e bendizemos a vossa ressurreição gloriosa: pela Cruz veio a alegria ao mundo inteiro». De facto, «Ele, ao morrer, matou em Si a morte; nós somos livres da morte pela sua morte» (St. Agostinho).

 

2. Mater dolorosa - Pietà

A Virgem Santa Maria, participou de pé neste momento crucial da nossa história da salvação. Nos Evangelhos são seis as vezes em que Maria fala, sempre em poucas palavras, excetuando o cântico do Magnificat. Todavia, alguns autores dizem até que falou por setes vezes, sendo a sétima palavra, aquela junto à cruz, a mais eloquente, porque brotou do silêncio.

«Maria, que estava junto da Cruz de Seu Filho, teve de acolher uma vez mais a vontade de Cristo, Filho de Deus. Mas enquanto, no Gólgota, o Filho lhe indicava um só homem, João, Seu discípulo amado, aqui Ela teve de os acolher a todos. Todos nós, os homens deste século e da sua difícil e dramática história. Mãe do Redentor! Mãe do nosso século! Tu estás e permanecerás, porque o Filho Unigénito de Deus, Teu Filho, Te confiou todos os homens, quando ao morrer sobre a Cruz nos introduziu, no novo princípio de tudo quanto existe. A tua maternidade universal, ó Virgem Maria, é a âncora segura de salvação da humanidade inteira. Mãe do Redentor! Cheia de Graça! Eu Te saúdo, Mãe da confiança de todas as gerações humanas!» (S. João Paulo II)

O silêncio de Maria que estava de pé junto à cruz é a “palavra “-síntese de toda a sua vida cheia de amor e esperança. Ela é mãe e crente.

Que grandeza há no silêncio – não o silêncio nefasto da falta, mas no da virtude, que é perfeito quando dele não se tem consciência – e que força se pode extrair dele. A alegria cristã é a simplicidade de uma fé, a seriedade de uma esperança, a vitalidade do amor.

Com uma oração escrita por Abbé Henri Pereyve (1831-1865), gostaríamos de cruzar o nosso olhar com o olhar do coração da Senhora das Graças e dizer-lhe com o coração ao alto:

 

«Virgem Santíssima, na vida gloriosa em que viveis,

não esqueçais as tristezas terrenas.

Lançai um olhar de bondade sobre aqueles que sofrem,

 que lutam contra as dificuldades

e que não cessam de experimentar as amarguras desta vida.

Tende compaixão daqueles que, amando-se, vivem separados.

Tende clemência do isolamento do nosso coração.

Tende caridade da fraqueza da nossa fé.

Tende bondade dos que são objetivo da nossa ternura.

Tende caridade dos que choram, dos que imploram, dos que sofrem.

Dai a todos a esperança e a paz».

 

3. Sinal da Cruz

Como Romano Guardini, queremos também exortar: «Quando fizeres o sinal da cruz, fá-lo bem feito. Não seja um gesto acanhado e feito à pressa, cujo significado ninguém sabe interpretar. Mas uma cruz verdadeira, lenta e ampla, da testa ao peito, dum ombro ao outro. Sentes como ela te envolve todo? Recolhe-te bem. Concentra neste sinal todos os teus pensamentos e todos os teus afetos, à medida que o vais traçando da testa ao peito e dum ombro ao outro. Senti-lo-ás então a penetrar-te todo, corpo e alma. A apoderar-se de ti, a consagra-te, a santificar-te. Porquê? É o sinal da totalidade, o sinal da Redenção. Nosso Senhor remiu todos os homens na cruz. Pela cruz santifica o homem todo até à última fibra do seu ser» (Sinais sagrados, SNL 2017, 13).

+ José Manuel Cordeiro

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Fotografia: Pe. António Magalhães, reitor do Seminário diocesano de S. José, em Bragança.