«Fratelli Tutti, dom semeador de Esperança e de mudança» | Diocese Bragança-Miranda

Fratelli Tutti, dom semeador de Esperança e de mudança

Apresentação da Encíclica, em Bragança, na Igreja de S. Francisco, em 9 de outubro de 2020

 

A terceira encíclica do Papa Francisco, Fratelli Tutti (=FT), sobre a fraternidade e a amizade social é um dom, semeador de esperança e de mudança, à Igreja e ao mundo contemporâneo. É uma resposta aos sinais dos tempos que requerem um desenvolvimento humano integral e a paz.

No seguimento da Laudato Si’, São Francisco de Assis continua a inspirar o Papa Francisco nas desafiantes propostas de uma forma de vida com sabor a Evangelho (FT 1). A sabedoria do Poverello de Assis exortava assim os seus irmãos à imitação de Jesus Cristo: «Irmãos, ponhamos todos diante dos olhos o Bom Pastor que, para salvar as suas ovelhas, sofreu a paixão da cruz» (FF, Exortações, 6,1). Além disso, apresenta o interpelador testemunho do Beato Charles de Foucauld, “o irmão universal” no caminho humano e espiritual e, por isso, com enorme função social. Deus dá sempre de graça.

«A fraternidade universal e a amizade social são os dois polos inseparáveis e ambos essenciais» (FT 142). A fraternidade tem muito para oferecer à liberdade e à igualdade.

O dom da fraternidade humana universal compromete a uma cultura consciente e constante de fraternização, não no sentido geográfico, mas existencial do Bem comum, da solidariedade e da gratuidade. O desafio maior é para uma cultura do diálogo e do encontro. A vida é a arte do encontro.

A encíclica é um grande apelo e testemunho real da cultura do diálogo inter-religioso: «Em nome de Deus e de tudo isto, declaramos adotar a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento mútuo como método e critério» (FT 284).

Temos de curar as feridas e restabelecer a paz. Um outro grande Papa dizia: «amar os amigos em Deus, amar os inimigos por Deus» (S. Gregório Magno). «Aqueles que perdoam não esquecem, mas renunciam a ser dominados pela mesma força destruidora que os feriu» (FT 251).

A política melhor exige a caridade social, isto é, a política ao serviço do verdadeiro bem comum. Com efeito, «Cada um de nós é chamado a ser um artífice de paz, unindo e não dividindo, extinguindo o ódio em vez de o conservar, abrindo caminhos de diálogo em vez de erguer novos muros».

Neste tempo de pandemia, o uso da máscara exercita ainda mais o ouvir e o olhar. O Papa Francisco cita Santo Agostinho para sublinhar esta contribuição peculiar de todos e de cada um: «O ouvido vê através do olho, e o olho escuta através do ouvido» (FT 280).

E vem a questão do próximo. Quem é o próximo que o mandamento me impele a amar? Um estranho no caminho, ilumina esta encíclica social com oito capítulos e 285 números. «Não se avança sem memória» (FT 249).

Na boa-fé, a parábola do bom samaritano, pôde reconhecer que era bem salvar a vida de um judeu, um estrangeiro. Deus propôs uma única lei para todos os homens. Certamente, o sacerdote e o levita, levavam a lei inscrita na testa e no braço, como era habitual. Ao contrário, para Jesus e o samaritano da parábola, a lei de Deus conserva-se no coração, escutando-a e praticando-a. A pergunta do doutor da lei, «Quem é o meu próximo?» (Lc 10,29), permite a Jesus alterar toda a perspetiva vigente e dizer que o próximo é todo aquele que precisa de mim. É a necessidade que o torna próximo de mim. A parábola conclui com as palavras «Então vai e faz o mesmo» (Lc 10, 37).

O samaritano é apresentado em paralelismo com os dois personagens bem conotados e caracterizados: vai a caminho, viu; passou junto do ferido. Porém, a atitude é totalmente desigual – encheu-se de misericórdia e de ternura.

A Liturgia celebra o mistério de Cristo, como o Bom samaritano da humanidade: «Ainda, hoje, como bom samaritano vem ao encontro de todos os homens atribulados no corpo ou no espírito e derrama sobre as suas feridas o óleo [azeite] da consolação e o vinho da esperança. Por este dom da vossa graça, também a noite da dor se abre à luz pascal do vosso Filho crucificado e ressuscitado» (Prefácio Comum VIII).

Em Fratelli Tutti, somos convocados ao encontro com Deus, com os outros, connosco próprios, com o mundo, com a história e com a criação. O desafio permanente é o de construir a sinodalidade, caminhando juntos na fraternidade universal e na amizade social, abertas a todos. Irmãos e Irmãs todos.

Desde os inícios do seu sonho humano-divino e consequente conversão, S. Francisco de Assis dirigia-se a Deus: «Senhor, que queres que eu faça?», aproximando-se de todos, com amor preferencial aos mais pobres.

E eu, de quem me aproximo?

+ José Manuel Cordeiro

Bispo de Bragança-Miranda

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Fotografias: Bruno Luís Rodrigues/Secretariado Diocesano das Comunicações Sociais