«É tempo de cuidar juntos e recomeçar» - Homilia de D. José Cordeiro - 28.06.2020 | Diocese Bragança-Miranda

Missa da Vigília da Solenidade de S. Pedro e S. Paulo.

Adro da Catedral, 28 de junho de 2020

 

1. Cuidar a vida eterna

Aqui e agora, no adro da Catedral, a casa de todos, celebramos a vigília da solenidade de S. Pedro e S. Paulo com a Eucaristia que é a oração das orações, dom da caridade e mistério de vida eterna.

Este encontro crente, orante e grato reacende o dom inestimável da vida de todos e especialmente dos quarenta irmãos e irmãs que sepultamos na nossa cidade, entre 13 de março e 31 de maio passados. Nesses dias faltaram muitas presenças físicas e até não houve tempo para a despedida e a justa e necessária participação na celebração exequial possível, atendendo aos limites higiénico-sanitários em ordem ao maior Bem comum.

Por isso, queremos salvar a memória, tornando presente o nome de cada um, no símbolo da luz e da paz: «Os vivos fecham os olhos aos mortos e os mortos abrem os olhos aos vivos» (adágio hassídico).

Um silêncio de partilha e de esperança, pois a Eucaristia não é só para sufragar, mas para transfigurar. «Será o luto mais tenaz que a esperança?» (E. Jabès).

 Quando em maio pensamos esta noite de oração, surgiu como proposta de (re)aprender a cuidar juntos e recomeçar: as famílias em luto, os amigos, as autoridades autárquicas, civis, da segurança e da saúde.

É tempo de cuidar juntos e recomeçar. É tempo das fundamentais perguntas da vida. É tempo de rezamos uns com os outros e rezamos uns pelos outros. É tempo de cuidar de todos e que ninguém fique para trás, dos mais velhos aos mais novos. É tempo do enorme desafio de cuidar e esperar juntos na família, na comunidade cristã, na sociedade, nas unidades de saúde, nas IPSS’s, na “casa comum”... «Viver é a infinita paciência de recomeçar» (E. Ronchi).

 

2. Cuidar a unidade na diversidade da universalidade

Jesus Cristo marcou totalmente a vida de S. Pedro e S. Paulo, numa ecologia integral de humanidade nova, cultura, de fé... Eles são a marca da unidade no essencial da catolicidade da Igreja que vive no mundo. Eles são testemunhas vivas do mistério Pascal de Cristo, expressão de que «Não há árvore como a cruz» (S. Weil). A Cruz com Cristo está para além do sofrimento, abrindo-se à beleza e alegria da Vida, agora e por toda a eternidade.

Destes dois grandes, a Liturgia recorda: «Pedro, que foi o primeiro a confessar a fé em Cristo,
e Paulo, que a ilustrou com a sua doutrina;
Pedro, que estabeleceu a Igreja nascente entre os filhos de Israel, e Paulo, que anunciou o Evangelho a todos os povos;
ambos trabalharam, cada um segundo a sua graça,
para formar a única família de Cristo».

O tempo duro da pandemia que atravessamos torna-se uma oportunidade de nova responsabilidade e caminho audaz e criativo na comemoração da festa cristã, todavia não nos podemos deixar paralisar pelo medo.

Festejar os santos Apóstolos Pedro e Paulo é dizer que é possível a unidade na diversidade da universalidade e, sobretudo, é experimentar que o bem faz sempre bem e convidam-nos a fazer o bem, bem feito e a fazê-lo cada vez melhor!

3. Recomeçar no amor-perdão

Cristo ressuscitado oferece aos seus discípulos os sinais que se encontram na história quotidiana, como comer o pão e os peixes, para ir além daquilo que ultrapassa a história. A Igreja, ao celebrar o mistério pascal todos os oito dias (domingo), participa da “Ceia do Senhor”, que é o seu centro, porque nela toda a comunidade encontra o Senhor ressuscitado, o Pão da Vida eterna.

No texto do Evangelho escutado, Jesus aparece de novo aos seus discípulos junto do lago de Tiberíades. É um encontro que acontece no ambiente de trabalho dos discípulos, onde os encontrou pela primeira vez. Da mesma maneira usa as imagens do seu quotidiano (redes, os peixes e a pesca) para os enviar em missão para uma nova aurora da história do mundo.

A pesca milagrosa inscreve-se naqueles sinais que Jesus realiza para se fazer reconhecer como Ressuscitado. O sinal é a mediação para o reconhecimento. De facto, o Ressuscitado não se pode reconhecer de modo imediato.

Nesta terceira aparição, Jesus pergunta três vezes a Pedro «Simão, filho de João, Tu amas-Me? És meu amigo». A pergunta é sobre o essencial da vida.

Habitualmente, pensa-se que a tríplice confissão do amor de Pedro se refere, de algum modo, à sua tríplice negação, como escreve Santo Agostinho: «responde uma vez, responde outra vez, responde pela terceira vez. Vença por três vezes a tua profissão de amor, já que por três vezes o temor venceu a tua presunção. Tens de soltar por três vezes o que por três vezes ligaste. Solta por amor o que ligaste pelo temor. E assim, uma vez e outra vez e pela terceira vez, o Senhor confiou a Pedro as suas ovelhas» (St. Agostinho). Jesus, como que dá a Pedro a possibilidade de reparar com uma tríplice confissão de amor a tríplice traição na noite da paixão e ao mesmo tempo confiar-lhe uma tríplice missão.

Quando, porém, Jesus pergunta pela terceira vez: «Simão, filho de João, és meu amigo?», usando um verbo, caracterizado pela reciprocidade, querer bem a alguém, Pedro entristeceu-se. Ele presumia de não ter necessidade do amor de Jesus, mas as últimas experiências fizeram-no compreender o contrário. Pedro teve sempre a pretensão de ser o protetor do seu Mestre, sendo ele a dar e não esperar reciprocidade.

Segundo esta lógica o Mestre confia a sua Igreja a Pedro e anuncia-lhe o martírio. Apascentar as ovelhas e os cordeiros indica que Pedro tem de apascentar os pequenos e os grandes, isto é, dar a vida por todos, à imitação de Jesus, o bom e o belo Pastor. Para a Igreja é de inestimável confiança saber, ontem, hoje e no futuro que: «Jesus transfere a Pedro a própria função de pastor, mas não lhe transfere o rebanho».

Um homem vale quanto vale o seu coração. Um amor incondicionado é a condição do seguimento, o aspeto central do discipulado no imperativo antigo e sempre novo: «Segue-me». Esperar e seguir, isto é, cuidar juntos e recomeçar em, por e com Jesus Cristo.

É tempo de cuidar juntos e recomeçar na Esperança!

+ José Cordeiro