NOTA PASTORAL"O sentido autêntico das festas cristãs" | Diocese Bragança-Miranda

O tempo das férias do Verão é, na nossa Diocese de Bragança-Miranda, uma ocasião favorável à celebração de muitas festas cristãs. Esta época caracteriza-se pelo aumento da população nas Paróquias e nos Santuários, porque é o reencontro com a família, com as tradições e com as raízes de quem teve de emigrar para longe da sua casa e da sua terra. As férias também devem ser bem aproveitadas para o encontro, a reflexão, a avaliação e o descanso.

Gostaríamos, por isso, de vos falar do sentido autêntico das festas cristãs, que se celebram, especialmente, em tempo de férias. Fazemos festa porque é bom viver e alegrarmo-nos juntos. Efectivamente, o cristianismo é essencialmente o seguimento da Pessoa de Jesus Cristo em todos os momentos da vida humana.

1. A festa do Domingo

O domingo é o principal dia de festa para os cristãos, o dia da alegria e do repouso, no qual a Igreja celebra o mistério pascal todos os oito dias. Desde as origens do cristianismo que se celebra o Domingo, a festa das festas.

A célebre frase dos mártires africanos de Abitinas – «não podemos viver sem o Domingo» – evoca a centralidade do Ressuscitado na vida da Igreja e da humanidade e indica as razões que tornam bela a vida humana: contemplar a beleza de Cristo, viver a misericórdia, saborear a festa e o repouso no Senhor, participando da Eucaristia. A liturgia do dia do Senhor compromete e estimula os cristãos ao amor dos irmãos na caridade, tal como se intercede na Oração Eucarística II: «lembrai-Vos, Senhor da vossa Igreja, dispersa por toda a terra, e tornai-a perfeita na caridade».

Nas circunstâncias actuais o Domingo, como o dia do Senhor, fica, muitas vezes, diluído e reduzido a um “fim de semana”. Por tal motivo, é necessário redescobrir o seu sentido verdadeiro. Pois, se o Domingo deixar de ser um dia no qual haja espaço para a oração, o repouso, a união e a alegria, pode acontecer que, como refere o Papa S. João Paulo II: «o homem permaneça encerrado num horizonte tão restrito, que já não lhe permite ver o ‘céu’. Então, mesmo bem trajado, torna-se intimamente incapaz de ‘festejar’». Apesar de tudo, a Igreja vive na fidelidade a este dia semanal da Palavra e da Eucaristia.

2. A Eucaristia da festa e a festa da Eucaristia

A festa responde a uma necessidade vital do ser humano e tem a sua fonte em Deus. Falamos da festa cristã e não apenas de um mero passatempo festivo e que hoje, como é frequente, faz parte do circuito comercial. A festa traz em si mesma a afirmação do valor da vida e da criação, tornando o nosso viver mais humano e mais digno.

O ponto central de todas as festas cristãs é a celebração da Eucaristia, porque «as festas dos Santos proclamam as grandes obras de Cristo nos seus servos e oferecem aos fiéis os bons exemplos a imitar» (Sacrosanctum Concilium 111).

A festa do Domingo e as festas cristãs são para dar sentido à vida ou, como dizia Santo Atanásio no séc. IV: «Cristo ressuscitado faz da vida do ser humano uma contínua festa». Festejar é próprio de quem sente que é amado por Deus. Deus ama e chama, no quotidiano, no trabalho e na festa, a participar do Seu Amor.

3. A festa dos Santos

Mas o dia da festa de Nossa Senhora, do Santo ou da Santa padroeira da Paróquia, Unidade Pastoral, Concelho, Santuário, Confraria ou Irmandade, enquanto manifestação popular traz consigo valores antropológicos e cristãos que têm de ser considerados:

  • O encontro da família, dos vizinhos e dos amigos;
  • A experiência da gratuidade e da liberdade que remete para a transcendência;
  • A novena ou tríduo de preparação com a Eucaristia, a Reconciliação, a escuta da Palavra, o rosário, a reflexão e a oração comum;
  • A veneração dos Santos;
  • A celebração solene da Eucaristia;
  • A procissão como acto público de fé, de peregrinação e de expressão da piedade popular;
  • A esmola com dignidade e discrição, sem a ostentação do dinheiro nas fitas das imagens; deve cuidar-se a modéstia e a humildade, bem como a discrição, como Jesus recomenda no Evangelho: «Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita» (Mt 6, 3).

Na verdade, muitos mordomos e comissões de festas religiosas populares dedicam-se, de alma e coração ao serviço deste espírito genuinamente cristão que envolve as festas das nossas comunidades paroquiais. Contudo, verificamos que alguns mordomos e comissões de festas se movem mais nas vertentes económica e lúdica das festas do que na sua dimensão cristã fundamental. É um enorme desafio para nós, superar o aspecto pagão, comercial, utilitarista e laicista da festa.

Algumas organizações ou comissões de festas chegam até a contradizer o Evangelho e a fé da comunidade cristã, devido ao desequilíbrio, às vezes escandaloso, nos seus gastos com os elementos exteriores, entre eles a excessiva quantidade de foguetes ou as somas avultadas para conjuntos musicais.

Precisamos de recuperar ou não deixar perder o sentido cristão da festa. Temos de ter o maior cuidado com a gestão das esmolas, salientando bem que as colectas (ofertórios) e as promessas levadas ao altar da Eucaristia devem reverter exclusivamente para o culto, a evangelização e a caridade. O Papa Francisco diz claramente: «o dinheiro faz adoecer o pensamento e a fé e faz-nos ir por outros caminhos». 

Desde 2003, a nossa Diocese tem uma normativa para as festas, chamada «Disposições sobre as Festas Religiosas», que os Bispos, meus antecessores, aprovaram e que continuam em vigor. Por isso, esta Nota Pastoral vem urgir junto dos Párocos, dos Conselhos Paroquiais dos Assuntos Económicos, das comissões de festas, das mordomias, confrarias e todos os fiéis das comunidades, a observância de tudo quanto se refere ao espírito cristão das festas, bem como a formação e a divulgação da legislação vigente na Diocese. Estas normas ajudam a celebrar as festas cristãs com um espírito verdadeiramente cristão. Também se mantêm actuais as disposições relativas à prestação de contas e ao destino das receitas das festas.

Todavia, constata-se alguma resistência ao pagamento de licenças na Cúria diocesana devidas pela realização da festa, segundo as normativas da Igreja. Recordamos, a todos, que esta entrega é um modo de partilha para as necessidades colectivas da nossa Diocese. Nunca esqueçamos a dimensão comunitária da nossa fé.

Muito agradecemos às comissões de festas, mordomias e confrarias que, em colaboração com os Rev.mos Párocos se dedicam, dando generosamente muito do seu tempo, para que as comunidades possam celebrar as festas paroquiais.

A todos, comunidades e mordomias, convidamos a serem pertença efectiva e afectiva na fé da Igreja, através da feliz celebração das tradicionais e populares festas do padroeiro e dos Santos, sob a guia dos seus Párocos, para que sejam vividas de modo responsável e verdadeiramente cristão.

A Nossa Senhora das Graças, a S. Bento e a todos os Santos e Santas padroeiros (as) confiamos as festas para que sejam lugares fraternos onde se experimenta a alegria do Evangelho de Jesus Cristo.

Catedral, 22 de Maio de 2015, 470º aniversário da fundação da Diocese.

+ José Manuel Cordeiro, Bispo de Bragança-Miranda