Carta Pastoral 2023-2026 de D. Nuno Almeida | Diocese Bragança-Miranda

CARTA PASTORAL 2023-2026

UNIDOS PARA OFERECER A TODOS A ALEGRIA E A ESPERANÇA DO EVANGELHO

 

Irmãs e irmãos

Envio-vos a primeira Carta Pastoral, cujo título sintetiza o Projeto Pastoral para o triénio 2023-26: caminhar juntos para sermos Igreja sinodal de todos e para todos. Peregrinar unidos para anunciar, celebrar e testemunhar a alegria e a esperança do Evangelho.

Desde o seu início, a Igreja tem procurado a unidade valorizando sempre a diversidade. Neste esforço permanente para sentir, pensar e viver com um só coração e uma só alma, a comunidade dos discípulos missionários de Jesus, que somos chamados a ser, está convocada para percorrer um caminho de atenção e diálogo, de anúncio e discernimento em que todos participem. No horizonte, está sempre a humanidade a quem queremos servir.

Estamos em movimento desde 2021, quando o Papa Francisco convocou toda a Igreja para o Sínodo “Por uma igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. Temos experimentado a alegria do encontro sincero e respeitoso entre irmãos e irmãs na fé, pois encontrar-se com os outros é encontrar-se com o Senhor que está no meio de nós. Neste contexto emerge, decididamente, a categoria sinodalidade para fundamentar, modelar, reforçar e avaliar a vida da Igreja e de cada uma das suas comunidades, assim como para ser sinal de participação humilde, livre e corresponsável na sociedade.

A sinodalidade pode ser entendida como o caminhar dos cristãos com Cristo, em direção ao Reino, juntamente com toda a humanidade. A sinodalidade orientada para a missão, engloba os momentos de reunir-se em assembleia nos diferentes níveis da vida eclesial, a escuta recíproca, o diálogo, o discernimento comunitário, a criação de consensos como expressão de tornar presente Cristo vivo no Espírito e a assunção de decisões numa corresponsabilidade diferenciada.

Para cumprir o objetivo de “caminhar juntos”, a sinodalidade desafia-nos, com urgência, a iniciar um processo de revisão da forma de estar e atuar nas comunidades cristãs, o qual supõe uma verdadeira conversão do próprio estilo de vida à luz do Evangelho.

A prática sinodal faz parte da resposta profética da Igreja perante o individualismo que se volta sobre si mesmo, de um populismo que divide e de uma globalização que homogeneíza e aplana. Não resolve todas estas complexas questões, mas fornece um modo alternativo de ser e de agir, cheio de alegria e de esperança, que integra uma pluralidade de perspetivas.

Há que sublinhar, desde já e para evitar frustração e paralisia, que a sinodalidade não é uma meta a curto prazo ou uma solução instantânea para todos os problemas. A nossa atitude, a partir da fé, não será nem a de um otimismo ingénuo, nem de um pessimismo estéril, mas a de um dinamismo realista e entusiasta.

O verdadeiro valor de uma Igreja toda ela sinodal consiste em pôr-se a caminho para e com Cristo. Uma Igreja num dinamismo de renovação que se deixa iluminar pela luz da Palavra, alimentar pela Eucaristia e guiar pelo amor. Igreja que colabora com as mulheres e homens que trabalham por um mundo mais habitável, mais justo e mais humano.

 

Num primeiro momento, partindo da realidade em que vivemos, prestamos atenção e reconhecemos mudanças profundas, tomando mais consciência de que todos têm direito à alegria do Evangelho e nós temos obrigação de nos unirmos para a anunciar, celebrar e testemunhar (Cf. Papa Francisco, Exortação Apostólica A Alegria do Evangelho -Evangelii Gaudium - EG 1).  Poderemos abrir, decididamente, caminhos de esperança para cada pessoa, para as famílias e para o nosso mundo e o nosso tempo. É a partir das luzes e sombras que vivemos, que somos convocados para uma nova etapa evangelizadora marcada pela alegria e pela esperança.

Num segundo momento, procuramos interpretar, à luz da Palavra de Deus e do Magistério da Igreja, o que estamos a viver. Refletiremos sobre o modo de promover e facilitar a experiência fundamental da alegria do encontro com Cristo que nos atrai para o Pai e nos dá a graça do Espírito Santo, que nos santifica, anima e envia em missão. Na verdade, na missão que somos, “nenhuma motivação será suficiente se não arder nos corações o fogo do Espírito” (EG 261).

No terceiro momento, seremos convidados a fazer opções, procurando os melhores caminhos, na escuta recíproca e na atenção ao Espírito Santo, na certeza de que o mais importante é olharmos sempre para Aquele caminhante misterioso de Emaús (Lc 24, 13-35) que constantemente nos ilumina o caminho, nos fortalece e alimenta com a Sua presença.

Teremos sempre presente o que nos ensina o Concílio Vaticano II na constituição doutrinal Lumen Gentium, que a Igreja é, ao mesmo tempo, Povo de Deus Pai, Corpo de Cristo e Templo do Espírito Santo (LG 4). O Pai, enviando o Filho e pelo dom do Espírito, envolve-nos num dinamismo de comunhão e de missão que nos faz passar do eu ao nós e nos coloca a caminhar ao lado de cada ser humano com o estilo de Jesus e ao serviço do mundo.

Mas também nunca poderemos esquecer que a desordem entra na Igreja quando um só quer ser e decidir tudo ou quando cada um pretende caminhar por sua conta e risco. Nem só um, nem cada um, mas juntos e unidos num caminho comum, para oferecermos a todos a alegria e a esperança do Evangelho.

O Papa Francisco convocou para 2025 o Jubileu com o lema “Peregrinos da Esperança”. Será possível reacender a esperança e a confiança, como adverte o Papa Francisco, se formos capazes de recuperar o sentido de fraternidade universal. A preparação e a celebração deste Jubileu procuram reforçar e dinamizar a sinodalidade na Igreja.

 

 

1.RECONHECER OS DESAFIOS

 

Houve tempos em que os sinos tocavam e o altar fazia o resto. Eram tempos de igrejas cheias e de contornos estáveis em que era percebida uma fé sociológica, vivida à sombra dos nossos campanários. Porém, os tempos mudaram. Tornou-se necessário passar de uma fé sociológica a uma fé pessoal, de uma fé recebida, protegida pelo ambiente religioso envolvente, a uma fé refletida, muitas vezes chamada a dar testemunho em contracorrente com a cultura dominante, no tempo das “igrejas vazias” (T. Halík). Tudo isto implica passar da rotina do herdado à renovação do personalizado e, globalmente, passar de uma Igreja de multidões a uma Igreja comunidade de comunidades capaz de se sentir enviada, como fermento, ao coração do meio social, com o projeto de oferecer a todos, a alegria e a esperança do Evangelho.

O modelo clássico: um território, uma igreja, um campanário e um pároco residente, já não se verifica. Todavia, não podemos abandonar nenhuma das nossas comunidades eclesiais!

 

1.Alargar o nosso horizonte

 

No segundo capítulo da exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”, o Papa Francisco convida-nos a alargar o nosso olhar e a prestar toda a atenção ao que acontece no nosso tempo: há uma economia da exclusão; há uma idolatria do dinheiro; há uma desigualdade social; há grandes desafios culturais (a exterioridade, a proliferação de novos movimentos religiosos, a vertente secularista que invade a sociedade, a crise da família, o individualismo pós-moderno); há os desafios das culturas urbanas e da desertificação dos meios rurais.  

Diante destes e de outros desafios, o Papa Francisco propõe a todos os que trabalham na Igreja uma espiritualidade missionária: sem acédia individualista ou pessimismo estéril, com novas relações geradas por Cristo, sem mundanismo espiritual, sem conflitos de grupos.  

O Papa Francisco sublinha: a consciência da identidade da missão dos leigos; a indispensável contribuição da mulher na sociedade e a reivindicação dos seus legítimos direitos; um protagonismo participativo dos jovens; a memória e sabedoria dos idosos; uma discernida preocupação vocacional ao sacerdócio, à vida consagrada e ao matrimónio.  

 

2.Olhar à nossa volta

 

E na nossa Diocese? Reconhecemos e registamos alguns aspetos significativos e interpelantes da vida social e religiosa, que revelam mudanças importantes.

A Diocese tem 6.599 km2 de superfície, é a quarta diocese mais extensa do país, e registou uma população de 122 804 habitantes no censo de 2021 (menos 13 448 do que no censo de 2011).

No meio rural, vai-se acentuando o despovoamento com as respetivas consequências. As comunidades são cada vez mais reduzidas e constituídas, essencialmente, por pessoas idosas. (Dos 0 aos 14 anos em 2011: 15095; em 2021: 11 481. Dos 15 aos 64 anos em 2011: 82369 e em 2021: 69153. Mais de 65 anos em 2011: 38464 e em 2021: 42338. Mais de 65 anos em 2011: 38464 e em 2021: 42338; idosos a viver sós em 2011: 18434 e em 2021: 19148). É significativo o aumento do número de idosas e de idosos e igualmente interpelante o aumento do número dos que vivem sós.

Apesar dos problemas estruturais comuns aos territórios de baixa densidade, tais como o envelhecimento populacional, o despovoamento das aldeias e a baixa taxa de natalidade, saltam à vista as potencialidades de Trás-os-Montes.

Constatamos o valor identitário, histórico e patrimonial dos diversos concelhos. No dia a dia, apercebemo-nos de que os Municípios procuram promover e assegurar a melhor qualidade de vida à população dos seus concelhos, através da concretização de ações inovadoras, inteligentes, sustentáveis e de desenvolvimento integrado.

Os diversos Municípios do distrito e diocese de Bragança-Miranda afirmam-se na cultura, no desporto e no turismo, promovendo e apoiando diferentes iniciativas e eventos, capazes de dinamizar a vida social e promover a economia.

Há uma afirmação clara das sedes de concelho como centros de equilíbrio territorial com papel polarizador e dinamizador e oferecendo excelentes infraestruturas e equipamentos modernos. Também não faltam boas condições institucionais para o fomento de parcerias e trabalho em rede com diferentes entidades.

É muito importante a presença do ensino superior público. Frequentam o Instituto Politécnico de Bragança mais de 10000 estudantes, transformando as cidades de Bragança e Mirandela em verdadeiros centros de vivência académica. O IPB é frequentado por estudantes oriundos de todos os pontos do país e por uma população considerável de estudantes internacionais (cerca de 3500), possibilitando a criação de um ambiente multicultural e constituindo um contributo para a formação humana e cívica dos alunos.

O particular empenho e esforço dos Municípios, aliados à tradicional tenacidade e capacidade empreendedora dos transmontanos, e as caraterísticas diferenciadoras do território têm dado origem a um conjunto de novas iniciativas empresariais e à atração de investimentos significativos para a região. Para tal, tem sido relevante a presença e dinamismo do Instituto Politécnico de Bragança, como centro de saber e de conhecimento de nível superior.

Os Municípios, atentos ao relevante trabalho desenvolvido pelas diversas Instituições, apoiam as atividades de âmbito cultural, desportivo, recreativo, social e religioso, contribuindo para o reforço da cidadania ativa e a construção de um território mais inclusivo, dinâmico e solidário. Colaboram com os Conselhos Económicos Paroquiais ou Fábricas das Igrejas para a recuperação do património religioso edificado, um dos mais proeminentes nesta vasta região de Trás-os-Montes. Deseja-se que esta colaboração continue e se aprofunde.

Às Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) é prestada uma atenção especial, tendo em conta o trabalho que desenvolvem a favor dos mais carenciados, marginalizados e excluídos socialmente do processo de desenvolvimento e daqueles que, por impossibilidades físicas e outras, necessitam de apoios especiais. Cerca de 55% da ação social no distrito é da responsabilidade das Instituições da Igreja, sendo muito significativa a oportunidade de trabalho digno que oferecem a tantas pessoas.

 

Verifica-se, nos nossos dias e cada vez mais, maior mobilidade da população:  trabalho num lugar e residência noutro; semana na cidade e fim de semana na aldeia ou outro lugar, etc. A tendência da população é, cada vez mais, fixar residência nos centros urbanos, seja numa vila ou cidade. A norma vai sendo, cada vez mais, ir da cidade à aldeia, sobretudo em fim-de-semana. Mais de um terço da população reside nas proximidades da A4: Bragança, Macedo de Cavaleiros e Mirandela.

A realidade humana, social, geográfica, demográfica, pastoral e eclesial da Diocese de Bragança-Miranda e a necessidade de uma nova presença da Igreja no território, segundo a eclesiologia de comunhão e de missão, desencadearam um percurso de discernimento e de mudanças pastorais.

 

3.A ação pastoral em tempos de mudança

 

Está em curso, desde 2011, um projeto diocesano gradual de revisão das estruturas e reorganização pastoral, com a redução do número dos Arciprestados, a criação das Unidades Pastorais e a reconfiguração de Paróquias dada a acentuada diminuição de população (122 804 habitantes para 321 paróquias) e a consequente diminuição de fiéis e de párocos.

Procura-se a construção de uma comunidade de fiéis amadurecida em torno da Palavra, da Liturgia e da Caridade numa vida relacional, evitando a autossuficiência e a autorreferencialidade.

As atuais caraterísticas da Diocese de Bragança-Miranda e a presente situação sociocultural continuam a exigir renovação e mudança na ação pastoral a realizar, no que se refere a formas, métodos, ritmos e intensidade.

A nossa Diocese com 122 804 habitantes, com 6.599 Km2 de área geográfica, 321 Paróquias, num total de 545 comunidades, 18 Unidades Pastorais, 4 Arciprestados, tem 72 sacerdotes (diocesanos e religiosos) dos quais 41 dedicados e sacrificados párocos e 14 diáconos permanentes, 94 religiosas, 5 consagradas em Institutos Seculares Femininos, 2 eremitas consagradas, 2 seminaristas maiores e muitos, muitos mais ministérios, serviços, famílias, movimentos, instituições e fiéis leigos – é uma realidade desafiante.

Os sacerdotes vão acumulando paróquias, por jubilação ou morte dos respetivos párocos, surgindo assim uma espécie de “paróquia alargada”. A maioria das paróquias vai ficando sem pároco residente, convertendo-se numa “paróquia à distância”.

O número de sacerdotes vai diminuindo e as vocações sacerdotais não aumentam na proporção das baixas. Em 2002, eram 117 sacerdotes diocesanos, em 2012, 90 e agora apenas 61.

A vida em comunidade dos sacerdotes - sendo sempre “bênção e ferida”, possível com várias modalidades como sugere o Decreto Conciliar “Presbyterorum Ordinis n.8) - oferece-lhes grandes vantagens, seja a nível de espiritualidade e cultura, da comunicação e convívio, da busca e partilha pastoral, da economia e prestação de serviços domésticos. Vai-se consolidando a convicção de que não é conveniente que um sacerdote esteja a viver só numa casa paroquial. É, também, cada vez mais evidente a necessidade de os sacerdotes trabalharem em equipa e não isoladamente.

 

Esta nossa Igreja Diocesana atravessa dificuldades: as comunidades locais vão progressivamente ficando vazias; o número de padres diminui; a sua identidade é posta em causa de tantas maneiras, parecendo tratar-se apenas de uma mera resposta social; os jovens não permanecem após o sacramento do Crisma; o Evangelho não está a penetrar na sociedade.

O “inverno demográfico” que constatamos nas nossas aldeias e lugares, onde há mais casas que pessoas, onde há muitos mais funerais que batismos, poderá levar ao desencanto. Mas os dias difíceis que vivemos exigem que as dificuldades sejam transformadas em oportunidades com engenho e criatividade, a partir de um decidido discernimento pastoral.

Para uma maior fidelidade à Eucaristia, ao Evangelho e ao Ministério nesta diocese nordestina, aconteceu a reorganização em quatro arciprestados (Bragança, Miranda, Mirandela e Moncorvo) e em 18 unidades pastorais. Tendo em conta as necessidades, as razões, as várias formas, a mudança de paradigma, a utilidade, as dificuldades, as alegrias e as esperanças, consideramos as Unidades Pastorais como basilares para uma comunhão e participação pastoral orgânica de conjunto entre paróquias próximas, cuja colaboração, configuração e reconhecimento foi institucionalizado.

A constituição de Unidades Pastorais, estáveis e homogéneas, como unidade base da pastoral, pretendeu congregar uma comunidade cristã suficientemente numerosa para ser sinal da salvação oferecida em Jesus Cristo a todos os homens e mulheres. Tudo partiu da necessidade de prestar atenção aos movimentos de população e aos polos de vida humana pois a Igreja, que é um dom de Deus, constrói-se no mundo e a partir do mundo. Acresce ainda que os agentes pastorais, presbíteros, diáconos, consagrados e colaboradores leigos, necessitam de inventar caminhos novos em colaboração, comunhão e partilha das tarefas e das responsabilidades, de modo a tornar mais significativa e operativa esta nova estrutura de comunhão eclesial.

 

4.Aprender a trabalhar juntos

 

O Senhor, através das dificuldades, quer dizer-nos alguma coisa. Quer fazer-nos descobrir novos carismas presentes na nossa Igreja, entre os sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas, os consagrados, os leigos, homens e mulheres, de todas as idades e de todas as condições. Temos uma enorme riqueza de carismas e ministérios. Este tempo de carências estimula-nos a abrir os olhos e a perguntar: como é que o Senhor nos está guiando, ajudando, sustendo neste momento para que a alegria e a esperança do Evangelho sejam anunciadas a todos sem exceção e para que a messe receba os operários de que precisa?

Está sempre diante de nós a atrair-nos e a desafiar-nos a visão eclesiológica pós-conciliar: Igreja, mistério de comunhão e missão. Comunidade de comunidades. Família de famílias. Esta visão de Igreja, hoje indiscutivelmente aceite, determina a maneira de entender as estruturas pastorais e o modo de conceber a ação pastoral: corresponsável, participada, aberta e missionária. Tudo isto faz sentir a necessidade de uma pastoral orgânica ou comunitária, articulada e ao mesmo tempo diferenciada, com caraterísticas de evangelização.

Trata-se não de ter menos cuidado e empenho pastoral, mas de uma vida pastoral mais bem organizada, conduzida e oferecida a todos os membros do povo de Deus.

Como? O grande desafio é o trabalho espiritual fundamental que é pedido aos presbíteros, aos diáconos, aos consagrados e aos leigos – aprender a trabalhar juntos. Decisivamente tudo fazermos por uma Igreja Sinodal.

Esta é uma escolha que exige a conversão pastoral e missionária, isto é, a mudança de atitude desde o coração, bem como a verdadeira caridade.

 

 

2.IGREJA, COMUNIDADE DE COMUNIDADES AO SERVIÇO DE TODOS

 

“Nesse mesmo dia, dois dos discípulos iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, que ficava a cerca de duas léguas de Jerusalém; e conversavam entre si sobre tudo o que acontecera. Enquanto conversavam e discutiam, aproximou-Se deles o próprio Jesus e pôs-Se com eles a caminho” (Lc 24, 13-15).

Neste trecho, o evangelista mostra a necessidade que os dois viandantes tinham de procurar um sentido para os acontecimentos que viveram. Ressalta-se a atitude de Jesus, que Se põe a caminho com eles. O Ressuscitado deseja percorrer o caminho com cada comunidade, família e cada um de nós, acolhendo as nossas expetativas, mesmo que sejam desiludidas, e as nossas esperanças, ainda que sejam inadequadas. Jesus caminha, escuta, compartilha.

Nem sempre as comunidades eclesiais sabem tornar evidente a atitude que o Ressuscitado teve em relação aos discípulos de Emaús, quando, antes de os iluminar com a Palavra, lhes perguntou: “Que palavras são essas que trocais entre vós, enquanto caminhais?” (Lc 24, 17). Às vezes predomina a tendência a oferecer respostas pré-fabricadas e receitas prontas, sem deixar sobressair as perguntas na sua novidade, nem entender a sua provocação.

A escuta torna possível um intercâmbio de dons, num contexto de empatia. Permite que todos ofereçam a sua contribuição para a comunidade, ajudando-a a reconhecer novas sensibilidades e a formular perguntas inéditas. Ao mesmo tempo, estabelece as condições para um anúncio do Evangelho que alcance verdadeiramente, de modo incisivo e fecundo, o coração.

 

E, começando por Moisés e seguindo por todos os profetas, [Jesus] explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que Lhe dizia respeito. Ao chegarem perto da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: “Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso”. Entrou para ficar com eles. E, quando Se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-No; mas Ele desapareceu da sua presença” (Lc 24, 27-31).

 

Depois de os ter ouvido, o Senhor dirige aos dois viandantes uma “palavra” incisiva e decisiva, com autoridade e transformadora. Assim, com mansidão e fortaleza, o Senhor entra na sua morada, permanece com eles e compartilha o pão da vida: é o sinal eucarístico que permite abrirem-se finalmente os olhos aos dois discípulos.

O Espírito Santo inflama o coração, abre os olhos e suscita a fé dos dois viandantes. O Espírito age desde os primórdios da criação do mundo, para que o projeto do Pai, de recapitular tudo em Cristo, alcance a sua plenitude. Atua em todos os tempos e em todos os lugares, na variedade dos contextos e das culturas, suscitando mesmo no meio das dificuldades e dos sofrimentos o compromisso em prol da justiça, a busca da verdade, a coragem da esperança.

Como ensina a narração dos discípulos de Emaús, o acompanhamento exige a disponibilidade para percorrer juntos um trecho do caminho, estabelecendo uma relação significativa. A origem do termo “acompanhar” remete para o pão partido e compartilhado (cum pane), com toda a riqueza simbólica humana e sacramental desta referência. Por conseguinte, o primeiro sujeito do acompanhamento é a comunidade no seu conjunto, precisamente porque é no seu seio que se desenvolve aquela trama de relações que pode apoiar a pessoa no seu caminho, oferecendo-lhe pontos de referência e orientação. O acompanhamento no crescimento humano e cristão rumo à vida adulta constitui uma das formas como a comunidade se mostra capaz de se renovar a si mesma e de renovar o mundo.

Jesus acompanhou o grupo dos seus discípulos, partilhando com eles a vida de todos os dias. A experiência comunitária põe em evidência qualidades e limites de cada pessoa, aumentando a consciência humilde de que, sem a partilha dos dons recebidos para o bem de todos, não é possível seguir o Senhor.

 

“Disseram, então, um ao outro: “Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros, que lhes disseram: “Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!” E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus Se lhes dera a conhecer, ao partir o pão” (Lc 24, 32-35).

 

Da escuta da Palavra passa-se à alegria dum encontro que enche o coração, dá sentido à existência e infunde nova energia. Os rostos iluminam-se e retoma-se com vigor o caminho: é a luz e a força da resposta vocacional que se faz missão a favor da comunidade e do mundo inteiro. Sem demora e sem medo, os discípulos retornam sobre os seus passos para ir ter com os irmãos e testemunhar o seu encontro com Jesus ressuscitado.

A sinodalidade missionária não se aplica apenas à Igreja no plano universal. A exigência de caminhar juntos, oferecendo um testemunho de fraternidade efetivo numa vida comunitária renovada e mais palpável, refere-se em primeiro lugar a cada comunidade individualmente. Por isso, é necessário despertar, em cada realidade local, a consciência de que somos Povo de Deus, responsável pela encarnação do Evangelho nos vários contextos e no âmbito de todas as situações da vida quotidiana. Isto exige que abandonemos a lógica da delegação que tanto condiciona a ação pastoral.

 

“Queríamos ver Jesus” (Jo 12, 21). Este pedido de um grupo de gregos aos discípulos, em Jerusalém, continua a ecoar hoje aos nossos ouvidos para que não só falemos de Cristo, mas também de certa forma O façamos “ver”. “Não é porventura a missão da Igreja refletir a luz de Cristo em cada época da história e por conseguinte fazer resplandecer o seu rosto também diante das gerações do nosso tempo?” (S. João Paulo II, Exortação apostólica Novo Millennio Ineunte -NMI, 16).

Explícita ou implicitamente, os nossos contemporâneos pedem-nos também: “Queríamos ouvir Jesus!”. São muitos os que hoje, de tantas formas, solicitam: “Queríamos tocar Jesus!”. Como é grande, nos nossos dias, a sede de Deus!

Sim, é possível “escutar”, “tocar” e “ver” Jesus Cristo, desde que a Sua presença possa transparecer em nós e no meio de nós. Há que voltar à experiência dos discípulos de Emaús, reconhecendo Jesus Ressuscitado como contemporâneo, conterrâneo e companheiro de viagem (Lc 24, 13-35). Como estes dois discípulos podemos escutar da Sua boca palavras que fazem “arder o coração”, tocá-lo no Pão e no Vinho da Eucaristia, e fazer com que os outros O possam “ver” no meio de nós, como estes discípulos que regressam apressadamente a Jerusalém para tudo partilharem com os restantes discípulos.

O modo como Jesus formou os discípulos constitui o modelo de referência. Ele não se limitou a dar uns ensinamentos, mas partilhou com eles a vida.

As páginas do Evangelho mostram que Jesus se encontra com as pessoas na unicidade da sua história e da sua situação. Ele nunca parte de preconceitos ou de rótulos, mas de uma relação autêntica na qual Ele se envolve com todo o seu ser, mesmo sob o prejuízo de ficar exposto à incompreensão e à rejeição. Jesus escuta sempre o grito de ajuda de quem passa necessidade, mesmo quando fica por se exprimir; realiza gestos que transmitem amor e restituem confiança; com a sua presença torna possível uma nova vida: quem se encontra com Ele, sai transformado. Isto acontece porque a verdade de que Jesus é portador, não é uma ideia, mas é a própria presença de Deus no meio de nós; e o amor com que atua não é apenas um sentimento, mas a justiça do Reino que muda a história.

 

A força do Espírito Santo torna possível a presença viva de Jesus como companheiro, conterrâneo e contemporâneo: mas temos consciência de que é esta a razão de ser de tudo o que existe na Igreja?

Para que esta maravilhosa missão se realize, a primeira e fundamental condição é permanecermos unidos em comunhão que é unidade na diversidade, diversidade na unidade e experiência do amor trinitário; empenharmo-nos por uma Igreja em que não é só, nem cada um, mas caminho comum que dá à Igreja um rosto sinodal e samaritano.

Por tudo isto, não é a Igreja que tem uma missão para falar de Deus; é a missão de Deus, no Seu infinito amor pelos homens, que tem esta Igreja, e cada uma das suas dioceses, paróquias, institutos religiosos, movimentos e obras, para a missão, desde dentro em comunhão e sempre em saída, em missão: no amor, com amor, por amor.

Oferecer aos homens e mulheres do nosso tempo a alegria e a esperança do Evangelho é convidá-los a reencontrar o anúncio jubiloso do amor, da adoção como filhos amados de Deus e, consequentemente, da fraternidade.

Como são sábias as palavras do Papa Francisco: “Mais do que o ateísmo, o desafio que hoje se nos apresenta é responder adequadamente à sede de Deus de muitas pessoas, para que não tenham de ir apagá-la com propostas alienantes ou com um Jesus Cristo sem carne e sem compromisso com o outro. Se não encontram na Igreja uma espiritualidade que os cure, liberte, encha de vida, de paz e que ao mesmo tempo os chame à comunhão solidária e à fecundidade missionária, acabarão enganados por propostas que não humanizam nem dão glória a Deus” (EG 89).

Recordemos, mais uma vez, que nós não inventamos a Igreja; ela é de Jesus Cristo e recebe-se d’Ele; só depois se pode tornar tarefa, projeto e missão!

 

1.Ser Igreja, reconhecendo-a como mistério, comunhão e missão

 

A Igreja é dom de Jesus Cristo para ser comunhão; é tarefa confiada a homens e mulheres para ser missão. A Igreja é presença de Jesus num povo que caminha na história: mistério, comunhão e missão.

Jesus Cristo, no meio de nós, foi e é caminho, verdade e vida (Jo 14, 6). Durante 30 anos, caminhou com os homens, enraizando-se na história e cultura humana; durante 3 anos, iluminou o caminho com a verdade, anunciando a Boa Nova; durante 3 dias, caminho e verdade tornaram-se celebração e Ele fez-se vida. Trinta anos foram o tempo da identificação com a condição humana; três anos foram o tempo do anúncio do Evangelho; três dias foram o tempo de se constituir nossa Páscoa.

A Igreja não se inventa. É gerada, alimentada e guiada por Jesus Cristo que a pensou como semente do Reino de Deus.  Para construir o Reino de Deus, pensou-a como comunhão: “que todos sejam um como Eu e o Pai somos um” (Jo 17, 21). 

De facto, a Igreja nasceu comunhão: na comunidade/paradigma de Jerusalém, os cristãos eram “assíduos ao ensino dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do Pão e às orações” (At 2, 42).  Tendo nascido comunhão (séc. I); evoluiu para sociedade (séc. IV); assumiu-se como sociedade perfeita (séc. XIII); sentiu-se sociedade minoritária na sociedade (séc. XVIII); sentiu necessidade de reconversão ao modelo comunitário no séc. XX, particularmente com o Concílio Vaticano II (1962-1965). 

As Constituições Conciliares são quatro pilares que sustentam o edifício da renovada pastoral da Igreja ao serviço do Reino da Salvação e servem-nos de obrigatória referência: Lumen Gentium (LG), Dei Verbum (DV), Sacrosanctum Concilium (SC), Gaudium et Spes (GS). O Concílio e as suas Constituições não ficaram esquecidas na década de sessenta do século passado, mas continuam diante de nós e a interpelar-nos para escutar, como discípulos; para celebrar a Deus, como filhos; para dialogar com todos os compromissos da família humana, como testemunhas.

Com a constituição conciliar sobre a Igreja Lumen Gentium (comunhão orgânica e corresponsável) sabemos, hoje melhor que ontem, quem somos e para onde vamos; com a constituição sobre a Palavra de Deus Dei Verbum (palavra confessante e anunciante) aprendemos a escutar a Deus, que idioma devemos falar (amorês) e que mensagem devemos difundir; com a constituição sobre a Liturgia e os Sacramentos Sacrosanctum Concilium (liturgia orante e sacerdotal) aprendemos a dirigirmo-nos a Deus como filhos e experimentamos como e com que intensidade celebrar; com a constituição sobre a presença cristã no mundo Gaudium et Spes (compromisso ético e solidário) como irmãos e irmãs aprendemos a dialogar com todos e decidimos que atitude assumir diante dos problemas e dramas da família humana.

Queremos ser Igreja ao serviço do Reino de Deus, com o anúncio da Palavra da libertação e da vida em plenitude, para que a voz de Cristo seja escutada (DV); com uma vida litúrgica e sacramental que seja seu sinal antecipador e realizador, para “tocarmos” e nos alimentarmos de Jesus (SC); com uma vida de comunidade pensada e vivida com o sinal na história das lógicas e valores do Reino de justiça, comunhão, reconciliação, que deixa “ver” e “transparecer” a presença e ação de Jesus Ressuscitado (GS).

Estamos chamados a ser Igreja que não procure oferecer “sinais de poder”, mas sim o “poder dos sinais” compreensíveis para a sociedade atual, sinais que não contradigam a mensagem transmitida, oferecida e testemunhada. Tudo isto implica um rosto de igreja: família de famílias, comunidade de comunidades (LG).

 

A Igreja é povo de Deus, mas não à maneira de uma associação ou sociedade que se dá, a si mesma, a sua constituição e as suas normas de ação.  A Igreja é Povo de Deus que parte do mistério de Cristo e, por isso, deve-lhe fidelidade histórica e teológica.  Por fidelidade histórica, não se pode reinventar nem sair do paradigma fundamental em que nasceu.  Por fidelidade teológica, há-de saber-se adaptar às situações novas que tem o dever de iluminar, inspirar e assumir. É necessário, permanentemente, um caminho de refontalização (retorno fiel às fontes de que a Igreja nasceu) e abertura (atenção à realidade antropológica e social do tempo e à cultura em que a Igreja é, hoje, desafiada).

 

O modelo pastoral evangelizador implica um projeto pastoral com a preocupação do primeiro anúncio do Evangelho, que supõe e exige propostas com insistência na força da Palavra de Deus. Este modelo e projeto pastoral obriga a questionar-nos: O que fazer para que nas comunidades cristãs se possa “ouvir”, “tocar” e “ver” Cristo vivo e ressuscitado? Que vias percorrer para que a força do Espírito Santo torne possível a presença viva de Jesus como companheiro, conterrâneo e contemporâneo, tendo consciência de que é esta a razão de ser de tudo o que existe na Igreja?

Temos a responsabilidade de afinar a voz e os ouvidos numa sociedade sedenta de ouvir e dizer a palavra que comunica, que exprime, que faz relação: Palavra de fé.

Temos a responsabilidade de consagrar a vida celebrando Jesus Cristo para discernir o sentido novo da existência a partilhar.

Temos a responsabilidade de darmos as mãos na construção da sociedade que é produtora e consumidora de pão, isto é, de trabalho, de cultura, de natureza, de política, de secularidade, de relação social, de justiça, de solidariedade, em suma, de valores temporais.

 

2.Escutar Jesus, afinando os ouvidos e a voz para ouvir e dizer a Palavra

 

A responsabilidade de afinar os ouvidos e a voz para ouvir e dizer a Palavra, de consagrar a vida celebrando, de dar as mãos na construção da sociedade, não é só do pastor, nem só de cada paroquiano que, apenas individualmente, seria confrontado com a sua consciência, mas de toda a comunidade paroquial e diocesana configurada como sinal de salvação, em Jesus Cristo, para o mundo deste tempo.

Tendo recebido a Boa Nova da salvação que é Jesus Cristo, enquanto Igreja só podemos viver em diálogo entre a Palavra de Deus e a vida, na fidelidade à Palavra (Dei Verbum = constituição dogmática do Vaticano II sobre a Palavra de Deus) e na abertura às realidades da cultura deste tempo.

A Palavra de Deus é transformadora, não sendo possível recebê-la apenas histórica, cultural e literariamente. Ela tem de ser recebida numa Igreja crente e confessante; tem de ser dada a partir de um Igreja profética e anunciante.  Não sendo dona da Palavra, a Igreja tem de a receber e de a confessar na fidelidade à fonte que é Jesus Cristo; tem de a anunciar e viver com abertura aos homens e mulheres deste tempo: como experiência de Deus que se dá a conhecer e se comunica para iluminar a comunidade, onde somos destinatários e agentes da Boa Nova.

Temos consciência de que somos portadores da alegria e da esperança do Evangelho como discípulos missionários de Cristo (EG 120). Não podemos perder nunca este sentido missionário, onde joga papel fundamental a qualidade do nosso serviço à família, à igreja e à sociedade.

E o primeiro testemunho que é preciso dar é o da alegria de ser quem somos: pessoas de esperança, pessoas da Igreja ao serviço da formação integral, que inclui todas as dimensões da fé: fé professada, celebrada, vivida, rezada, anunciada.

Sem complexos ou receio de críticas, procuremos ser evangelizadores fiéis, fiáveis e felizes! Quando tantos mostram cansaço, enfado, azedume, nós, cristãos, “em vez de crescermos na severidade, na intransigência, na indiferença, no sarcasmo, na maledicência, no lamento, caminhemos suavemente no sentido contrário. Cresçamos na simplicidade, na gratidão, no despojamento e na confiança. A alegria tem a ver com uma essencialidade que só na pobreza espiritual se pode acolher” (Tolentino Mendonça, Nenhum caminho será longo, p. 152). A alegria deve ser uma marca tatuada no nosso rosto!

Como cristãos somos, por vocação, os anunciadores da esperança, sendo testemunhas da paixão de Deus pela vida de todos. Tudo isto, porque constatamos que as palavras do Evangelho são únicas, fascinantes, podem traduzir-se em vida, são luz para cada homem e cada mulher que peregrina neste mundo.  

Como é decisivo que a Palavra de Deus percorra os caminhos do mundo, que hoje são também os da comunicação, informática, televisiva e virtual. Que a Bíblia entre nas famílias para que pais e filhos a leiam, com ela rezem e seja lâmpada dos seus passos no caminho da existência.

Cada vez mais se interpreta a existência humana numa perspetiva exclusivamente horizontal e fechada nos confins do mundo, como se vivêssemos sob um grande guarda-chuva. Como se fossemos girassóis à meia-noite. É uma necessidade pastoral, particularmente nos tempos atuais, colocar o Evangelho em diálogo com a vida concreta e com a cultura.

É urgente criar ligames entre os problemas reais e o Evangelho para “afinarmos” assim o nosso pensar, sentir e agir. Tudo isto implica, antes de mais, suscitar sede e encanto pela luz, pela força e pela alegria do Evangelho.

 

3.Tocar Jesus, consagrando a vida celebrando Jesus Cristo

 

Na liturgia anual, Deus revela-se, no mistério do Natal, como Pai. Na fragilidade do Presépio, a luz discreta da fé manifesta a ternura de Deus. Como semente, o Presépio produzirá o Altar.

Jesus, que habitou entre nós, enraizado na nossa condição humana que assumiu, é Deus-Filho. Na solene grandeza do Calvário, cruza o divino com o humano e, para nós, na Páscoa faz-se dom. Da Cruz, que é altar para nós e para nossa salvação, nasce a Eucaristia que é comunhão.

A Semana Santa – Semana Maior – é cume e fonte: é cume da vida de Cristo; é fonte da vida da Igreja.

Na Páscoa, tem certidão de nascimento a Igreja. Com a ressurreição irrompe, na comunidade crente, a força discreta da interioridade de Deus que se faz sentir pelo Espírito Santo. No Pentecostes, é proclamada a missão da Igreja.

Em todos os tempos e de modo especial em tempos de perseguição, a Eucaristia foi o segredo da vida dos cristãos: o alimento das testemunhas, o pão da esperança. É grande o contraste com o que se passa na atualidade em que tantas pessoas, mesmo dizendo-se cristãs, “passam muito bem sem a Missa de cada Domingo”!

Só se pode perceber a Missa com o coração, isto é, quando se começa a estar afeiçoado a ela, pois a par do “como” é a Missa há o “porquê” da Missa. A Missa existe porque Deus nos ama e, por conseguinte, quer habitar entre nós, quer encontrar-nos em Seu Filho crucificado, morto e ressuscitado.

Na Última Ceia, Jesus vive o apogeu da sua aventura terrena: a doação máxima no amor para com o Pai e para connosco, expressa no seu sacrifício que antecipa no corpo doado e no sangue derramado. Deste momento e não de outro, como a transfiguração, os milagres…, Ele deixou-nos o memorial “Fazei isto em memória de mim” (1 Cor 11, 24). Deixa na sua Igreja o memorial, presença daquele momento supremo de amor e dor sobre a Cruz, que o Pai torna perene e glorioso com a ressurreição.

A Missa segue o caminho do amor: conhecer-se, confrontar-se, falar “coração a coração”, “tornar-se um só coração e uma só carne”. A Comunhão poderia intitular-se boca a boca ou mesmo corpo a corpo, porque aqui tocamos no próprio Corpo do Senhor e Ele próprio toca no nosso: comemos o Seu Corpo e bebemos o Seu Sangue!

Eis o mistério admirável, maravilhoso da nossa fé: do Deus connosco, Deus para nós e Deus em nós! Do Deus que é para nós Salvação: Jesus!

Do coração de Cristo na Eucaristia flui a vida divina para todos os membros do corpo para que possam viver d' Ele, servindo sempre e bem.

Tal como o coração leva o sangue vital a todos os membros do corpo, assim a Eucaristia leva a vida e o dinamismo do amor oblativo (eucarístico) a todo o corpo e a todos os membros da Igreja.

A Eucaristia, celebrada e vivida, é o tesouro mais precioso que possuímos como Igreja. É, na verdade, o coração da nossa Igreja. Dela promana a força para todos os sectores da vida eclesial e para a nossa vida pessoal. Nela, fazemos a experiência da Igreja-comunhão, na variedade dos seus dons, ministérios e vocações. Ela mesma é fonte espiritual dos carismas, das vocações, dos serviços e ministérios necessários para fazer chegar a todos os dons de Cristo: a Palavra, a graça dos sacramentos e o amor fraterno.

Os sacramentos da iniciação cristã conferem a todos os discípulos de Jesus a responsabilidade da missão da Igreja. Leigos e leigas, consagradas e consagrados, e ministros ordenados têm igual dignidade. Receberam carismas e vocações diversas e exercem papéis e funções diferentes, todos eles chamados e nutridos pelo Espírito Santo para formar um só corpo em Cristo. Todos discípulos, todos missionários, na vitalidade fraterna de comunidades locais que experimentam a suave e confortante alegria de evangelizar. O exercício da corresponsabilidade é essencial para a sinodalidade e é necessário a todos os níveis da Igreja. Todo o cristão é uma missão neste mundo.” (Relatório de Síntese da primeira sessão da XVI assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, nº 8, alíena b).

A celebração eucarística é geradora da vida da comunidade e sinodalidade da Igreja: lugar de transmissão da fé e de formação para a missão, onde se torna evidente que a comunidade vive, não da obra de suas mãos mas da graça.

É preciso reafirmar com clareza que o compromisso de celebrar com nobre simplicidade e com o envolvimento dos vários ministérios laicais, constitui um momento essencial da conversão missionária da Igreja.

É necessário favorecer uma participação ativa, mantendo viva a admiração pelo Mistério; ir ao encontro da sensibilidade musical e artística atuais, mas ajudar a compreender que a liturgia não é puramente expressão de nós próprios, mas ação de Cristo e da Igreja. É igualmente importante fazer a descoberta do valor da adoração eucarística como prolongamento da celebração, durante o qual se vive a contemplação e a oração silenciosa.

Nos percursos da fé tem grande importância, também, a prática do sacramento da Reconciliação. Todos temos necessidade de nos sentirmos amados, perdoados, reconciliados, e temos uma secreta nostalgia do abraço misericordioso e sentir as mãos calorosas do Pai. Por isso, é fundamental que os presbíteros manifestem uma disponibilidade generosa para a celebração deste sacramento. As celebrações penitenciais comunitárias ajudam-nos a aproximar-nos da confissão individual e tornam mais explícita a dimensão eclesial deste sacramento.

Também nas nossas comunidades, a piedade popular desempenha um importante papel no acesso à vida de fé de maneira prática, sensível e imediata. Valorizando a linguagem do corpo e a participação afetiva; a piedade popular traz consigo o desejo de entrar em contacto com o Deus que salva, frequentemente através da mediação da Mãe de Deus e dos Santos.

Para todos, a peregrinação constitui uma experiência de caminho que se torna metáfora da vida e da Igreja: assim, na contemplação da beleza da criação e da arte, na vivência da fraternidade e na oração que nos une ao Senhor, vemos aflorar as melhores condições do discernimento (Cfr. Documento final da XV assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, nn. 134-136).  

 

4.Ver Jesus, dando as mãos na construção da sociedade

 

É preciso conciliar a proclamação do mistério e da dimensão vertical do Cristianismo com a atenção constante e operativa às necessidades horizontais da caridade e da justiça, bem como a vinculação existente entre a Mesa do Corpo de Cristo e a Mesa dos pobres, sublinhando que o sacramento do altar não pode estar separado do sacramento do irmão e que o anúncio da Palavra não pode separar-se de gestos concretos de serviço caritativo. Do amor nascem gestos!

A Igreja é chamada não apenas a tornar-se próxima dos pobres e dos últimos, mas a aprender com eles. Se fazer sínodo significa caminhar juntamente com Aquele que é o caminho, uma Igreja sinodal precisa de colocar os pobres no centro de todos os aspetos da sua própria vida: através dos seus sofrimentos têm um conhecimento direto de Cristo que sofre (cf. EG 198). A semelhança da sua vida com a do Senhor torna os pobres anunciadores de uma salvação recebida em oferta e testemunhas da alegria do Evangelho.

Somos chamados a caminhar, individualmente, como famílias e como comunidades, com o coração e o passo dos mais frágeis, acolhendo e fazendo-nos samaritanamente próximos de todos.

Num mundo, como o nosso em que cada um se considera a medida de tudo e frequentemente se olha o outro como coisa, meio ou rival (A. Wénin), multiplicando-se tantas feridas relacionais, como discípulos missionários felizes, fiéis e fiáveis procuremos estar atentos a quem vive na tribulação e na ansiedade por falta de meios e de referências, para ajudar a seguir em frente com esperança. 

Jesus viveu e ensinou, não uma mística de olhos fechados, mas a mística de olhos e ouvidos bem abertos, de mãos disponíveis e de pés calçados, comprometida na perceção intensificada do sofrimento alheio. Mística que desencadeia proximidade física. Proximidade física, não de qualquer maneira e a qualquer preço, mas ligada à visão contemplativa: amar o outro como Deus o ama, vê-lo como Deus o vê. 

A fraternidade exige, necessária e constantemente, um ato consciente, livre e responsável de escolha: “trata-se de aprender a descobrir Jesus no rosto dos outros, na sua voz, nas suas reivindicações; e aprender também a sofrer, num abraço com Jesus crucificado, quando recebemos agressões injustas ou ingratidões, sem nos cansarmos jamais de optar pela fraternidade” (EG 91).

Temos de estar atentos às novas formas de pobreza que marcam a experiência do nosso tempo, procurando levar a Boa Nova do Reino às “periferias existenciais”, lugares privilegiados de encontro e de fraternidade, palpitantes de esperas e necessidades, mas ricos de sonhos e recursos. São lugares de sofrimento e de gestação, nos quais vida e fé podem ser repropostas e redescobertas.  

Importa continuar a renovação eclesial que temos vindo a prosseguir: Uma Igreja Sinodal e Samaritana, que sabe olhar, cuidar e acompanhar! Deriva da nossa fé em Cristo, - afirma o Papa Francisco - que Se fez pobre e sempre Se aproximou dos pobres e marginalizados, a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade” (EG 186).

É sempre bom lembrar as palavras do Papa Bento XVI, sobre o específico da caridade cristã, na sua primeira encíclica “Deus é Amor”: “Para que o dom não humilhe o outro, devo não apenas dar-lhe qualquer coisa minha, mas dar-me a mim mesmo, devo estar presente no dom como pessoa” (Deus caritas est, DCE 34).

 

Como comunidades cristãs precisamos de prestar mais atenção às necessidades espirituais, físicas e relacionais que resultam de situações agudas como pobreza, exclusão social, doença e morte ou de crises relacionadas com a solidão na velhice, as ruturas no relacionamento familiar e outras. No nosso tempo, vem também em destaque o vazio interior e a falta de sentido da vida.

 

“A própria beleza do Evangelho nem sempre a conseguimos manifestar adequadamente, mas há um sinal que nunca deve faltar: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora” (EG 195).

 

No meio de tantas instituições sociais que servem o bem comum, próximas de populações carenciadas, contam-se as da Igreja Católica. Importa que seja clara a sua orientação de modo a assumirem uma identidade bem patente: na inspiração dos seus objetivos, na escolha dos seus recursos humanos, nos métodos de atuação, na qualidade dos seus serviços, na gestão séria e eficaz dos meios. A firmeza da identidade das instituições é um serviço real, com grandes vantagens para os que dele beneficiam. Passo fundamental, além da identidade e unido a ela, é conceder à atividade caritativa cristã autonomia e independência da política e das ideologias (cf. Bento XVI, DCE, 31 b), ainda que em cooperação com organismos do Estado para atingir fins comuns.

Entram, neste âmbito, as iniciativas que visam tutelar a inviolabilidade e sacralidade da vida humana, desde a sua conceção até à morte natural; bem como da família, fundada sobre o matrimónio indissolúvel de um homem com uma mulher, e que ajudem a responder a alguns dos mais perigosos desafios que hoje se colocam ao bem comum. Tais iniciativas constituem, juntamente com muitas outras formas de compromisso, elementos essenciais para a construção da civilização do amor (Cf. Bento XVI - Fátima, 13 de maio de 2010).

Como Igreja precisamos de dar muito mais atenção e importância ao mundo do trabalho: na diocese, nas paróquias e nos movimentos! Constatamos como é difícil fazer entrar o tema do trabalho no âmbito pastoral. Não faltam documentos, no âmbito da Doutrina Social da Igreja, que proclamam belas propostas; mas tem sido difícil retirar as consequências práticas.

Há que lembrar que existe um ligame indissolúvel entre o trabalho e as questões mais profundas, as que se referem ao sentido da vida: encontrar significado e rumo para a existência. “O trabalho é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de maturação, desenvolvimento humano e realização pessoal” – recorda o Papa Francisco no n. 269 da Exortação apostólica Christus Vivit.

Importa sublinhar que emerge, com toda a força, uma nova classe social: “o precariado” e os jovens são a componente maioritária desta nova classe social. O mais grave é que não é somente o trabalho precário, mas também, consequentemente, as relações humanas, os afetos e os sentimentos se tornam precários.

Tendo consciência da complexidade da vida social dos nossos tempos, há que recordar as palavras do Papa Francisco: “Desejo afirmar, com mágoa, que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé. A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e prioritária” (EG 200).

Somente uma comunidade unida e plural pode propor-se, de maneira aberta, a levar a luz do Evangelho aos âmbitos da vida social que hoje nos desafiam: a questão ecológica, o trabalho, o apoio à família, a marginalização, a renovação da política, o pluralismo cultural e religioso, o caminho para a justiça e a paz, o ambiente digital. Não podemos enfrentar sozinhos estes desafios, mas em diálogo e parceria com todos, não para receber uma fatia de poder, mas a fim de contribuir para o bem comum.

 

3.OPÇÕES PASTORAIS

 

Temos, hoje, mais consciência de que uma Igreja sinodal se funda no reconhecimento da dignidade comum derivada do Batismo que torna todos os que o recebem filhos e filhas de Deus, membros da família de Deus e, portanto, irmãos e irmãs em Cristo, habitados pelo único Espírito e enviados para cumprir uma missão comum, caminhando lado a lado com todos.

A comunhão e a missão nutrem-se da participação comum na Eucaristia que faz da Igreja um corpo «reunido e unido» (Ef 4,16) em Cristo, capaz de caminhar em conjunto rumo ao Reino. Uma Igreja sinodal nutre-se incessantemente na fonte do mistério que celebra na liturgia, «a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde dimana toda a sua força» (SC 10) e, em particular, na Eucaristia.

Uma Igreja sinodal é uma Igreja do encontro e do diálogo, que escuta e procura ser humilde, capaz de pedir perdão, de buscar sempre caminhos de reconciliação e que tem muito a aprender. É aberta, acolhedora e abraça a todos, que sabe propor e anunciar, respeitosamente, caminhos novos a partir do Evangelho, numa compreensão sempre mais profunda da relação entre o amor e a verdade.

Uma Igreja sinodal é capaz de lidar com as tensões sem ser esmagada por elas, procurando sempre recompor a unidade: curar as feridas e reconciliar a memória, acolher as diferenças, procurando ser “sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano” (LG 1).

Temos consciência de que as instituições e estruturas, por si só, não são suficientes para tornar a Igreja sinodal: são necessárias uma cultura e uma espiritualidade sinodais, animadas por um desejo de conversão ao Evangelho, alimentadas pela Eucaristia e sustentadas por uma formação adequada: integral, inicial e permanente, para todos os membros do Povo de Deus.

 

1.A primeira e fundamental opção é caminhar unidos em comunhão (Pastoral Comunitária e Missionária)

 

Comunhão é unidade na diversidade e diversidade na unidade, que torna possível a presença de Jesus Ressuscitado em nós e entre nós, envolvendo-nos no amor trinitário. Não será demais repetir que a força do Espírito Santo torna possível a presença viva de Jesus como companheiro, conterrâneo e contemporâneo.

A comunidade cristã é chamada a ser Sacramento de Salvação: transparência do divino no humano, sinal e instrumento da comunhão de Deus com os homens e dos homens entre si.

A causa e a meta da ação de Jesus é reunir os filhos de Deus dispersos (Jo 11, 52) e conduzi-los à unidade com Deus e de uns com os outros.

Para sermos fiéis ao amor a Deus e aos irmãos, é necessário cuidar a hospitalidade: Acolher e alcançar a todos, a começar pelos mais distantes. Precisamos sempre de aprender a acolher melhor quem chega e pretende integrar-se num grupo, de modo a não se sentir ignorado, acabando por sair desiludido ou escandalizado. Comecemos por acolher bem nas nossas celebrações.

O acolhimento não é apenas uma boa prática para cativar potenciais “clientes”, mas uma exigência evangélica do ser cristão e do viver em missão. Que este acolhimento se faça com ternura e exigência, com abertura e discernimento.

A comunhão que nos une deverá ser sempre missionária. Quanto maior for a paróquia, mais “pequena” tem de se fazer, multiplicando células vivas. Há que valorizar o Conselho Pastoral, o Conselho Económico e a criação de Equipas Pastorais de acordo com as necessidades locais.

Precisamos de pequenos grupos que funcionem como células de comunhão, serviço e missão. Mas não precisamos de “grupinhos” e muito menos de uma paróquia transformada “num grupo de eleitos que olham para si mesmos” (cf. EG 28). Nem só um, nem cada um, mas paróquia, comunidade de comunidades, família de famílias.

Para ampliar a dimensão familiar e missionária da paróquia é preciso aproveitar mais e melhor as possibilidades do mundo digital (site, redes sociais), melhorar a comunicação com a sociedade e a cultura envolventes. Por que não pensar em criar uma pequena equipa de comunicação e multimédia em cada Unidade Pastoral?

Participar na ação da Igreja é tarefa de todos, embora nem todos exerçam o mesmo serviço ou tipo de responsabilidade. Os leigos manifestam o desejo de participar na ação pastoral da comunidade, mas nem sempre sabem como fazer, por falta de estruturas de participação ou de formação adequada e permanente.

 

Estamos no tempo dos conselhos e das equipas: Conselho Pastoral, Conselho Económico, Equipa Pastoral Paroquial (EPP), Equipa Pastoral da Unidade (EPU), Equipa Pastoral Arciprestal (EPA), Equipa do Conselho Episcopal (ECE). Podem depois multiplicar-se as equipas segundo as necessidades: de catequese, de liturgia, de caridade, pastoral familiar, pastoral dos jovens, pastoral vocacional, diálogo com a cultura, ecuménico e inter-religioso, etc.

Hoje, é recomendado a todos os responsáveis que, para tomarem decisões, procurem a opinião de um conselho, pois o trabalho em equipa é bem mais eficaz. Os leigos e religiosos são associados à responsabilidade pastoral: o pároco torna-se, cada vez mais, presidente de conselhos, assistente de equipas, visitador e guia de comunidades, ministro da Eucaristia e da Reconciliação, procurando que em cada lugar fique alguém que dê continuidade ao que foi semeado e não façamos simplesmente “cursos”, mas “percursos”.

Precisamos de continuar a caminhar para uma pastoral mais unitária, ou seja, organicamente participada que valorize e promova os diversos ministérios; projetada e animada por uma equipa (sacerdote-diáconos-religiosos-leigos) numa área territorial “homogénea”; que privilegie o acolhimento e acompanhamento pessoal e familiar; que dê prioridade à missão/evangelização. O maior desafio que, presentemente, se coloca às nossas paróquias é a passagem a este novo tipo de pastoral. Também há que querer a mesma coisa para todas as comunidades por igual, sobretudo no que se refere a estruturas pastorais, sendo necessário estabelecer o mínimo obrigatório para todas.

 

2.Anunciar (Pastoral Profética)

 

O âmbito da pastoral profética ou da Palavra é o do anúncio do Evangelho; a iniciação cristã (catequese) e a formação; a denúncia de tudo o que desumaniza, tomando posição pública sempre que necessário. Hoje, tornou-se necessário mudar, também, a maneira de anunciar, de iniciarmos e de formar na fé, para que se torne estilo de vida.

Uma paróquia viva precisa de leigos comprometidos na sua missão profética, de verdadeiros interlocutores com as pessoas que vivem nos diversos ambientes da sociedade, de autênticos “vedores”, que fazem descobrir e correr a água-viva da presença de Cristo na vida das pessoas. Moderadores que guiam e animam pequenos grupos ao redor da Palavra de Deus. Poderão ser de catequese, de movimentos ou os “Grupos Semeadores da Alegria”. Grupos ligados em rede, onde o pastor não é gestor, mas animador dos animadores, ou moderador dos moderadores.

Os “Grupos Semeadores da Alegria” são grupos de partilha da Palavra de Deus, como lugares onde se cultivam os rebentos de um mundo novo mais justo e fraterno, onde se faz a sementeira da cultura do encontro, da fraternidade e da esperança.

Ao reunir em pequenos grupos para a escuta da Palavra e para que a Palavra se faça vida e a nossa vida se faça Palavra, descobriremos a verdade das afirmações do Papa Francisco: «A Palavra possui, em si mesma, uma tal potencialidade, que não a podemos prever. [...]. A Igreja deve aceitar esta liberdade incontrolável da Palavra, que é eficaz a seu modo e sob formas tão variadas que muitas vezes nos escapam, superando as nossas previsões e quebrando os nossos esquemas» (EG 22).

Em pequena comunidade crescemos no conhecimento mútuo e ousamos projetos para a vida pessoal e familiar, bem como para a conveniente inserção no dinamismo da vida paroquial e na vida social e cultural.

Em cada paróquia, é preciso um(a) moderador(a) ou coordenador(a) da Pastoral Profética ou da Palavra, que faz parte da Equipa Pastoral Paroquial (EPP) e do Conselho da Unidade Pastoral (CUP) ou da Equipa Pastoral da Unidade (EPU).

 

3.Celebrar (Pastoral Litúrgica)

 

Dar prioridade à celebração e santificação do Domingo. Despertar a comoção pela beleza da celebração. Vai nesse sentido a formação e acompanhamento dos grupos corais, do grupo de leitores e do grupo de acólitos. Que nas homilias haja palavras que abrasem os corações (cf. EG 135-159) e cheguem ao concreto de todas as pessoas e da pessoa toda.

O canto, na liturgia, toca o mais profundo da alma e do coração. Importa melhorar o diálogo com as artes (pintura, escultura, poesia, teatro, música, dança) de modo que a beleza da arte dos espaços pastorais e litúrgicos aproxime pessoas, dialogue com o mundo e abra a via da beleza para o encontro com Deus.

A celebração eucarística pode incorporar elementos inovadores sem nunca deixar de lado a tradição, ordem e ritmo próprios da Liturgia: participação litúrgica de acordo com diferentes ministérios, ministério de acolhimento, música renovada que encoraja a participação da assembleia e homilia/pregação kerigmática, profética e missionária.

Há que encontrar para cada paróquia moderador(a) ou coordenador(a) da Pastoral Litúrgica, que faz parte da Equipa Pastoral Paroquial (EPP) e do Conselho da Unidade Pastoral (CUP) ou da Equipa Pastoral da Unidade (EPU).

 

4.Testemunhar (Pastoral Samaritana)

 

A Pastoral Samaritana ou Social ocupa-se com o desenvolvimento integral das pessoas, das famílias e da sociedade.

Por imperativo evangélico, há que cuidar a fragilidade, oferecendo um lugar privilegiado aos pobres ou aos últimos na comunidade. O mundo da pobreza (carência de bens essenciais e materiais) e das novas pobrezas (solidão, dependências, doença, luto, separação conjugal, ignorância religiosa, exclusão social, etc.) reclama a atenção de uma comunidade “pobre de meios, mas rica no amor” (Papa Francisco).

Os grupos paroquiais ligados à pastoral samaritana ou social não podem ser marginais na organização pastoral da comunidade, mas parte integrante da missão da Igreja, a quem cabe o serviço da Caridade e não apenas o da Palavra e da Liturgia. Não basta falar de Deus, mas é preciso deixar Deus falar (Bento XVI, DCE 31 c) pelo testemunho do amor gratuito. Nisto conhecerão que somos realmente discípulos missionários.

Não pode faltar em cada paróquia moderador(a) ou coordenador(a) da Pastoral Samaritana que faz parte da Equipa Pastoral Paroquial (EPP) e do Conselho da Unidade Pastoral (CUP) ou da Equipa Pastoral da Unidade (EPU).

 

5.Evangelizar as famílias (Pastoral Familiar)

 

O encontro com Jesus Ressuscitado produz aquela alegria que só Ele pode oferecer. Celebrar o sacramento do matrimónio e fundar uma família baseada na graça divina, é abrir as portas à verdadeira alegria e ouvir de novo as palavras de Jesus: “Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa” (Jo 15, 11).

A família é coluna de suporte de cada comunidade cristã. Os pais, os avós e todos os que vivem e partilham a sua fé em família são os primeiros missionários. A família, enquanto comunidade de vida e de amor, é um lugar privilegiado de educação à fé e à prática cristã, que necessita de um particular acompanhamento dentro das comunidades. É necessário apoiar sobretudo os pais que devem conciliar o trabalho, mesmo dentro da comunidade eclesial e no serviço da sua missão, com as exigências da vida familiar.

É urgente que surja nas paróquias, nos movimentos e na vida da Igreja em geral um novo dinamismo para preparar, integrar e acompanhar as famílias.

É preciso um casal que assuma, em cada paróquia, a moderação da Pastoral Familiar e que faz parte da Equipa Pastoral Paroquial (EPP) e do Conselho da Unidade Pastoral (CUP) ou da Equipa Pastoral da Unidade (EPU).

 

6.Revalorizar a participação dos jovens (Pastoral Juvenil)

 

São os próprios jovens os agentes ou protagonistas da pastoral juvenil e vocacional, acompanhados por adultos (ChV 203, ChV 242).

Duas grandes linhas de ação, à maneira dos dois remos que fazem avançar um barco: uma de busca, convocação, chamamento, capaz de cativar e atrair os jovens e outra de crescimento e amadurecimento na relação com Jesus Cristo e no crescimento no amor fraterno, na vida comunitária e no serviço (ChV 213).

A promoção de uma cultura vocacional é fundamental para todos os estados de vida, sem esquecer a urgência no despertar das vocações sacerdotais e de consagração. Essa intenção deve ser constante na ação pastoral e nos momentos de oração.

Como seria bom que, particularmente, os jovens se deixassem “contagiar” por uma grande afeição pelo Evangelho. É o Papa Francisco que os convida: “Cristo chama-vos e envia-vos. Abri o vosso coração. Tende a coragem e a ousadia de levar o Evangelho aos outros, oferecendo-o e não o impondo. Renunciai a fazer da vossa vida cristã um museu de recordações. Fazei antes a experiência da alegria do serviço aos mais pequenos, do compromisso na Igreja, do voluntariado missionário nesta vossa terra ou pelos confins do mundo. Preparai-vos não apenas para o vosso bom êxito profissional, mas fazei da vossa vida um dom para melhor servir aos outros (cf. Papa Francisco, Discurso aos jovens em Talin, 25.09.2018).

Após a Jornada Mundial da Juventude, juntamente com os jovens, testemunhemos e levemos a alegria e a esperança do Evangelho a todos, a começar por quem está ao nosso lado e ao longe até chegar aos confins do mundo.

É preciso reunirmo-nos, de muitos modos, para a escuta e para que a Palavra se faça vida e a nossa vida se faça Palavra.

Há que apoiar ou criar, em cada paróquia ou unidade pastoral, um ou mais grupos de jovens e formar os seus moderadores ou guias, que fazem da Equipa Pastoral Paroquial (EPP) e do Conselho da Pastoral da Unidade (CPU) ou da Equipa Pastoral da Unidade (EPU).

 

7.“Grupos Semeadores da Alegria” (GSA)

 

Para consolidar o caminho pastoral percorrido, teremos na base a Palavra de Deus, como centro a Eucaristia, e no horizonte, a vivência da caridade. Para que todos possam ouvir, tocar e ver a Jesus Cristo!

Para termos como alicerce a Palavra de Deus, é preciso formar grupos ao redor da Palavra, tanto nas zonas rurais (lugares de culto) como nas zonas urbanas (famílias), que se tornem células de vida cristã: “Grupos Semeadores da Alegria” (GSA).

Como seria bom se fossemos criando uma rede de grupos ao redor da Palavra, Grupos Semeadores da Alegria, onde se conheça, reze, viva e partilhem os frutos do Evangelho.

Será a escuta, oração e vivência da Palavra o ponto de partida para uma vivência e centralidade do Domingo (Eucaristia) e para a sinodalidade na comunhão e na missão.

“Grupos Semeadores da Alegria” para pormos em prática a Evangelii Gaudium do Papa Francisco, procurando tecer “artesanalmente” comunidades acolhedoras, unidas e missionárias.

Partimos da disponibilidade de nos pormos à escuta da Palavra de Deus, juntamente com os que estão à nossa volta, para que a Palavra dê sentido à nossa vida e sejam vividas, com beleza, as circunstâncias festivas e enfrentados, com coragem, os momentos de prova e sofrimento.

Confiamos a São Bento e à Senhora das Graças a promessa e o sonho de que se multipliquem, na nossa Diocese, pequenas comunidades ou grupos ao redor da Palavra de Deus, que sejam “Grupos Semeadores da Alegria” no coração de cada um, nas famílias, nas comunidades cristãs e na sociedade.

Como são interpeladores das palavras de Charles Péguy: “Jesus Cristo, meu filho, não nos deu palavras em conserva para guardar. Mas deu-nos palavras vivas para nos alimentar. Alimentadas, trazidas, aquecidas, quentes num coração vivo. E não conservadas no mofo, em caixas de madeira ou cartão.

Como Jesus tomou, como teve de tomar corpo, de revestir-se de carne, para pronunciar as palavras (carnais) e para fazer entendê-las, para poder pronunciá-las, e nós, também nós, à imitação de Jesus, também nós somos carne e devemos aproveitar o facto para conservá-las, lhes darmos calor, para alimentá-las em nós, vivas e carnais.

Devemos alimentar com a nossa carne, com o nosso sangue e com o nosso coração as Palavras eternas, temporalmente, carnalmente pronunciadas. (…) As palavras que sem nós morreriam descarnadas” (Charles Péguy, Os Portais do Mistério, pp. 81-82).

A autoridade por excelência é a da Palavra de Deus, que deve inspirar cada encontro dos organismos de participação, cada consulta e cada processo de decisão. Para que isto aconteça é necessário que, a todos os níveis, o ato de se reunir busque sentido e força na Eucaristia e se desenrole à luz da Palavra escutada e partilhada na oração.

 

Nos grupos, equipas e conselhos pastorais, fiéis e pastores caminham juntos, ouvem-se uns aos outros, dialogam, fazem propostas com parrésia (liberdade e confiança), discernem e respeitam a decisão dos órgãos ou pessoas correspondentes.

O reunir-se em grupo, equipa ou conselho, faz com que exista uma liderança partilhada, onde leigos e/ou religiosos e padres reforçam a capacidade de diagnosticar a realidade, juntamente com as necessidades das comunidades, das famílias e das pessoas que têm de acompanhar.

 

 

8.Compromissos concretos para o triénio 2023-26:

 

1.Multiplicar os “Grupos Semeadores da Alegria”, que se reúnem ao redor da Palavra. A paróquia é uma comunidade e, dentro dela, a fé é vivida, alimentada e amadurecida em pequenos grupos ou células, nos quais é possível a oração, o acompanhamento mútuo, o diálogo intergeracional, o reconhecimento entre as pessoas, a partilha da vida em comum e os ensinamentos dos Apóstolos.

Nos pequenos grupos ou células, é possível fazer um discernimento pessoal e em grupo sobre a vocação ou missão para a qual Deus nos chama.

O pároco acompanha o crescimento na fé destes pequenos grupos ou células, encontrando-se regularmente com os moderadores, líderes ou animadores de cada grupo/célula.

 

2.Constituir, em cada paróquia, uma Equipa Pastoral Paroquial (EPA) e em cada Unidade Pastoral o Conselho Pastoral da Unidade (CPU) formado pelos membros das Equipas Pastorais Paroquiais e, à maneira de Secretariado Permanente, a respetiva Equipa Pastoral da Unidade (EPU).

A Equipa Pastoral é presidida pelo pároco e é constituída, no mínimo, por um representante do Conselho Económico e pelo moderador (a) ou coordenador (a) da Pastoral Profética, da Pastoral Litúrgica, Pastoral Samaritana, Casal Moderador da Pastoral Familiar e pelos Moderadores do Grupo de Jovens. Fazem parte também os Diáconos Permanentes e os Consagrados.

A Equipa Pastoral terá de assumir a visão pastoral comum; deve ser formada e gerir em conjunto com o pároco, de forma corresponsável, a renovação pastoral da paróquia.

Pertencer a uma comunidade paroquial, não pode impedir alguns membros de oferecerem a sua disponibilidade para uma missão, animando ou liderando outros grupos noutra paróquia, unidade pastoral ou arciprestado.

 

 

3.O Conselho Episcopal ou Equipa do Conselho Episcopal (ECE) terá também uma configuração semelhante.

 

4.Numa perspetiva de eficácia e orgânica pastoral, cada vez mais se faz sentir a urgência de valorizar a sede do Arciprestado como centro de fraternidade apostólica: centro de encontro, centro de reflexão pastoral, depósito de subsídios pastorais, centro de reunião e de formação dos vários grupos e movimentos de ação pastoral.

 

5.Será necessário reconfigurar o organigrama da Diocese, para que a Cúria Diocesana, os Conselhos, Secretariados, Departamentos, Serviços e Direção de Movimentos se articulem numa ação evangelizadora fecunda.

 

6.Na perspetiva da Igreja sinodal missionária, precisamos de prestar uma atenção especial à formação inicial dos sacerdotes e diáconos permanentes, acompanhando e apoiando os seminaristas e seminários, bem como à formação permanente dos sacerdotes e diáconos.

 

7.É preciso recomeçar a formação dos leigos para os ministérios, dinamizando o Instituto Diocesano de Estudos Pastorais (IDEP). Deseja-se que os leigos, sacerdotes e religiosos sejam formados e preparados para assumirem, com corresponsabilidade, ações pastorais e ministeriais (de acordo com as necessidades) baseadas no discernimento comunitário.

O IDEP deverá suscitar e formar discípulos missionários que, guiados pelo Espírito Santo, ouvem a Palavra de Deus, proclamam-na e procuram vivê-la; têm uma vida ativa de oração e vida sacramental; através de diversos ministérios participam e estão ao serviço da comunidade; evangelizam no seu ambiente quotidiano e atraem outros, sempre em contínua melhoria das suas competências para a missão.

 

8.A Visita Pastoral, a iniciar em janeiro de 2024, será ocasião para semear alegria e esperança. Porque cada Palavra do Evangelho é semente de vida, há que multiplicar os “Grupos Semeadores da Alegria” ou outros semelhantes. Com esta principal finalidade, a Visita Pastoral será antecedida de uma Missão Bíblica.

Na Visita Pastoral é também necessário analisar a vida das Paróquias e das Unidades Pastorais, para assumirmos, com entusiasmo, um modo de fazer pastoral: mais sinodal, mais samaritano e mais missionário. Queremos empenhar-nos, sem reservas, numa pastoral: mais feliz, mais fiel e mais fiável.

Nesta perspetiva, ganham importância decisiva as Equipas e os Conselhos Pastorais, que, depois da Visita, deverão permanecer ativos.

 

CONCLUSÃO

 

Estamos convocados, através do caminho sinodal, que estamos a percorrer, para um renovado empenho por comunidades mais fraternas e unidas, mais corresponsáveis e orgânicas, mais abertas e missionárias e a buscarmos sempre juntos (sinodalmente) caminhos pastorais mais fecundos e semeadores de alegria e de esperança. Daremos assim o nosso humilde contributo para resolver os enormes problemas que as pessoas e as famílias têm de enfrentar na atualidade, ajudando-as a encontrar um projeto de vida feliz.

A missão da Igreja é anunciar, celebrar e testemunhar: o amor gratuito e incondicional de Deus-Pai; a conversão ao Evangelho de Jesus Cristo; o dom do Espírito, que sempre nos faz renascer pelo perdão e forja comunidades cristãs cuja identidade é a fraternidade.

Procuremos crescer na afeição e encanto pelo Evangelho como Palavra para viver. Sendo frágeis e pecadores tentemos, em cada dia, “afinar” o nosso pensar, sentir e agir pelo Evangelho. Tenhamos como alicerce da vida pessoal, familiar e comunitária as palavras evangélicas.

As Palavras de Jesus permitem-nos contemplar e amar a Deus Trindade de Amor e, ao mesmo tempo, caminhar lado a lado com os irmãos. Pois a Palavra de Deus dá-nos a consciência de sermos filhos amados de Deus e, por isso, irmãos de todos. Como filhos amados e irmãos estamos convocados também, como cidadãos, para construir um mundo mais fraterno, justo e belo com todos os homens e mulheres de boa vontade.

Que o exemplo de Maria, Senhora das Graças e Senhora da Prontidão (EG 288), nos ajude a sairmos da escuta e do encontro com Cristo para nos pormos todos a caminho e a toda a pressa, porque é hora de assumirmos esta graça maior: ser uma Igreja que existe para evangelizar (Cf. EN 14).

Caros irmãos e irmãs: que o exemplo e a intercessão de S. Bento, nosso padroeiro, nos leve a amar a Igreja, serva e esposa de Jesus Cristo, na alegria e na beleza de caminhar juntos! «Renovai, Senhor, a vossa Igreja de Bragança-Miranda com a luz do Evangelho. Fortalecei o vínculo da unidade entre os pastores e os fiéis do vosso povo, (...) de modo que, num mundo dilacerado pela discórdia, a vossa Igreja resplandeça como sinal profético de unidade e concórdia» (Oração Eucarística V/A). Ao mesmo tempo, sejamos uma Igreja da escuta, da celebração e da partilha! Caminhemos juntos e unidos!

 

+Nuno Almeida

Bispo de Bragança-Miranda

 

Siglas Utilizadas para designar os documentos do Magistério

ChV – Christus vivit (Cristo vive) é a Quarta Exortação Apostólica Pós-sinodal do Papa Francisco (25 de março de 2019).

DCE – Deus Caritas Est (Deus é amor), é a primeira Encíclica do Papa Bento XVI (25 de dezembro de 2005).

DV – Constituição Dogmática Dei verbum sobre a Revelação Divina do Concílio do Vaticano II (18 de novembro de 1965).

EG – Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho) é a primeira Exortação Apostólica pós-Sinodal escrita pelo Papa Francisco (24 de novembro de 2013).

EN – Evangelii Nuntiandi, Exortação Apostólica do Papa Paulo VI (08 de dezembro de 1975.

GS – Constituição Dogmática Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo actual do Concílio do Vaticano II (7 de dezembro de 1965).

LG – Constituição Dogmática Lumen gentium sobre a Igreja do Concílio do Vaticano II (21 de novembro de 1964).

NMI – Novo millennio ineunte (No início do novo milênio) Carta Apostólica de São João Paulo II (06 de janeiro de 2001).

PO – Decreto Presbyterorum Ordinis sobre o ministério e a vida dos sacerdotes do Concílio do Vaticano II (07 de dezembro de 1965).

SC – Constituição Dogmática Sacrosanctum Concilium sobre a Liturgia do Concílio do Vaticano II (04 de dezembro de 1963).