SN Liturgia publica «A Santa Missa / Comentário espiritual da celebração» de Anna Maria Cànopi | Diocese Bragança-Miranda

Apresentação deste livro é da autoria da Ir. Maria Augusta Tescari, do Mosteiro Trapista de Santa Maria, Mãe da Igreja, em Palaçoulo, Miranda do Douro.

Livro está disponível em todas as livrarias religiosas de Portugal. Em Bragança-Miranda encontra-se na Casa de Paramentaria Santa Clara, em Bragança.

Nos anos 303-304, o imperador Diocleciano desencadeou uma perseguição por todo o Império, ordenando aos cristãos que entregassem os textos da Escritura e proibindo as celebrações e as reuniões sagradas. Os cristãos de Abitínia, na atual Tunísia, violaram os decretos do imperador ao celebrar ilegalmente a Missa dominical. Presos, defenderam-se dizendo: “Sine dominico non possumus”, ou seja, ‘não podemos viver sem celebrar o dia do Senhor’. Os mártires de Abitínia compreenderam perfeitamente que a Missa é a própria essência do ser cristão e, portanto, não podiam deixar de celebrar a Páscoa semanal.

Na verdade, é o ‘dominicus dies’ que faz o cristão e, por isso, é necessário compreender e viver bem a Missa. Tudo isso foi bem compreendido e vivido por Carlo Acutis, um jovem beato falecido aos 15 anos de leucemia fulminante, que desde criança, apesar de os pais não serem praticantes, nunca deixou de ir à Missa diária, na convicção de que a Eucaristia era – como ele dizia – “a minha autoestrada para o céu”. A mesma experiência tinha sido feita pelo cofundador da comunidade de Taizé, o pastor protestante Max Thurian, que se tornara padre católico para poder celebrar diariamente a Missa, porque a centralidade da celebração da Palavra e do Sacramento tornou-se evidente para ele. Ao longo da história bimilenária da Igreja não há vida de santo que não testemunhe a compreensão profunda da Missa, continuada na vida quotidiana.

«A liturgia, pela qual, especialmente no sacrifício eucarístico, “se opera o fruto da nossa Redenção”, contribui em sumo grau para que os fiéis exprimam na vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos» (Sacrosanctum Concilium, 2).

A Missa é a fonte, o centro e o ápice da missão da Igreja e de cada vida cristã. Quem participa conscientemente na Missa tem uma experiência vital de oração, de perdão recebido e oferecido, de escuta da Escritura e de verdadeira comunhão com Deus.

Na Missa, a ligação entre Escritura, liturgia e vida é muito profunda e a Madre Cànopi tenta explicá-la antes de tudo às suas monjas, para que a possam apreender e para que possam vivê-la em toda a sua integridade e beleza. De facto, não esqueçamos que, originalmente, essas conferências explicativas eram dirigidas às irmãs do mosteiro Mater Ecclesiae da ilha de San Giulio, como parte do ensino normal que a abadessa de um mosteiro beneditino dirige às suas irmãs. Só mais tarde elas foram reunidas e publicadas em livro, para que todos os cristãos pudessem beneficiar delas.

Nos mosteiros femininos, efetivamente, era um costume bem estabelecido dedicar uma parte da lectio diária à preparação e ao aprofundamento da Missa do dia seguinte. Não só as monjas liam com muito cuidado as Leituras bíblicas, ligando-as ao seu contexto, mas também o Salmo responsorial, a Oração Coleta, a Oração sobre as  Oblatas, a Oração depois da Comunhão e os Prefácios dos Tempos fortes, na convicção de que uma preparação cuidadosa ajudaria a colher frutos da Missa de uma forma mais participativa e profunda, correspondendo assim melhor à graça de cada dia, graça totalmente gratuita, que recebemos da misericórdia de Deus sem nenhum mérito próprio e que há de derramar-se na existência vivida para a encher de significado e alegria.

A Madre Cànopi dá-nos um exemplo significativo disso não só com este livro que nos ajuda a compreender e a viver bem a Missa, mas com toda a sua vida doada a Deus, às irmãs e à Igreja. A “sua” Missa, enxertada e continuada na morte e na ressurreição de Cristo, é a demonstração evidente do sacrifício eucarístico celebrado, compreendido e vivido.

O grande mérito de Madre Cànopi é ter explicado neste pequeno livro, de forma clara, simples e atraente, holística e, eu diria, sinfónica, todos os valores e aspectos da Missa, não se limitando aos grandes temas do sacrifício e do banquete, das duas mesas do Pão e da Palavra, que embora fundamentais, verdadeiramente, não esgotam o imenso significado da Missa.

A Madre Cànopi, apresentando-nos com exatidão teológica as várias partes da Missa da sóbria Liturgia Romana, não faz um tratado doutrinal, mas no seu comentário espiritual comunica-nos uma experiência, que é a sua própria experiência, na qual nos convida a entrar, e que ilustra com referências adequadas e contínuas a textos bíblicos, patrísticos e a autores modernos.

Entramos na grande liturgia da Missa com a convocação do sacerdote e a saudação de abertura. Colocamo-nos na posição certa de pecadores e mendigos com o ato penitencial, que é muito importante, mas ao qual o hábito e a frequência das celebrações impedem muitas vezes de prestar a devida atenção. 

Aos domingos e dias de festa e nas celebrações especiais, louvamos a Deus com o Glória.
Ouvimos a Palavra de Deus nas leituras bíblicas e na homilia que lhes faz o comentário. 
Professamos a nossa fé no Credo e na oração dos fiéis rezamos pela Igreja, pelo mundo e por nós.  
No Ofertório, oferecemos a Deus nós próprios e as nossas coisas.

Entramos depois na Oração eucarística com toda a rica série de prefácios e juntamo-nos aos anjos e aos santos da Jerusalém celeste cantando o três vezes Santo.

Assim preparados, entramos finalmente no momento central da Missa que é a oração consecratória do sacerdote, à qual a assembleia responde com o silêncio, a adoração e por fim com a aclamação. A Madre Cànopi comenta o Cânon romano, que lhe era mais familiar, mas todas as outras Orações eucarísticas, introduzidas depois do Concílio, mereceriam um exame minucioso e um comentário espiritual adequado.

A grande doxologia final da oração eucarística, a recitação do Pai Nosso e a troca da paz preparam-nos para receber, sacramentalmente, o Corpo de Cristo.

Com os ritos conclusivos, a bênção e a fórmula de despedida do celebrante, termina a muito simples e grandiosa liturgia da Missa, que vamos continuar a viver nas ocupações e nas relações do dia ou da semana.

A Madre Cànopi também explica a importância de posições e gestos que, junto com ações e palavras sagradas têm, pelo menos na nossa cultura latina, um significado particularmente sugestivo.

Se não apenas ‘ouvimos a Missa’ ou ‘assistimos à Missa’, mas a ‘vivemos’ em profundidade, também nós podemos experimentar a verdade daquelas palavras dos mártires de Abitínia: “Sine dominico non possumus vivere”.

«Sempre que no altar se celebra o sacrifício da cruz, na qual “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado” (1Cor 5,7), realiza-se também a obra da nossa redenção. Pelo sacramento do pão eucarístico, ao mesmo tempo é representada e realiza-se a unidade dos fiéis, que constituem um só corpo em Cristo (cf. 1Cor 10,17). Todos os homens são chamados a esta união com Cristo, luz do mundo, do qual vimos, por quem vivemos e para o qual caminhamos» (Lumen Gentium, 3).

Ir. Maria Augusta Tescari
Mosteiro Trapista de Santa Maria, Mãe da Igreja

 

Anna Maria Canopi (1931-2019) licenciou-se em Letras na Universidade Católica de Milão e depois ingressou na abadia beneditina de Viboldone. Em 1973, por ordem do seu Padre espiritual, o Bispo de Novara, Aldo Del Monte, fundou o mosteiro Mater Ecclesiae na ilha de San Giulio no Lago de Orta (na província de Novara-Piemonte), do qual foi abadessa até o ano 2018.

Escritora fecunda e patróloga experiente, publicou vários livros sobre a história do monaquismo e da espiritualidade cristã. Colaborou na edição da Bíblia da Conferência Episcopal Italiana, no Catecismo da Igreja Católica e preparou, a pedido de São João Paulo II, o texto da Via Crucis para o Coliseu em 1993. Exerceu um fecundo ministério espiritual, atraindo muitas vocações para a sua abadia, fundando ou ajudando outros mosteiros e sendo uma referência segura para o monaquismo e para a Igreja em Itália.