Senhora das Graças - Homilia de D. António Montes Moreira | Diocese Bragança-Miranda

1. Neste dia da oitava da solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria a festa litúrgica de Nossa Senhora Rainha, invocada em Bragança como Senhora das Graças, continua a celebrar a Mãe de Jesus Cristo, nosso Senhor, glorificada nos céus em corpo e alma.

Nossa Senhora Rainha - Nossa Senhora das Graças, dois títulos complementares da Virgem  Santa Maria. Rainha porque elevada à bem-aventurança junto  de seu Filho, Jesus, aclamado no Apocalipse como Rei do Universo (LG, 59), e Senhora das Graças porque, em união e na dependência de Cristo, continua a obter-nos os dons da salvação eterna (LG, 62) na nossa caminhada de peregrinos no tempo presente.

2. As leituras proclamadas nesta Eucaristia iluminam e esclarecem a função intercessora e maternal de Maria.

A primeira leitura (Is 9,1-6) é também a primeira da missa da meia-noite de Natal. A grande luz avistada pelo povo que andava nas trevas, como refere em estilo jubiloso a visão profética de Isaías, foi o próprio Cristo, o Menino nascido da Virgem em Belém. Esta foi a primeira graça, a graça primordial, que recebemos por Maria. É sua missão permanente dar-nos Jesus. Por sua vez, a nossa devoção à Virgem deve conduzir-nos sempre a Cristo.

A segunda leitura (Gal 4, 4-7), tirada da carta de S. Paulo aos cristãos da província romana da Galácia, na Turquia de hoje, prolonga e aprofunda a mensagem da primeira leitura. Em Jesus tomamo-nos filhos de Deus. S. Paulo, que escreve em grego (a língua veicular do seu tempo na área do Mediterrâneo oriental), recorre  ao diminutivo «Abbá», em aramaico, a língua falada por Jesus, para exprimir mais intensamente  esta  certeza  da  fé  cristã. «Abbá»  deriva  de  «Ah»  (pai)  e  significa «paizinho» . O Apóstolo exclama embevecido: «Abbá! Paizinho!» Por isso acrescenta: «Já não somos escravos, mas filhos» (Gal 4. 67).

Estamos nós bem conscientes da responsabilidade e da dignidade de sermos filhos de Deus, de vivermos como filhos de Deus? Como seria diferente, para melhor, a nossa vida cristã se vivêssemos sempre como filhos de Deus, cumprindo a sua vontade!

Para isso devemos imitar a fé e a obediência de Maria, bem manifesta no Evangelho que foi lido, o da Anunciação (Lc 1, 26-38). «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38), foi esta a resposta da Virgem à mensagem do Anjo - resposta e atitude permanente ao longo da sua vida.

O Concílio Vaticano II anota a este propósito: «Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens» (LG, 56). E acrescenta:«Assim avançou a Virgem na peregrinação da fé, mantendo fielmente a união com seu Filho até à cruz» (LG, 58).

3. Caros irmãos.

Depois da interrupção causada pela pandemia, congregamo-nos de novo no solar da Padroeira de Bragança para exaltar as suas glórias e para agradecer e recorrer à sua intercessão maternal.

Como adverte ainda o Concílio Vaticano II, a nossa devoção à Virgem Santa Maria «não consiste numa emoção estéril e passageira» (LG, 67), nem pode limitar-se à veneração, amor e invocação da Senhora; deve ser confirmada pela imitação das suas virtudes (cf. LG  66), da sua atitude  fundamental e permanente de acolhimento e cumprimento da vontade de Deus na nossa vida. Veneração sem imitação soa a oco e a vaz10.

Assim sendo, os nossos pedidos a Maria e aos Santos devem situar-se na linha da aceitação da vontade de Deus a nosso respeito. Deus sabe melhor que nós próprios o que é melhor para nós. A oração leva-nos a sintonizar com a vontade de Deus. Deste modo, os verdadeiros milagres consistem, não em que Deus faça a vontade dos homens, mas em que os homens cumpram a vontade de Deus.

É este o convite que também hoje a Senhora nos dirige. Como nas bodas de Caná da Galileia, Maria pede-nos:«Fazei o que meu Filho vos disser» (Jo 2,5).

A graça maior que recebemos da Virgem foi Jesus. Agora a sua missão maternal para connosco é conduzir-nos a Cristo, levando-nos a viver de acordo com a Sua vontade.

É esta a graça que lhe vamos pedir com insistência.

Nossa Senhora das Graças, rogai por nós!

 

Bragança, 22 de agosto de 2022

+António Montes Moreira, OFM

Bispo emérito de Bragança-Miranda

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Fotografia: BLR/SDCS

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