«A palavra, entre o ruído e a verdade» | Opinião de Jorge Novo | Diocese Bragança-Miranda

Vivemos num tempo estranho pois nunca se escreveu tanto e, contudo,  raramente a palavra, como hoje, esteve tão fragilizada.

A advertência do Papa Leão sobre o “enfraquecimento da palavra” num discurso ao corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé, toca precisamente neste ponto sensível da cultura hodierna.

Em nome da liberdade de expressão, que tanto se invoca, acrescentava o Santo Padre, quem fala e quem escreve está a correr o risco de esvaziar a própria palavra daquilo que a deve fundamentar: a verdade, a responsabilidade e a honestidade.

Abordou também o que Santo Agostinho, já no seu tempo e a propósito, referiu como a inopia loquendi, ou seja, a reflexão de que falar e escrever exigem humildade e atenção ao real, igualmente ao transcendente e divino. Uma atitude de reconhecimento dos limites da linguagem na qual, as palavras, como mediações frágeis do pensamento e como aproximações à realidade, devem ser usadas com mais cuidado, não com menos.

Hoje, também entre nós, estas ideias merecem ser levadas a sério. Precisamos, para isso, de mais consciência e afastamento do relativismo, aproximando-nos cada vez mais da responsabilidade do uso da palavra. Neste sentido, mais que um problema linguístico se trata, sobretudo, de um problema  humano e ético.

É um problema e, já agora, um desafio, nesta cultura da velocidade em que vivemos atualmente, das redes sociais, da comunicação permanente e até da imprensa sensacionalista. Por isso, precisamos que a palavra seja menos instrumentalizada a fim de provocar impacto, gerar visibilidade, conquistar seguidores ou impor narrativas e fique mais vinculada, lá está, com o que atrás se referia, mais ligada à verdade, à responsabilidade e à honestidade.

Trata-se de arrepiar caminho a uma lógica do sucesso imediato e da exposição permanente que o filósofo Gilles Lipovetsky dizia ser uma das marcas da “hipermodernidade”, em que, a seu ver, se assiste ao comunicar sem densidade e correspondência com a verdade objetiva e vivida, na fidelidade ao real e com a preocupação pelo bem que constrói.

Quando a palavra perde critério e verdade transforma-se em ruído, alertava Umberto Eco, já há mais de uma década, pois quando tudo pode ser dito sem consequência, a palavra perde peso e credibilidade.

Daí a urgência de reafirmar a ética da palavra, pois falar e escrever não são atos neutros e criam vínculos, ferem ou curam, esclarecem ou confundem.

Da infância recordo uma frase que a minha professora me ensinou e que tendo a não esquecer “palavras fora da boca são pedras fora da mão, pensa primeiro palavras que saiam do teu coração”. Assim, de simples, para ensinar que uma palavra usada sem verdade pode tornar-se arma e uma palavra ancorada na bondade e honestidade pode tornar-se amizade e serviço.

Acredito que educar para o valor da palavra é, hoje, essencial e decisivo, na escola, na família, na Igreja e nos meios de comunicação social.

Não se trata de coartar a liberdade de expressão, mas de a enraizar na verdade, de fugir aos soundbytes e aplausos pelos aplausos, da crítica pela crítica, tornando-a mais acorde com a verdade e respeitadora da dignidade humana.

Num mundo saturado de discursos, notícias e textos, talvez este seja também outro exemplo de atos de coragem.

Jorge Oliveira Novo
Diretor do Secretariado da Pastoral Familiar da Diocese de Bragança-Miranda