Missão Moncorvo 2026: As coisas grandes que o Senhor fez (e faz) em Torre de Moncorvo | Diocese Bragança-Miranda

Entre os dias 13 e 16 de fevereiro, estivemos com os Universitários do Movimento Comunhão e Libertação em Torre de Moncorvo no contexto de uns dias onde procurámos estar próximos da comunidade local, aprofundando a relação com as pessoas com quem já nos cruzámos e a quem temos o privilégio de chamar amigos e aproveitando para estabelecer novos laços de amizade. Com efeito, não foi nem a primeira nem a segunda vez que nos encontrámos em terras transmontanas, pelo que a relação com algumas pessoas – em particular com alguns jovens – pode mesmo já ser considerada de amizade. No entanto, se procuro ser leal à forma como toda esta história se começou a desenrolar com a comunidade de Moncorvo, devo notar (embora nunca o conseguindo fazer com a devida justiça) que a sua pedra angular é o Padre Sérgio Pêra, que inicialmente (e ainda hoje) nos acolheu e nos deu a conhecer as riquezas da sua terra.

Em poucas (e significativas, espero) palavras, tento fazer um retrato geral de uns belos dias passados no norte do país.

A sexta-feira, dia 13, foi o dia dedicado à escola, e, por isso, ali estivemos todo o dia. Como já é seu apanágio, a Escola Dr. Ramiro Salgado, na pessoa do diretor e de todos os seus professores e funcionários, recebeu-nos indescritivelmente bem. O início da manhã foi vivido dentro dos corredores e das salas de aula, procurando encontrar alunos e professores e estabelecer um diálogo com eles. Dividimo-nos em pequenos grupos e cada um destes se dedicou a uma turma em particular. Foi uma boa ocasião para rever amigos dos anos passados e conhecer tantas outras caras novas, antes de os podermos convidar a passar alguns momentos dos restantes dias connosco.

Ora, um dos mais marcantes momentos deu-se ainda nessa manhã, pelas 11h30, aquando da chegada de Fernando Santos à escola. O engenheiro, ex-selecionador nacional de futebol, mostrou uma disponibilidade impressionante e aceitou o nosso convite para falar às pessoas de Torre de Moncorvo, em particular àquelas que se enquadram no universo escolar. O tema, porém, pode não ter sido o mais esperado: debruçou-se sobre a sua própria vida e sobre o lugar central que a sua fé ocupa. O encontro, que durou cerca de uma hora e que abriu espaço a perguntas da audiência, foi uma verdadeira oportunidade para fazer memória de que “Deus nunca nos deixa, mesmo quando nós nos queremos afastar”, como nos dizia Fernando Santos. Relembrando que não há uma separação entre Deus e o resto da vida, ajudou todos os que o ouviram, talvez em particular os alunos e certamente o nosso grupo, a crescer na certeza de que a vida muda e ganha uma positividade quando se encontra Cristo, como respondeu ao aluno que lho perguntou. Agradecemos muito a sua disponibilidade, mas acima de tudo agradecemos o seu “sim” a Cristo. Depois de um almoço na cantina da escola, proporcionámos uma divertida tarde de jogos com os alunos da escola, que terminou com um lanche para quem se quis juntar e onde foram audíveis várias boas conversas sobre o dia passado em conjunto.

O dia de sábado começou com outro gesto muito bonito: uma visita às casas das pessoas, na tentativa de conversar com elas, de as conhecer e ainda de as convidar para virem ter connosco no dia seguinte. Mais uma vez, dividimo-nos em grupos e procurámos espalhar-nos pela vila. Os encontros feitos e as pessoas conhecidas ajudaram a que nos sentíssemos ainda mais dentro da história de Moncorvo. A tarde, por seu lado, desenrolou-se no campo de futebol do GDM, onde organizámos um torneio de futebol aberto à participação de todos os jovens. Enquanto os rapazes lutavam dentro de campo pela vitória, numa relação que continuou após o final do jogo durante o lanche partilhado, as raparigas aproveitavam para conversar e cantar algumas músicas, cantoria a que nos juntámos no final da partida.

A manhã de domingo, como também já é habitual, foi passada na catequese, antes da Missa das 11h na Basílica. Divididos em dois grupos, um com os mais novos e outro com os mais velhos, preparámos atividades diferentes. Os mais pequenos falaram sobre o coração do homem, socorreram-se do Ícaro de Matisse, cantaram e fizeram ainda uma caça ao tesouro. Os mais crescidos, por seu lado, fizeram um kahoot com perguntas sobre a Quaresma. Se ambos os momentos foram também divertidos, o mais impressionante foi perceber como todos queriam (com também nós queremos) perceber o que faz o coração crescer, o que provoca, como se viu no grupo dos mais velhos, um desejo de conhecer a história de Jesus, em particular neste tempo do ano.

A tarde de domingo contou com outro dos momentos centrais do programa destes dias: a tarde de cantos, um momento musical aberto ao público em geral, organizado em colaboração com a Santa Casa da Misericórdia, que muito amavelmente nos cedeu o espaço, e com a Câmara Municipal, que divulgou o “concerto” nas redes sociais. Penso que a beleza dos cantos, das vozes e dos instrumentos aliada à beleza da própria Igreja da Misericórdia fez deste um momento onde, a espaços, nos sentimos a tocar algo mais, a experimentar uma plenitude, como nos recordava o Padre Sérgio. Ou como dizia uma das músicas mais apreciadas pelo público: “Thanks be to God, the morning light appears” [Graças sejam dadas a Deus, a luz da manhã já surge].

A simplicidade do último dia, segunda-feira, foi confirmadora da grandeza dos dias que ali passámos, por sublinhar que aquilo que vivemos e Aquele que vimos acontecer pode continuar agora em Lisboa. De manhã, dividimo-nos entre a Fundação Francisco Meireles e o centro de dia CLDS para visitarmos aqueles que em Torre de Moncorvo vivem ou passam os seus dias em lares. Entre conversas com as pessoas e músicas – sobretudo tradicionais – cantadas em conjunto, foi uma belíssima ocasião para recordarmos que todos desejamos o mesmo: amar e ser amados. Que alguém olhe para mim, se demore comigo, cante comigo ou para mim, como pudemos oferecer nos lares, fez-nos perceber que há uma estranha (mas verdadeira!) correspondência no darmo-nos ao outro, bem como o facto de que não somos diferentes das pessoas que encontrámos, porque também nós desejamos que alguém tenha essa atenção connosco. De alguma forma, experimentámos isso nessa mesma tarde, através do professor Nelson Rebanda, que num grande gesto de acolhimento e de amizade aceitou mostrar-nos e contar-nos a história da Ermida de Nossa Senhora da Teixeira, a Capela Sistina de Moncorvo.

Permito-me terminar com o que nos contavam dois amigos do nosso grupo num pequeno encontro que fizemos no último dia. Um deles afirmou que o que ali viveu connosco foi uma forma de voltar a ganhar esperança e confiança no futuro, quando isso já não lhe parecia possível. O outro dizia que o Senhor está mesmo a fazer coisas grandes entre nós. Eu volto com a certeza de que a estrada que vi abrir-se à minha frente depois destes dias é uma estrada que não quero largar, porque é para abraçar tudo e para toda a vida.

Frederico Meira