Homilia de D. Nuno Almeida no Dia Diocesano do Consagrado | Diocese Bragança-Miranda

Torre de Moncorvo, 08.02.2026, 11.00h

Queridos consagrados e consagradas!

Irmãos e Irmãs!

 

1.Jesus olha para nós, aqui reunidos à Sua volta. E diz-nos quem somos e o que espera de nós! «Vós sois o sal da terra; vós sois a luz do mundo». Parece-nos um exagero! Mas Jesus acredita em nós. Mesmo pequenos e pobres, podemos transformar a Terra e iluminar o mundo! Chamados a ser sal da terra, reconhecemos que muitas vezes perdemos o gosto e a alegria de sermos cristãos. Chamados a ser luz do mundo, nós reconhecemos que muitas vezes esta luz não irradia, mas se esconde ou se apaga.

Neste saboroso e luminoso o convite Jesus pede a cada um de nós, queridos consagrados e consagradas, irmãos e irmãs, uma atitude em 3 Ds: Disponibilidade para procurar a vida em plenitude, decisão de se deixar acompanhar por Cristo Vivo; diferença que se experimenta na fidelidade ao Evangelho.

 

2.Usamos muito a imagem da luz, para falar da alegria da nossa fé e da nossa missão. E é com alegria, que voltamos a ouvir Jesus dizer-nos: Vós sois a luz do mundo! Sois uma luz para o mundo! 

Hoje prestemos também atenção noutra imagem, a do sal! «Vós sois o sal da terra», diz-nos Jesus. Para compreendermos melhor o evangelho deste domingo, recordemos a importância que tinha o sal no mundo antigo. Nos ouvidos dos ouvintes de Jesus esta imagem despertava, certamente, grande entusiasmo, que tanto nos falta, hoje (não havia arcas frigoríficas): Para além de servir de condimento, de dar gosto e sabor às coisas da Vida, no mundo antigo:

  • É o sal, que serve de condimento; dá gosto e sabor às coisas da Vida.
  • É o sal, que purifica, eliminando as impurezas;
  • É o sal, que conserva os alimentos;
  • É o sal, que preserva da corrupção;
  • É o sal, que cura as feridas mais profundas;
  • É o sal, que sela os compromissos mais solenes!
  • O sal tinha muito valor, era uma grande riqueza. Chegou a ser moeda de troca e de pagamento. Ainda hoje, dizemos “salário”…!

 

3.Que têm de comum as duas imagens do «sal» e da «luz»? Se a luz ou o sal permanecerem fechados não servem para nada. O sal e a luz têm isto em comum: são para os outros. O sal não se tempera a si mesmo e a luz não se ilumina a si própria. Assim, fica claro: um cristão, ou uma Igreja, isolada do mundo, que quer ser do céu sem pisar a Terra, não pode ser, nem sal da terra, nem luz do mundo. É na terra e no mundo, que o cristão deve ser sal e luz. Como vimos e ouvimos, tantas vezes, ao longo destes dias, na sequência da tempestade Kristine, o que é preciso é ir ao terreno, entrar na terra e no mundo das pessoas, que precisam de cristãos «todo-o-terreno», para curar a dor das feridas com o bálsamo do amor, depois da tempestade!

Assim, fica claro: Um cristão, uma família, uma comunidade, um movimento, uma paróquia, uma diocese, fechados em si mesmos à maneira de um submarino que nada dá e nada recebe, isolados do mundo, não podem ser nem sal nem luz. O Papa Francisco, e agora o Papa Leão alertam que a Igreja vive hoje muito curvada e fechada em si mesma, paralisada por medos, demasiado alheada dos problemas e sofrimentos, quando devia estar no meio do mundo, pronta a dar sabor à vida atual e para lhe oferecer a luz genuína do evangelho. Há que sair para as periferias, dizia o Papa Francisco: “cada cristão e cada comunidade há de descobrir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamamento: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (EG 20). E o Papa insiste uma e outra vez: “Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos, que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida” (EG 49).

 

4.Se nos fechamos, caímos numa vida insonsa e de pilhas gastas. O Senhor diz-nos “vós sois luz e sal!” Sim, um vós plural, como família e comunidade, fora dos umbigos egoístas. Porque a luz nasce dos encontros e vive da beleza da comunhão.

É tarefa do cristão fazer resplandecer a luz de Cristo, não a minha luz, não a minha foto de propaganda, mas a luz de Jesus! A irradiação desta luz pode advir das nossas palavras, mas deve brotar principalmente das nossas «boas obras». Como levar hoje esta luz de Cristo às populações afetadas pela tempestade Kristin? A palavra de Isaías não podia ser mais prática e oportuna: “Reparte o teu pão com o faminto, dá pousada aos pobres sem abrigo, leva a roupa a quem viste andar despido e não voltes as costas ao teu semelhante. Então, a tua luz despontará como a aurora, e as tuas chagas não tardarão a sarar (…)” (Is 58, 7-10). Acende-se uma luz de esperança e de presença, no meio da tempestade, com esta onda de solidariedade, com numerosos voluntários, inclusive crianças e idosos, a procederem à limpeza dos destroços nas ruas e a darem apoio nos armazéns na distribuição de bens essenciais. Tocados por todos os gestos de magnanimidade, ajudemos, da forma que nos for possível, como gostaríamos de ser ajudados! 

 

5.Há que elevar um canto de amor à comunidade, a uma vida comunitária talvez hoje mais frágil e, por esta razão, mais humana. A vida comunitária quase sempre incrementa as qualidades humanas de um ou de uma jovem, fá-las florescer, desbrochar e levar os primeiros frutos saborosíssimos, as primícias da vida. Poucas coisas na terra são mais belas e puras do que um ou uma jovem apaixonados por um carisma, no qual se reconhece e ao qual confia todo o seu presente e futuro. Assim aconteceu, certamente, com todos nós!

Que cada um de nós, como consagrado, nunca se esqueças do tempo do primeiro amor, quando o nosso coração ouviu palavras diferentes e eternas, os olhos viram um outro olhar. Nunca nos esqueçamos da primeira aliança, daquela grande promessa. Nunca nos esqueçamos de que no início de uma vida de consagração houve realmente algo de maravilhoso. Houve o chamamento amoroso de Cristo e  uma jovem, um jovem, que no esplendor dos seus anos escutou, acreditou e foi atrás de um sim incondicional, um sim maior como o de Maria. No início houve algo de maravilhoso, uma beleza, uma gratuidade e uma generosidade infinitas. E se existia no início, existe para sempre! Nenhuma deceção, nenhuma dor, nada no mundo pode apagar esta infinita beleza-gratuidade-generosidade!

Atualmente, no território da Diocese de Bragança-Miranda estão presentes: as Irmãs da Caridade do Sagrado Coração de Jesus; as Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado; as Carmelitas da Antiga Observância; a Sociedade Salesiana de S. João Bosco; os Padres Marianos da Imaculada Conceição, as Monjas Trapistas de Santa Maria, Mãe da Igreja, as Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, e os Franciscanos Capuchinhos através da Fraternidade Itinerante de Presença e Apostolado.

 

 

 

Um grande e sentido obrigado a cada consagrado e consagrada da nossa Diocese.

Um grande bem-haja ao Senhor por cada carisma e comunidade presente e atuante na nossa Igreja.

Senhor, mistério que dá sabor à nossa vida, e conserva em nós a vontade de amar,

 toma o sal frágil, que depositaste em nosso ser,

e lança-o... lança-nos para o campo que é Teu.

Senhor, fascínio de cor que afasta a nossa escuridão

e abre horizontes no nosso caminho de busca,

toma a pequena chama, que acendeste em nosso ser

e levanta-a... levanta-nos na “casa” que é a Tua.

Que saibamos desassossegar com a Tua Palavra, que eu alumiemos com o brilho do Teu amor em nós!

Consagrados para servir e amar! Amen!

 

+Nuno Almeida

Bispo de Bragança-Miranda