Homilia de D. Nuno Almeida na Epifania do Senhor | Diocese Bragança-Miranda

EPIFANIA DO SENHOR

Festa do Menino Jesus da Cartolinha

Concatedral de Miranda do Douro, 04.01.2026, 11.00h

Homilia

 

Queridos meninos e meninas! Estimados irmãos e irmãs!

1.Isaías anuncia a chegada da luz a Jerusalém (Cf. I Is 60, 1-6). Esta luz é o Messias e o Messias é Jesus. Quando esta luz chegar, Jerusalém exultará de alegria, “ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração”.

Paulo esclarece que a revelação de Deus não é exclusiva de alguns (Cf. Ef 3, 2-3a.5-6). Assim, a graça que ele recebeu e que o levou ao conhecimento de Cristo não é só para seu benefício, mas para ser oferecida a todos.

Os Magos do Evangelho, narrado por Mateus, deixam o seu comodismo (Cf. Mt 2, 1-12). Habituados a olhar o céu e a meditar sobre os porquês pretendem uma resposta para aquela luz que se ergue nos céus. E deixam tudo para cruzar os caminhos da vida até encontrar Aquele que pode responder a todas as perguntas. Pelo caminho encontram homens sábios que leem as escrituras, conhecem as profecias e sabem explicar os desígnios de Deus, mas preferem continuar comodamente na escuridão da sua importância. Os Magos, porém, não se deixam seduzir apenas pelo conhecimento dos sábios de Jerusalém, querem chegar à raiz, à fonte, à verdadeira luz e, encontrando um menino recém-nascido, sem medo adoram-no. Os Magos sabem acolher as surpresas, perseverar na busca e partir sempre que é necessário.

 

2.Permitam-me que adapte e partilhe convosco uma parábola de D. António Couto, Bispo de Lamego.

Era uma vez milhões e milhões de estrelas de todas as cores, espalhadas pelo céu. Um dia foram à procura de Deus, Senhor de todo o universo, e disseram-lhe: «Senhor, gostaríamos de viver na terra, no meio dos homens». «Seja como quereis», respondeu Deus. «Podeis descer à terra. Conservar-vos-ei pequeninas, como sois vistas pelos homens».

Conta-se que, naquela noite, houve uma deslumbrante chuva de estrelas. Acoitaram-se umas nas montanhas, enquanto outras se instalaram no meio dos brinquedos das crianças. Certo é que a terra ficou maravilhosamente iluminada.

Algum tempo depois, porém, as estrelas resolveram abandonar a terra, e voltaram para o céu. A terra ficou outra vez escura e triste. «Por que voltastes?», perguntou Deus. Então as estrelas responderam: «Senhor, não aguentámos permanecer no meio de tantas guerra - como na Ucrânia, em Gaza e em tantos países- da miséria, da violência, da fome, da doença e morte». Ao que Deus terá retorquido: «Tendes razão, estais melhor aqui no céu, em que tudo é sossego e perfeição, ao contrário da terra em que tudo é transitório e mortal».

Depois de todas as estrelas se terem apresentado e de ter conferido o seu número, Deus anotou: «Mas falta aqui uma estrela; ter-se-á perdido no caminho?» Ao que um anjo, que estava por perto, respondeu: «Houve uma estrela que resolveu ficar na terra, porque pensa que o seu lugar é exatamente no meio da imperfeição, onde as coisas não correm bem». «Mas que estrela é essa?», perguntou novamente Deus. O anjo respondeu: «Essa estrela é verde, é a estrela da esperança».

A esperança, diz a tradição hebraica, é o único sentimento que o ser humano possui, e Deus não, porque, conhecendo o futuro, Deus já não espera. A esperança é própria do ser humano, que é imperfeito, que erra e que não sabe como será o dia de amanhã.

Foi a estrela da esperança que guiou os Magos até ao Presépio de Belém. Que a luz da Estrela da Esperança dissipe em nós todas as trevas!

 

3.Os Magos e, segundo a lenda, o Menino Jesus Cartolinha ensinam-nos a acolher as surpresas de Deus, a perseverar no caminho e na luta e a partir sempre.

A lenda do Menino Jesus da Cartolinha remete para o ano de 1711, ano em que decorria a Guerra de Sucessão Espanhola. O Exército castelhano invadiu e sitiou Miranda do Douro.

Quando Miranda do Douro se encontrava invadida, saqueada e vexada pelos castelhanos e sem esperança de remissão, esperando o reforço das nossas tropas que nunca mais chegava, aparece nas muralhas um Menino vestido de fidalgo cavaleiro chamando os mirandeses, incentivando e gritando às armas, contra o inimigo invasor. De todas as casas sai gente armada de foices, gadanhas, espingardas e varapaus para escorraçar os espanhóis.

Os mirandeses consideraram esta aparição como um autêntico milagre, assim como de milagre se tratara a vitória contra os espanhóis, sendo uma graça concedida pelo Menino Cavaleiro.

Mandaram então esculpir esta imagem do Menino Jesus vestido de fidalgo cavaleiro, que aqui está à nossa frente e será levada, com muito amor pelos meninos e meninas, em procissão.

Têm razão os mirandeses que têm tanto amor ao seu “Menino Jesus da Cartolinha” que ainda hoje exclamam nos momentos de grande aflição “Ai, Meu Menino! Ai Meu Menino!”.

 

4.Contemplamos os Magos em adoração no Presépio de Belém. Olhamos para o corajoso Menino Jesus da Cartolinha! Com eles aprendemos a celebrar a Epifania, dilatando a mente e o coração: sempre disponíveis para acolher, perseverar e partir! Aprendamos dos Magos e do Menino a cultivar a coragem e a semear a esperança. Quando um simples gesto restabelece uma relação; quando uma simples palavra confessa ou perdoa um erro; quando a bondade ilumina um rosto de quem se esperaria desprezo; quando se aceita falar, em vez de se entrincheirar no mutismo [ou indiferença, o contrário mais frequente do amor]; quando se ‘recomeça’ apesar dos fracassos; quando se luta contra a injustiça; quando se assumem, mesmo com dificuldade, os próprios erros…: são momentos de reconciliação, de participação real na salvação oferecida por Deus a todos, sempre de novo, por Deus em Jesus Cristo, Luz do Mundo; são um modo de dar guarida na nossa humanidade à reconciliação fontal e de renascermos; são sementes de fraternidade e de Esperança. Que nos guie e mova somente a Estrela da Esperança e do Amor!

 

A Estrela não se enganou

quando chamou quem estava longe,

para que se encaminhasse para o Deus,

que lhe está próximo.

 

A Estrela não se enganou,

ao indicar o caminho do deserto,

o mais humilde, o mais difícil.

 

A Estrela não se enganou

quando parou sobre uma casa de gente humilde.

Ali nasceu o grande futuro!

 

O teu coração não se enganou

quando se pôs a caminho, à procura do desconhecido.

 

O teu coração não se enganou

quando não cedeu à vã impaciência.

 

O teu coração não se enganou e não se engana

ao ajoelhar-se diante do Menino! (Klaus Hemmerle)

 

+Nuno Almeida

Bispo de Bragança-Miranda