Homilia de D. Joaquim Mendes na Ordenação Presbiteral de Gregório e Rafael - 02.07.2022 | Diocese Bragança-Miranda

XIV DOMINGO TEMPO COMUM – Ano C

Ordenação Presbiteral de Gregório e Rafael

Igreja São João Bosco – Mirandela, 2 julho 2022

 

1.Saúdo o Senhor Padre Provincial de Portugal e o Senhor Padre Provincial de Timor, os Irmãos Salesianos e demais membros da Família Salesiana.

Saúdo os Familiares dos Diáconos Gregório e Rafael e os seus conterrâneos timorenses aqui presentes.

Saúdo a comunidade paroquial e todos aqueles que se associaram a esta celebração de festa, de alegria pelo dom do ministério presbiteral que os Diáconos Gregório e ao Rafael vou receber, um dom de Deus para a Congregação Salesiana e para a Igreja, nomeadamente aos jovens.

Um dom para a missão, de que nos fala a Palavra de Deus proclamada, apontando três caraterísticas: a alegria, a cruz, e a oração.

 

2. A primeira é a alegria. Uma alegria de consolação.

Na primeira leitura o profeta Isaías dirigindo-se a um povo que atravessou o período difícil de exílio e sofrera uma prova muito dura, anuncia-lhe que chegara o tempo de consolação; o medo, a desolação, a tristeza e o sofrimento devem dar lugar à alegria: «Alegrai-vos (…), exultai (…), enchei-vos de júbilo», porque o Senhor derramará sobre a cidade santa de Jerusalém e seus habitantes um rio de consolação, um rio de ternura materna: «Os seus meninos de peito serão levados ao colo e acariciados sobre os joelhos. Como uma mãe que anima o seu filho, também Eu vos confortarei: em Jerusalém sereis consolados».

Cada cristão, mas sobretudo aqueles que são chamados, consagrados e enviados pelo Senhor em missão, são chamados a ser portadores desta mensagem de esperança, testemunhas da consolação e da ternura de Deus para todos, mas sobretudo para aqueles que vivem um «exílio» de Deus, mergulhados no desânimo e no sofrimento, sem horizontes de vida e de futuro.

Hoje as pessoas têm necessidade não só de palavras, não só que lhes falemos de Deus, mas que lhes testemunhemos a misericórdia e a ternura de Deus, que aquece o coração, desperta a esperança e atrai para o bem.

O Espírito Santo é um Espírito de consolação, que nos faz experimentar a presença consoladora do Senhor e nos dá a missão de consolar os nossos irmãos, de ser sinais, testemunhas e portadores do amor, da consolação e da misericórdia do Senhor no mundo.

Caríssimos Gregório e Rafael,

O salesiano é alguém que experimentou na sua vida a paternidade e a ternura de Deus e a expressa quotidianamente na sua missão, particularmente na sua relação com os jovens. «O seu afeto é o afeto de um pai, irmão e amigo, capaz de criar correspondência de amizade: é a amabilidade salesiana tão recomendada por Dom Bosco» (C 15).

«O salesiano porque anuncia a Boa Nova, vive sempre na alegria. Difunde esta alegria e sabe educar para a felicidade da vida cristã e para o sentido da festa», e faz seu o lema «servir o Senhor em santa alegria» (C 17).

A alegria mais profunda do Salesiano está em revelar a todos as riquezas insondáveis do mistério de Cristo (Cf C 34), que é fonte de vida, de consolação, de alegria e de esperança.

Que o vosso ministério sacerdotal seja marcado por esta alegria e esta consolação de Deus, para todos, nomeadamente para os jovens, de modo que possam experimentar a paternidade de Deus e viver na alegria.

 

2. A segunda característica da missão é a Cruz.

São Paulo, escrevendo aos Gálatas, como escutámos na segunda leitura, diz-lhes: «Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo».

E fala de «estigmas», isto é, de marcas de Jesus crucificado na sua vida e na sua missão, que são sinais da sua identidade de verdadeiro apóstolo do Evangelho.

No seu ministério, Paulo experimentou o sofrimento, a fraqueza, a derrota, mas também a alegria da consolação, isto é, o mistério pascal de Jesus, o mistério consolador da sua morte e ressurreição.

Também os apóstolos de hoje experimentam  na vida e na missão o mistério da cruz, que faz parte da sua identidade de apóstolos de Cristo e servidores do Evangelho, mas como a apóstolo São Paulo, também eles experimentam a alegria da consolação do Senhor e vislumbram, por detrás dos contornos da cruz, a luz e a força da ressurreição, e vão em frente, sem desanimar, nem desfalecer perante as dificuldades.

Caríssimos Gregório e Rafael,

A fecundidade da vida cristã e do ministério sacerdotal, não estão no sucesso humano, não estão nos muitos admiradores e seguidores das redes sociais, nem na popularidade, mas no conformar-se com a lógica da Cruz de Jesus, que é a lógica do amor, do sair de si mesmo do dar-se, da entrega total à missão.

É a Cruz, sempre a Cruz com Cristo, que dá fecundidade à nossa vida cristã, à nossa missão, ao que somos, ao que fazemos e que nos garante a salvação.

Não se trata de uma cruz ornamental, mas da cruz da fidelidade Cristo; da cruz da fidelidade à missão; da cruz da obediência, do sacrifício, do cumprimento do próprio dever, do gastar-se por Cristo, pelo Evangelho, pelos jovens, pela «salvação das almas», - uma expressão muito frequente nos lábios do nosso pai, Dom Bosco -, e que traduz a grande preocupação pastoral do seu ministério sacerdotal, expresso no lema: «Dai-me almas e tomai o resto».

Abraçai com fé e alegria a cruz do ministério sacerdotal, porque «começar a rezar Missa é começar a sofrer», como disse a Mãe Margarida a Dom Bosco e, como o apóstolo São Paulo, procurai gloriar-vos «na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo»,  porque ela é um grande antídoto contra o mundanismo e a autorreferencialidade que minam a fecundidade da vida religiosa e do ministério sacerdotal.

 

3. A terceira característica da missão é a oração.

Escutamos no Evangelho: «Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara». Os trabalhadores do Evangelho de que Jesus fala são os missionários do Reino de Deus, que ele enviara, «dois a dois, adiante de si», para anunciar que «o Reino de Deus está próximo», que em Jesus Deus se aproximou de nós, Deus reina no meio de nós.

Os trabalhadores para a seara não são recrutados através de campanhas publicitárias, de marketing, ou por candidaturas, mas são «escolhidos» e «enviados» por Deus.

É o Senhor quem escolhe, é Ele quem envia, é Ele quem confere a missão, porque a seara é dele. A Igreja é de Cristo.

A Igreja não é dos papas, dos bispos, dos padres ou mesmo dos fiéis, a Igreja é só e unicamente de Cristo.

O chamamento é graça, a missão é graça, brotam, radicam e amadurecem na relação pessoal com Cristo, na escuta da sua Palavra, na oração, na vida fraterna em comunidade.

O chamamento e a missão radicam na oração.

A evangelização, missão de todos os batizados, faz-se, antes de tudo, de joelhos, em união com o Senhor, não por iniciativa pessoal ou por conta própria.

Evangelizamos em nome de Cristo Pastor e Mestre, somos pastores com Ele e em seu nome, por isso a oração e o diálogo com o Senhor são indispensável, não só para nós, mas para todos os batizados, porque todos somos evangelizadores.

Sem oração não seremos cristãos evangelizadores, não seremos cristãos padres, consagrados ou bispos comprometidos com o Senhor e com o Evangelho.

Sem o referimento a Cristo o que fazemos é apenas animação religiosa, que não transforma, não converte, não muda a vida para mudarmos o mundo.

Sem referimento a Cristo não há missão, mas propaganda religiosa.

Precisamos de rezar. Precisamos de olhar para Jesus que se retirava frequentemente para rezar. Recolhia-se em oração intensa e prolongada.

A oração é o «pulmão» que dá fôlego aos discípulos de Jesus.

Sem oração não se pode ser discípulo de Jesus, não se pode ser cristão.

Nenhuma comunidade cristã pode realizar a missão de evangelizar sem a oração perseverante.

Nenhum cristão pode manter-se firme na sua fé, dar testemunho de Jesus, evangelizar, ser «discípulo missionário» sem a oração.

Precisamos de ser cristãos, religiosos, padres e bispos de oração. A oração deve ser a nossa primeira ocupação.

Sem o relacionamento constante com Deus a missão é apenas atividade, uma espécie de ATL religioso, que gera adeptos, simpatizantes da religião, mas não cristãos, discípulos missionários, verdadeiramente comprometidos com Cristo e com o Evangelho.

Caríssimos Gregório e Rafael,

A oração recentra-nos continuamente em Cristo, no seu Reino, no essencial da vida e da missão: «Ciente da exigência de orar sem cessar, o Salesiano cultiva a união com Deus em diálogo simples e cordial com Cristo vivo e com o Pai que sente próximo. Atento à presença do Espírito, e fazendo tudo por amor de Deus, torna-se, como Dom Bosco, contemplativo na ação» (C 12).

A exemplo do nosso pai, Dom Bosco, cultivai o espírito de oração e de união com Deus, sede verdadeiramente contemplativos na ação, para que o vosso ministério seja fecundo e fonte de graça para todos.

Vivei centrados em Cristo e na missão de anúncio do Reino de Deus.

 

4. Jesus enviou os seus discípulos sem «bolsa, nem alforge, nem sandálias», para que vivessem centrados no essencial: no anúncio do Reino de Deus.

Esta centralidade em Cristo e na presença do Reino de Deus entre nós, permite-nos ser cristãos, discípulos livres, alegres, portadores da paz, levando a todos uma mensagem de esperança e consolação, e construindo dia a dia o Reino de Deus, sendo «cordeiros» no meio dos «lobos», simples, mansos e humildes, protegidos pelo poder da Cruz

Caríssimos Gregório e Rafael,

A fonte, o dinamismo e os frutos da missão dependem totalmente da união com Cristo e da força do Espírito Santo.

Jesus disse-o claramente àqueles que escolhera como apóstolos: «sem Mim, nada podeis fazer» (Jo 15,5).

Não lhes disse, «sem mim só podereis fazer pouco», mas «nada podeis fazer».

Podemos fazer tantas coisas, levar por diante iniciativas, projetos, múltiplas atividades, mas se não estamos nele, unidos a Ele como os ramos à videira, e se o seu Espírito não passa através de nós, tudo aquilo que fazemos é nada aos seus olhos, isto é, não vale nada para o Reino de Deus.

A regra de vida dos Salesianos diz que “trabalhando pela salvação da juventude, o salesiano faz a experiência sua paternidade de Deus e reaviva constantemente a dimensão divina da sua atividade, do «sem Mim, nada podeis fazer» (C 12).

Se vivemos unidos a Cristo como os ramos estão unidos à videira, a linfa do Espírito passa de Cristo em nós e qualquer coisa que façamos dá fruto, porque não é obra nossa, mas do amor de Cristo que age em nós. Este é o segredo da vida cristã, e em particular da missão, onde quer que a realizemos.

Caríssimos Gregório e Rafael,

A exemplo do nosso pai, Dom Bosco, vivei unidos a Cristo, Mestre, para que as vossas mãos, a vossa mente e o vosso coração sejam «canais» do amor de Cristo, da graça de Cristo, da bênção de Cristo para todos, muito particularmente para os jovens.

Que a missão que vos é dada com o Sacramento da Ordem seja marcada pela alegria, pela Cruz, pela oração, como foi a do nosso pai Dom Bosco.

Uma missão que exige desapego e pobreza; que é portadora de paz e de cura, que são sinais da proximidade do Reino de Deus.

Missão que não é proselitismo, mas anúncio e testemunho, que exige franqueza e liberdade evangélica para partir, que pode ser rejeitada, mas sempre caraterizada pela alegria, como foi a missão dos setenta e dois discípulos, que voltaram da missão «cheios de alegria».

Não se trata de uma alegria efémera, mas de uma alegria radicada na promessa de que «os vossos nomes estão escritos nos Céus», ou seja, de uma alegria interior, uma alegria indestrutível que nasce da consciência de ser chamado por Deus a seguir a Cristo seu Filho, de partilhar a sua vida e a sua missão no sacerdócio ministerial, sendo «sinais de Cristo pastor, em especial com a pregação do Evangelho e a ação sacramental» (C 45).

Que a proteção maternal da Virgem Auxiliadora ampare em todos os lugares a missão dos discípulos de Cristo, ampare a vossa missão de anunciar a todos que Deus nos ama, quer salvar-nos e nos chama a fazer parte do seu Reino.

 

† Joaquim Mendes, sdb

Bispo Auxiliar de Lisboa

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Fotografia: Irene Rodrigues/Secretariado diocesano das Comunicações Sociais