Homilia de D. Amândio Tomás - Cerejais, 29.05.2022 | Diocese Bragança-Miranda

Homilia de D. Amândio Tomás, Bispo Emérito da Diocese de Vila Real, no segundo dia da Peregrinação anual ao Santuário diocesano do Imaculado Coração de Maria, em Cerejais.

Irmãos, presentes no Santuário do Coração Imaculado de Maria de Cerejais ou que me ouvis pela rádio. No último Domingo do Mês de Maria, dia da Ascensão, louvamos Jesus, verdadeiro Deus e homem, e a Virgem Sua Mãe.

1.- A Ascensão de Jesus não é um abandono. Ele não nos deixou órfãos. Ao contrário disse: “não vos deixarei órfãos. Eu voltarei a vós! Ainda um pouco e o mundo já não me verá; vós é que me vereis, pois Eu vivo e vós também haveis de viver. Nesse dia, compreendereis que Eu estou, no meu Pai, e vós em mim, e Eu em vós. Quem recebe os meus mandamentos e os observa esse é que me tem amor; e quem me tiver amor será amado por meu Pai, e Eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo.14,18-21). A Morte de Jesus é um paradoxo, loucura e escândalo, diz Paulo, mas para quem crê, o Crucificado é força e sabedoria de Deus (1 Cor 1, 22-23). O Pai recebeu o sacrifício de Jesus e entronizou-O, no Céu. Ele é a Vida dos que se nutrem do Seu Corpo e Sangue. Maria elevada ao Céu, participa já da vida gloriosa do Seu Filho.

2.-Jesus é Mediador e Sacerdote dos bens futuros e intercede, por nós. Entrou, no santuário do Céu, não feito pelo homem. Ressuscitou a natureza humana assumida, em Maria, ofereceu-a, em sacrifício e obteve, para Si e para nós, a vida eterna. Ele é Sumo-Sacerdote, que ama, santifica, reúne e faz de nós sacerdotes. Notar que o Sacerdócio da Antiga Aliança difere do da Nova. O sacerdócio antigo era dinástico, tribal, com separação, distinção, isolamento, no culto. O Átrio dos Gentios era para não Judeus. O claustro do Templo, para o Povo Eleito. Os Sacerdotes, só da tribo de Levi, estavam, no Templo. Ao Santo dos Santos acedia o Sumo-Sacerdote, uma vez no ano, na Festa da Expiação, e aspergia o sangue das vítimas, pelos seus pecados e pelos do povo. Mas ele não se oferecia a Si, nem podia salvar e santificar. O Filho de Deus, porém, inocente e sem pecado, oferece-se a Si, salva-nos pelo Seu sangue. Não separa. Não rejeita os que o Pai lhe deu. Faz de nós batizados, sacerdotes, filhos, irmãos, eleitos e herdeiros do Céu e da vida eterna. Ele não está só um dia, no Céu, para onde elevou a nossa natureza humana, mas está para sempre lá, como Deus e Homem, para se oferecer e interceder por nós ao Pai, na unidade do Espírito Santo. E também Maria Assunta está para sempre no Céu, participando da glória do seu Filho.

3. Ascensão e Ressurreição preparam a Vinda do Espírito, outro Consolador. O primeiro é Jesus, que nos ama, não abandona, mas intercede por nós. O Espírito é mais-valia para os discípulos e vence a tristeza da ida de Jesus, para o Pai. “É melhor para vós que Eu vá, pois se Eu não for, o Paráclito não virá a vós, mas se Eu for, Eu vo-lo enviarei“ (Jo 15,7). Nos 40 dias, os Discípulos veem e ouvem o Ressuscitado, que promete o Espírito. Depois, eleva-se, desaparece. A nuvem oculta-O e os Discípulos não ficam órfãos, mas creem que Jesus está, com eles, sem ser visto. Felizes os que creem sem terem visto disse Jesus a Tomé (Jo. 20,29). Jesus abriu para nós um caminho novo e vivo através do véu da Sua humanidade (He 10,19). Graças a Jesus, que se faz ver e ao Espírito, não temem nem desesperam, mas creem, porque “a fé é a garantia das coisas que se esperam e a certeza daquelas que não se veem” (He,11,1). Após a Ascensão, rezam, com a Mãe de Jesus e recebem o Espírito e assim a Ascensão de Jesus não gera traumas.

 4.- A Paz autêntica não vem das armas. Parece vivermos, ainda, no antes da Ressurreição e Ascensão de Jesus, que disse deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou. Não se perturbe o vosso coração nem se acobarde (Jo. 14,27). Vivemos prisioneiros da tristeza e do medo, como se Deus não existisse, reféns de nós, longe da Paz, que é Cristo, vítimas da guerra, da paz imposta, que humilha e rearma, cria medos e traumas, com a guerra e os ataques à vida e à dignidade humana. O Papa Francisco fala de guerra em pedaços, neste eclipse de Deus e corrução da consciência. A fé, o amor, a esperança dão lugar à impenitência, desespero, soberba e presunção. Esquecemos Jesus glorificado, que dá a Vida Eterna, o supremo bem, verdade e beleza. Mas o misterioso peregrino vive e está misteriosamente connosco. Há que purificar o olhar, abrir a mente, para O reconhecer, na Palavra, no partir o Pão, nas relações pessoais, no convívio de Jesus, que na Eucaristia nos alimenta, congrega e dá as razões de viver.

Ascensão e Ressurreição são duas faces do mistério da Páscoa de Jesus, da Sua Passagem ao Pai, para interceder por nós e voltar como juiz. A Páscoa revela a nova condição do Filho, a quem o Pai entronizou. Jesus morreu. É só meio Credo. A Ressurreição é que é decisiva. Sem ela tudo se desmorona, nada tem sentido. A vida de Jesus tem um antes e um depois, diferentes. Após a Páscoa, Jesus é o mesmo e não é igual. A Ressurreição é insondável, não detetável, incontrolável, foge à experiência. Só é visto, nas Aparições, na Ascensão, nas chagas, que Tomé toca, e nas refeições, que são sinais da identidade de Jesus. Ele é o mesmo, o de antes da morte, e é diferente porque é ágil, impassível, entra com portas fechadas, tem os dotes do Corpo glorificado. Já na Transfiguração, para vencer o escândalo da Morte, Jesus mostrou a glória, aos discípulos que apeteciam o poder, o lucro, o triunfo e o primeiro lugar. Tudo diferente do ver do Pai e de Jesus “que se humilhou e despojou da Sua condição divina obedecendo até à morte e morte de Cruz” (Fil. 2,5-11), pois “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em redenção” (Mc.10,45).

5. Jesus ressuscitou, no primeiro da semana, o primeiro da criação, a seguir ao Sábado, no Dia do Senhor (Dies Dominicus), que no Evangelho de Lucas, é o da Ressurreição e Ascensão e o da Eucaristia de Emaús, que é memorial da Morte, Ressurreição e Ascensão. A Páscoa semanal precede a Anual. A Eucaristia é celebrada, no primeiro dia, nos Atos dos Apóstolos, com Paulo e companheiros reunidos, na Fração do Pão, em Tróade (At. 20,7). Jesus dá o Corpo e Sangue em alimento, como memorial do Mistério Pascal, o qual é dito Ceia do Senhor, Comunhão e Fração do Pão, nomes que não esgotam o mistério de Cristo e da Igreja, da qual a Eucaristia é o coração. A Igreja vive da Eucaristia. “ A Igreja faz a Eucaristia mas é a Eucaristia que faz a Igreja”. Ela é o alimento dos mártires, que não vivem sem ele, como os de Abilene, ciosos do corpo e sangue de Jesus: “sem o Domingo não podemos viver”. O Domingo é o Dia em que Jesus se deu, em alimento, em Emaús, na Fração do Pão, e atualiza o mistério da Morte, Ressurreição e Ascensão. O Domingo é manancial de fé e celebra o triunfo de Cristo, para que as pessoas vivam, se convertam, esperem e sejam salvas.

6.- Aparições e Ascensão ocorrem, no primeiro dia, no Evangelho de Lucas. Nos Atos, porém, Jesus aparece, nos 40 Dias, antes da Ascensão. Mas Lucas não se contradiz. Os seus livros são Catequeses de doutrina salvífica. Não são fotografias de acontecimentos. O Evangelho diz para ficarem na cidade até vir o Espírito. Os livros estão ligados, dizendo que Jesus ressuscitou, subiu ao Céu, vive, na Igreja e dá o Espírito. O Primeiro Dia é decisivo e no Novo Testamento é o da Ressurreição, Ascensão e Fração do Pão. Os Atos mostram que a obra de Jesus continua, com Jesus Ressuscitado, que com a força do Espírito consola e fortalece os discípulos, em missão no mundo.

7. Que paz e que esperança dar ao mundo? A resposta é Cristo. Há que amar e fazer a vontade de Deus, na apostasia de hoje, quando o homem vive na luxúria e divinização de si, esquecido de Deus, com consciência suja, alheio à justiça, sem beleza, sem verdade e sem amor. Ouvimos exaltar a guerra, a violência e os atentados à dignidade humana, que surgem, como normais e impostos. É tempo de amar e regressar a Cristo Ressuscitado e Exaltado que nos conduz a Deus. Não tenhamos medo e confiemos em Deus. Cerrar fileiras com Cristo, sem esquecer que Ele está misteriosamente connosco e diz: não tenhais medo, tende confiança, Eu venci o mundo. Que Deus, pelo Seu Filho elevado ao Céu e pelo Seu Espírito, com a intercessão de Maria e dos Santos, nos livre da fome, peste e guerra e cure a humanidade, doente, repleta de males, desorientada, desesperada e sem saída. Amen.                                                                                                

+ Amândio José Tomás