Homilia da Solenidade da Senhora das Graças | Diocese Bragança-Miranda

Mãe do Coração ardente

Catedral, solenidade da Senhora das Graças, 22 agosto 2021

 

1. Um coração que arde

A Mãe do Coração ardente, que em Bragança invocamos como a Senhora das Graças é grande graça e luz para o nosso tempo, no qual as pessoas sofrem de mal do coração e muitas vivem na “globalização da superficialidade”.

É comum dizer-se nas nossas conversas: «esta gente não tem coração! Como poderão fazer isso? (...) não nego que seja boa pessoa, mas falta-lhe alma (...) procuro alguém com quem falar de coração a coração (...)». Muitas vezes, quando falamos de uma pessoa boa até dizemos: «tem um grande coração». Por isso, para os discípulos missionários de Jesus Cristo: «nada existe de verdadeiramente humano que não encontre eco no seu coração» (Gaudium et Spes 1).

Alguns cristãos, especialmente os místicos chegam a afirmar acerca do lume que faz arder o coração, qual sarça sempre ardente: «em certas ocasiões o coração está cheio de Deus e não cabe mais no peito» (Ir. S. João, SFRJS). Um coração de mãe é ardente porque ama apaixonadamente. Mesmo se considerarmos o coração no nosso corpo, concluímos que nós dependemos dos seus batimentos, mas o coração não depende de nós.

Assim, ao olhar a bela imagem da Senhora das Graças, como uma criança fixa o rosto da mãe, sobressai de imediato aos olhos o coração da mãe que é, ao mesmo tempo, a mãe do coração. Ao dizermos que é Mãe do coração, estamos a proclamar que a Virgem Santa Maria é a Mãe de Jesus Cristo. Este coração é, com efeito, um coração humano que arde de amor e que ilumina pelas mãos maternas, das quais saem raios de graça. Olhemos para a Mãe da sabedoria do Coração (cf. Sir 51, 18-24.27-30), que faz a vontade de Deus (cf. Mt 12, 46-50), que enviou o seu Filho, nascido desta Mulher admirável (cf. Gl 4, 4-7).

 

2. As graças da vida inteira

O maior sonho dos nossos avós e bisavós era o de ter uma longa vida. Com efeito, como canta o salmista: «os nossos dias de vida podem ser setenta anos ou, para os mais fortes, oitenta. E a sua agitação é trabalho e miséria; depressa a satisfação passa, e nós desaparecemos» (Sl 90,10). O contraste entre o tempo da humanidade e a eternidade de Deus é ocasião de emoção espiritual e de súplica insistente: «ensinai-nos a contar os nossos dias, para chegarmos à sabedoria do coração» (Sl 90,12). Esta sabedoria do coração é um dom e um compromisso que ninguém consegue sozinho.

«De facto, o Livro dos Salmos é também metáfora da existência humana, que se desenrola entre bênçãos, alegrias, dores, gritos, maldições, louvores, para, finalmente, chegar ao Aleluia que, por vezes é, também a última palavra da vida; aquela que segue o ámen, porque, se já é muito bonito deixar esta terra com um humilde “assim seja”, ainda é mais bonito deixá-la com um aleluia, com um último, infinito, obrigado» (Luigino Bruni).

Efetivamente, hoje temos vida longa! E que fazemos aos mais velhos e com eles? Mandamo-los para um lar de idosos e não mais os acompanhamos? Como cuidamos da vida longa? Estão sós? Estão isolados? Estão esquecidos? Estão abandonados?

Algumas pessoas mais velhas confidenciaram-me que o maior medo que têm é mesmo o de morrerem abandonados no hospital, em casa ou nos lares.

Todavia, o Papa Francisco aponta a vocação dos mais velhos. «Atenção! Qual é a nossa vocação hoje, na nossa idade? Salvaguardar as raízes, transmitir a fé aos jovens e cuidar dos pequeninos (...). Entre os vários pilares que deverão sustentar esta nova construção, há três que tu – melhor que outros – podes ajudar a colocar. Três pilares: os sonhos, a memória e a oração».

O que será de uma família, de uma cidade, de uma comunidade cristã quando despreza as suas memórias?

A uma árvore podemos cortar os ramos e, às vezes, até convém, mas se cortamos as raízes, a árvore morre. Assim acontece com a memória e com os encontros e os desencontros com os mais velhos – os avós e os idosos. A árvore conhece-se pelos frutos e não pelas flores ou pelas folhas ou pelos ramos.

 

3. Igreja Catedral, casa de todos

Há 20 anos, no dia da dedicação da nossa Catedral, a oração própria ressoou assim: «Esta casa anuncia o mistério da Igreja... seja esta casa lugar para sempre santificado, e este altar, mesa continuamente preparada para o sacrifício de Cristo. (...). Aqui ressoe jubilosa a oblação do louvor; voz dos homens unida aos cânticos dos Anjos, e incessantemente suba para Vós a oração pela salvação do mundo. Aqui encontrem os pobres a misericórdia, alcancem os oprimidos a verdadeira liberdade, e todos se revistam da dignidade de filhos vossos, até chegarem, exultantes de alegria, à Jerusalém do alto, a cidade do Céu».

No próximo dia 7 de outubro comemoraremos este aniversário. As rosas que hoje perfumam a nossa assembleia litúrgica expressam não só a vida crente das comunidades do Município de Bragança, mas simbolizam a esperança de todo o povo nordestino que peregrina na história rumo ao futuro da Esperança e da Paz.

Esta casa foi dedicada sob o olhar do coração terno da Virgem Santa Maria, Senhora das Graças, Senhora da cidade, Senhora da Unidade Pastoral, Senhora das famílias, Senhora da vida nascida do coração de Deus que nos ama. Ao mesmo tempo, a Virgem santa Maria, é Senhora Mãe dos doentes, dos refugiados, dos reclusos, dos pobres, dos que mais sofrem as crises humanitárias e necessitam de uma viva dignidade humana integral.

Na verdade, «o futuro pertence àqueles que dão à próxima geração uma razão para esperar» (Teilhard de Chardin). Aqui e agora, pedimos que renasça a chama do amor para uma “ecologia do coração”! Ajudai-nos ó Senhora Mãe das Graças!

+ José Manuel Cordeiro

Fotografia: BLR/SDCS