Homilia D. José Cordeiro | Homilia Missa do Galo | Diocese Bragança-Miranda

Eucaristia e a palha do presépio

Catedral, 24 de dezembro de 2021

 

1. Eucaristia e a palha do presépio

Nos inícios do cristianismo, os Padres da Igreja fizeram uma ligação íntima fizeram entre a divindade e a humanidade, “o admirável comércio”. Entre o trigo e a palha, da qual sai o grão do pão quotidiano e que serve para a Eucaristia. Assim, Santo Agostinho evidenciou: «Ninguém pode colocar outro fundamento diferente daquele que já foi posto, a saber Jesus Cristo. Ao construir sobre este alicerce com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, palha ou colmo, a obra de cada um será manifesta, pois o dia do Senhor a dará a conhecer».

O Natal é um mistério de pobreza, simplicidade e esperança. Por isso, não é difícil de compreender para quem tem um coração que vê e que espera. A celebração da noite de Natal é carregada de Esperança para humanizar a humanidade.

Jesus está deitado na palha dourada da manjedoura. Maria envolveu Jesus «em panos e deitou-O numa manjedoura, por não havia lugar para eles na hospedaria» (Lc 2, 7). Que sublime humildade!

A palha é o que resta depois de se colher os grãos. Ela é sinal de luz e de cruz, tanto de pobreza como de alimento, que em Jesus Cristo acontece na própria Eucaristia: «Tal como no trigo o grão se esconde debaixo da palha, assim Cristo esconde os seus mistérios sob o véu dos escritos bíblicos» (Santo Agostinho).

Um hino da Liturgia das Horas canta: «Os filhos dos homens, em berço doirado, E Vós, meu Menino, em palhas deitado! Em palhas deitado, tão pobre, esquecido, Filho duma Rosa, Dum cravo nascido»

 

2. Ser essencial

Diante do presépio podemos dizer que a fé nasce do amor, ou melhor, da capacidade de um olhar novo que nasce por sermos muito amados e perdoados em Deus. Tudo canta e grita de alegria: «glória a Deus nas alturas e paz na terra entre os homens de boa vontade» (Lc 2, 14).  Com a Virgem Santa Maria e São José tocamos o Essencial numa Igreja que se esforça por ser cada vez mais Igreja sinodal, serva, que escuta, educa, celebra e festeja. Este é o estilo evangélico de ser Igreja, hoje. Sem humildade não há participação, comunhão e missão. Uma humildade humilde, sem hipocrisia ou farisaísmo.

O poeta A. Silesius demanda: «Homem, sê essencial». Ser essencial é reconhecer e agradecer o dom da Graça divina em mim, nos outros, na comunidade, na humanidade. Todavia, não tenhamos medo porque «o essencial é invisível para os olhos» (A. de Saint-Exupéry), e a humildade é andar na verdade (cf. Santa Teresa de Ávila).

Este tempo prolongado de pandemia é ainda uma oportunidade para valorizar o que realmente conta na vida. Na fragilidade o coração alegra-se quando é grato e humilde.

Uma vida sem gratidão é uma vida difícil e triste, que ignora a beleza do dom. A nós foi-nos dada a graça de dizer obrigado, de voltar a descobrir a alegria do Evangelho, que torna a vida mais leve com gestos de proximidade, compaixão e ternura para ultrapassar as tensões mais duras e abrir as portas da cultura do encontro, da fraternidade universal e da amizade social.

Como dizia o Grande Arcebispo São Bartolomeu dos Mártires: «o sol que nasceu ... veio aquentar a frieza do nosso coração». Jesus, fazendo-se um de nós, ama-nos com um coração de carne! Ele fez-se carne!

 

3. Hoje nasceu

A palavra «Hodie = Hoje», que está inscrita neste ambão da Catedral, refere-se ao eterno “hoje” da Liturgia, na qual se torna presente o único e mesmo mistério de Cristo. De facto, hoje–Natal, proclama-se solenemente: «Hoje nasceu o nosso salvador, Jesus Cristo, Senhor; Hoje sobre nós resplandece uma luz: nasceu o Senhor; Hoje, uma grande luz desceu sobre a terra». Cristo utilizou o mesmo termo “hoje” quando exortava a aprofundar todas as Escrituras a partir do seu acontecimento pessoal, proclamando a sua missão na sinagoga de Nazaré (cf. Lc 4, 21). A propósito do tempo, Santo Agostinho escreve: «É impróprio afirmar: os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras» (Confissões 11,13.20).

Hoje queremos ter presente na nossa oração a todos e a cada um da nossa comunidade e da inteira família humana, sobretudo os mais velhos, os doentes e todas as pessoas que vivem no sofrimento, na solidão, no isolamento, na prisão, na deficiência, na ignorância, na pobreza, na depressão, no stress, no desemprego e na migração ou vivem nas periferias existenciais que são invisíveis.

Esta noite não foi possível realizar a ceia com os estudantes internacionais do IPB que passam esta noite na nossa cidade, por causa da situação pandémica que estamos ainda a atravessar. Queria, contudo, dizer-lhes da nossa oração e proximidade, e agradecer especialmente a mensagem tão bela dos “Jovens sem sofá” que hoje me enviaram. Muito obrigado e santo Natal.

Também nós, hoje podemos fazer de S. José, como no conto de Natal, escrito pelo grande Miguel Torga: «Consoamos aqui os três – disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. – a Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José».

Um santo Natal!

 

+ José Manuel Cordeiro