«Encíclica papal “Magnifica Humanitas”, sobre a Inteligência Artificial» | Opinião do Pe. Tiago Alves | Diocese Bragança-Miranda
Acabo de ler a nova carta encíclica da Igreja, e primeira do Papa Leão XIV, a qual manifesta uma elevada preocupação sobre a preservação da dignidade humana.
O tema sobre a Inteligência Artificial, sobejamente difundido, está a tornar-se uma constante preocupação.
Se por um lado, a tecnologia e a ciência naturalmente reconhecem o positivo valor desta “ferramenta”, de igual modo começam a dar conta do perigo em que se está a transformar.
Expõe Leão XIV:
<<O Espírito Santo interpela-nos hoje sobre a nossa relação com a técnica e com a revolução digital em curso. As descobertas científicas são um dom concedido à humanidade para que esta o faça frutificar (cf. Mt 25, 14-30). A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças>>.
Assim, compreendemos que a chave de leitura é a presença e dignidade humana diante do avanço de uma tecnologia e ciência privadas que em nada tem presente os valores humanos e morais.
Num tempo em que, mesmo dentro da Igreja, milhões de “católicos” não conhecem o conteúdo da Doutrina Social da Igreja, eis que um novo rugido, agora de Leão XIV, depois do de Leão XIII – aquele que fundou a nova doutrina da Igreja, desde a Rerum Novarum (1891) – se faz ouvir a fim de apelar à reta consciência na competição económica e bélica, neste paraíso que rapidamente se pode tornar selva. Como refere o Pontífice, é preciso um discernimento comunitário que se abre à verdade multifacetada.
De igual modo, damos conta que a confusão “das línguas” e da mentira, da desinformação e da propagação de ódio – por parte daqueles que continuam a edificar a Torre de Babel dos tempos hodiernos -, em nada ajuda na peregrinação da humanidade a caminho da nova Jerusalém. Precisamos de continuar a beber da linguagem evangélica que naturalmente compreende as fragilidades, mas não se deixa corromper pelas tendências fracas, mais bem continua a ensinar para projetos maiores.
É preciso construir, comunitária e corajosamente, no bem, para desarmar o mal criado pela diversidade de abusos.
A este respeito diz a encíclica:
<< Viver a justiça na Igreja significa melhorar as relações e as estruturas eclesiais, eliminando as distorções que geram desigualdades, opacidades e prevaricações. A este respeito, a escuta das vítimas de abusos espirituais, económicos, institucionais, sexuais, de poder e de consciência é parte integrante dum caminho de justiça, que inclui o reconhecimento do dano causado, a justa reparação e a prevenção. Todo o poder está ao serviço da comunhão e da missão. Toda a autoridade está ao serviço do povo de Deus >>.
Planificar um projeto sólido para que essa cidade, cristãmente fundada, não desabe. Alicerces que, colocados desde os pontificados anteriores, dos quais este documento faz referência, tem em vista retribuir o amor com o amor, o qual não é possível sem leis mais justas e mais distributivas.
Para já ficamos com esta imagem transversal do documento, mas que merece uma nova leitura, e que irá bater sempre num “resumo resumido”: ou construímos uma Torre onde cada um vive isolado, ou fundamos uma cidade onde habita a Humanidade com Deus.
Não seria menos interessante ler, para quem ainda não o fez, a obra “Cidade de Deus” de Santo Agostinho de Hipona, o qual nos pode ajudar a perceber que também a Inteligência Artificial pode construir dois mundos: o do egoísmo e do controlo; o do bem comum e da dignidade humana.
Com um total de 245 números, espalhados por 87 páginas, este documento é um exame de consciência.
Pe. Tiago Alves, Pároco e Capelão da Unidade Hospitalar de Mirandela.





