Diocese homenageou Vassalo Rosa, o arquiteto da catedral | Diocese Bragança-Miranda
Vassalo Rosa foi homenageado pela Diocese de Bragança-Miranda, no passado sábado, numa iniciativa que decorreu numa das salas da catedral, organizada pelo Secretariado diocesano da Pastoral da Cultura.
Uma catedral de braços abertos a toda a Diocese e uma igreja única que não é imitação de nenhuma outra. É assim que Luís Vassalo Rosa, o arquiteto responsável pelo projeto e obra da Sé Catedral de Bragança, descreve o que idealizou para este templo, descrito como a última catedral do século XX, a obra iniciou em 1981, e só foi concluída vinte anos depois, já no século XXI. A catedral foi dedicada a 7 outubro de 2001 a Nossa Senhora Rainha de Bragança.
Vassalo Rosa foi homenageado pela Diocese de Bragança-Miranda, no passado sábado, numa iniciativa que decorreu numa das salas que projetou, organizada pelo Secretariado diocesano da Pastoral da Cultura que promoveu uma sessão pública que teve como interlocutor o arquiteto Pedro Cascalheira, atualmente a desenvolver uma tese de doutoramento sobre a Catedral de Bragança. Vassalo Rosa recordou os trâmites da construção. “Dei um contributo profissional como arquiteto, integrado numa equipa, mas o grande mentor da obra é D. António José Rafael (bispo emérito). Para mim não foi um calvário nem uma redenção. É assim a vida”, explicou o autor do projeto.
O arquiteto está ligado à catedral desde 1964, quando ganhou o concurso público para a edificação do templo, lançado pelo bispo diocesano, à época D. Abílio Vaz das Neves, que nunca conheceu. Este projeto não mereceu aprovação do Estado, na altura o país era governado por Oliveira Salazar, e nunca seria concretizado.
Dezasseis anos depois, a ideia de construir uma catedral em Bragança voltou à liça pela mão do então bispo da Diocese, D. António José Rafael, já num outro terreno (o primeiro era junto à Praça Cavaleiro Ferreira) e com novo projeto. Viviam-se outros tempos e, também, Portugal estava em mudança com a adesão à Comunidade Económica Europeia, o acordo de pré adesão foi assinado em 1980. “Este terreno onde está a catedral é melhor do que o anterior, que era muito ligado à cidade antiga. Este está ligado à cidade nova. Está na zona de charneira e próximo de um conjunto de equipamentos. Considero que é mais central e para o programa de D. António, que dava muita importância ao espaço exterior - a aspectos de paisagismo e da recriação da paisagem das várias áreas da Diocese de Bragança - este terreno tinha essa possibilidade que o outro não tinha”, descreveu Vassalo Rosa.
Este foi o primeiro projeto de arquitetura em Portugal a ser alvo de um debate público, uma vez que o anteprojeto tinha sido chumbado. Realizaram-se sessões em Lisboa, Porto e Bragança. Por esta altura, mesmo antes da construção, já tinha ganho o epíteto de “catedral polémica”. Sobre essa fama Vassalo Rosa deu uma resposta apaziguadora: “Hoje digo que é bom sinal. Se houve polémica é porque foi importante para as pessoas. Umas defenderam outras não. Isso é positivo, pois é daí que se pode construir um caminho de consciência e de verdade”.
Uma obra emblemática: a diocese
O projeto, que o próprio arquiteto admitiu ter sofrido ajustamentos ao longo da sua construção, manteve sempre a relação com a torre do castelo, ainda assim, ressalva que com o crescimento de Bragança e a construção de edifícios novos pode ter-se perdido essa ligação. “Isso faz parte da transformação e da vida da cidade. Na minha perspectiva deveria haver uma continuidade entre a Praça Cavaleiro Ferreira e esta zona. Para chegar aqui é preciso dar uma série de voltas pelas ruas laterais. Creio que isso dificulta a plena integração da Sé Catedral na cidade”, referiu Vassalo Rosa. Ele defende que D. António Rafael foi muito importante para a definição do projeto. “Não entendo a obra como uma peça intocável. A catedral existe pelo sonho de D. António, que fez a pastoral da catedral”, afirmou, revelando que esta foi uma das obras que mais gostou de conceber na sua carreira a par com o Parque das Nações e uma casa em Azeitão (Setúbal).
O arquiteto contou que projetou uma catedral de paredes despojadas, para que as várias gerações fossem deixando a sua marca. “Eu era totalmente contrário em deixar um edifício onde não se pudesse tocar, como uma obra de arte. Não. Isto é uma obra que se vai construindo diariamente em cada geração”, explicou. Daí que tenha ficado muito agradado com as obras que ali têm sido instaladas, como as esculturas do mestre José Rodrigues e o painel de azulejos de Ilda David.
A sua ideia era criar uma igreja luminosa, um espaço aberto para cada um o viver como entender. “É um projeto genuíno e não se insere em nenhuma corrente”, afirmou.
Para D. José Cordeiro, o desafio agora é manter a catedral . “Dar-lhe vida e continuar a habitação da mesma, sobretudo com a arte que lhe deu uma alma mais configuradora ao simbolismo que já assume como Igreja mãe de uma Diocese, um símbolo da unidade e da comunhão”, descreveu. O edifício carece ainda de obras, porém estas não são prioridade da Diocese por falta de meios financeiros. “A habitação que se faz do espaço com obras de arte é possível graças à gratuitidade do trabalho dos artistas em colaboração com os mecenas que ajudam na aquisição dos materiais”, revelou o bispo diocesano.
O objetivo da Diocese é dar continuidade ao que significa a “alegria de evangelizar e a atenção a todos, especialmente aos que mais precisam”, destacou D. José. A Eucaristia ao domingo tem vindo a aumentar o número de fiéis que ali comparecem e nas datas festivas o espaço (tem lugar para 2500 pessoas sentadas) já falta para tanta solicitação.
Entre a idealização de uma catedral em Bragança e a sua inauguração medeiam mais de 200 anos. “Várias situações impediram a sua construção, desde desavenças, falta de dinheiro para a construir, até à destituição de pessoas que estavam à frente dos projetos. Estes foram sempre morrendo por não terem a força suficiente que foi encontrada em D. António Rafael, que a assumiu como uma prioridade”, explicou Pedro Cascalheira.
Vassalo Rosa ofereceu à Diocese todos os documentos da obra da catedral, desde esquissos a estudos técnicos que passarão para o espólio do arquivo.
Texto: Glória Lopes/Mensageiro de Bragrança
Fotografia:BLR/SDCS.





