D. António José Rafael - 40 anos de Ordenação Episcopal | Diocese Bragança-Miranda
D. António José Rafael
40 anos de Ordenação Episcopal
13.02.2017
Hoje, a Liturgia centra-nos ainda mais no louvor e na gratidão do Mistério recebido pela imposição das mãos para o ministério do Povo de Deus.
Na narração vocacional da primeira leitura aparecem: Deus, Isaías e o povo. Deus chama Isaías e envia-o numa missão em favor do povo. Isaías, na sua juventude, recebe a vocação profética. «É um homem decidido, sem falsa modéstia, que se oferece voluntariamente a Deus no momento da vocação» (J. Sicre). Numa disponibilidade total ao serviço de Deus, Isaías reconhece a necessidade de ser enviado por Deus e não apenas dizer “eis-me aqui”, mas “podeis enviar-me”.
A vocação de Isaías é um canto de disponibilidade. O mais importante para Isaías é Deus. O fundamental da sua mensagem é provocar no povo o encontro com Deus. Para Isaías é tão decisivo, que é mesmo uma questão de vida ou de morte. A fé é a atitude decisiva e fundamental do ser humano diante de Deus e, por isso, tem sempre de nos incomodar e nunca acomodar.
A fé está ligada à escuta e «é a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama pelo nome» e «não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir um grande chamamento — a vocação ao amor — e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade». (Papa Francisco Lumen Fidei, n. 4; 53).
Hoje, agora… Deus tem uma mensagem irreprimível para anunciar, Deus tem uma plenitude para propor, Deus tem um sonho de beleza para este povo a que pertencemos! E… nós podemos ser mensagem de Deus.
Seguir Cristo compromete. É uma escolha de vida ou de morte! Mas não há que ter medo, pois à semelhança do Eis-me de Isaías, a jovem de Nazaré Maria, no seu dinamismo total diante do Anjo do Senhor que a convidava para um extraordinário projecto, responde: Eis-me.
1. A graça e a verdade por Jesus
O lema escolhido para o ministério episcopal todo exercido ao serviço da porção do povo de Deus presente em Bragança-Miranda durante 24 anos, 2 como Bispo Auxiliar de D. Manuel de Jesus Pereira e 22 anos de Bispo Diocesano (1979-2001) – expressa a sua vida e o mistério do ministério aqui no Nordeste Transmontano.
«Quero ser bragançano convosco e por vós a fim de ser bispo para todos vós. (…) Venho caminhar convosco. O homem será a nossa via, para que Cristo seja o nosso caminho e Bragança seja – com o seu Bispo – fiel ao Papa e ao Concílio. Nada do que é humano me será estranho ou indiferente. Todas as pessoas e povoados, todos os acontecimentos e todo o sentir de Bragança me dirão respeito». Guiado pelo IV Evangelho dispôs-se a viver «por Jesus a graça e a verdade (cf. Jo 1,17) no povo de Deus com Santa Maria».
Afirmou D. Rafael: «O Bispo de Bragança-Miranda só requer de todos os bragançanos um privilégio: o de servir a unidade como centro de reconciliação e ponto de encontro de todos os filhos do distrito. Se me pedem um nome e um valor para me credenciar, eu aponto-os: Cristo e Bragança. Serei Bispo de todos». Ler Bragança, conhecer Bragança, estudar Bragança, foram os seus slogans preferidos.
2. Fiz-me tudo para todos para a todos salvar
É também de D. Rafael, o sentido da história da Igreja: «É fundamental que a pastoral do Bispo se processe sob o signo da continuidade. A Igreja não se inventa, recebe-se; mas a Igreja é vida e a vida ou se renova ou morre». A si mesmo não deu rótulos nem privilégios e na inspiração de S. Paulo autodefiniu-se: «para o vosso Bispo só há um ‘qualificativo’: cristão; e uma ‘cor’: bragançano; e só estão dispensados de andar os mortos»:
No dia da dedicação, 7 de Outubro de 2001, D. Rafael disse com emoção na homilia: «Bragança, aqui tens a tua catedral». E ao despedir-se escreveu no Mensageiro de Bragança: «Até sempre! Na nossa catedral, para sempre nos encontraremos!»
Em 1987, a Diocese já tinha lares da 3ª idade (como se dizia) com o mínimo de condições em Bragança, Miranda, Macedo de Cavaleiros e Mirandela. No tempo de D. Rafael e também fruto do seu impulso, seguido de D. António Montes Moreira, hoje tem a responsabilidade de mais de 70% das respostas sociais e de justiça entre gerações.
Diante do seu estilo frontal, lutador e corajoso ninguém ficou indiferente. Pensava a Europa como um lugar de Paz e de solidariedade olhando ao seu patrono – S. Bento – com o mote ora et labora. Era um entusiasta da Europa, mesmo antes de 1985 e não invocando argumentos económicos. Possuía uma cultura geral invulgar. Transformou as dificuldades em oportunidades.
Convosco, dou graças a Deus pelo dom e pela vida de D. António Rafael. Recebi da imposição das suas mãos o sacramento da Ordem nos três graus. Tenho a graça de contar com os dois Bispos que me antecederam para melhor decidir e acertar no ministério episcopal aqui em Bragança-Miranda.
Conscientes que A Seara é grande, mas os trabalhadores são poucos (cf. Lc 10, 1-9) como escutamos no Evangelho, possamos ainda cantar com mais paixão na vida: Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade (Sl 39).
«O dom é uma coisa muito séria. Tão séria que, quando a cristandade quis escolher o ícone do dom, escolheu um crucifixo» (L. Bruni). Esta é a celebração do Dom da Graça até ao fim do fim.
+ José Cordeiro









