«A cor da música é a cor da alma» | Opinião do Pe. Manuel Ribeiro | Diocese Bragança-Miranda

Cantar é próprio da alma. Num tempo marcadamente festivo, com a música acompanhar os dias das vidas de cada um de nós, compreendemos a relação ôntica e umbilical da música com a alma. De facto, além dos múltiplos sons que unem o pluralismo e a diversidade numa harmonia desconcertante, a música tem igualmente cor uma vez que o som traz cor e luz à alma, à vida íntima da pessoa humana. Quantas vezes uma música não nos transporta para uma memória, para um encontro marcante e belo? A música aproxima-nos connosco mesmos, com os outros e com Deus Nosso Senhor.

Quando escutamos e lemos a Parábola do Bom Samaritano (uma das três parábolas da misericórdia do Evangelho de São Lucas) apercebemo-nos bem desta perturbante e inquietante pedagogia divina. Recordemos a passagem bíblica desta Parábola (cf. Lc 10, 25-37): Jesus é confrontado por um escriva que não quer outra coisa senão entalar Jesus. Por isso ele questiona Jesus sobre o que fazer para receber a vida eterna. A resposta de Jesus é feita numa pergunta: ‘como tu lês a Lei? (...) Faz isso e viverás’ O escriva, já entalado, quer-se redimir fazendo uma outra pergunta: ‘quem é o próximo?’ Com esta – julgava ele – Jesus era ‘apanhado’. O coitado do escriva leva outra ‘coça’ por parte de Jesus. É aqui que Jesus conta a Parábola do Bom Samaritano.

Tomemos atenção. Jesus ensina que o ‘próximo’ é aquele que se aproxima. Antes do aparecimento em cena do Samaritano, Jesus recorda que passam junto daquele flagelado, daquele meio morto, daquele que jazia na berma da estrada e da existência humana, dois sabedores da Lei: um sacerdote e um levita. Dois homens que conhecem e ensinam a Palavra de Deus e a Lei. São homens que têm a Lei na boca, mas não a têm no coração. Ensinam-na aos outros, mas não a vivem nas suas vidas. Concluímos, portanto, que o amor ao próximo não aproxima, não desce e nem toca. Ora, é a amar sem intimidade e sem proximidade.

O Samaritano – o estrangeiro e o pagão – é aquele que manifesta que para Deus o amar o próximo é fazer-se próximo. Vejam a beleza narrativa de São Lucas quando Jesus relata a reação e acção deste Samaritano: “um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas deitando azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele” (Lc 10, 33-34). Que belo! Este homem – o Samaritano – ao deparar-se com aquela tragédia humana e existencial, é capaz de mudar o seu rumo e a sua vida. Sai do centro do caminho para se dirigir até à periferia onde jaz este homem já meio morto. Quantos são os homens que jazem e agoniam na periferia do caminho! O Samaritano não só se compadece, como também se “encheu de compaixão”. “Encher” é um verbo que muito eu gosto: faz-me sempre imaginar algo a preencher, algo que enche o vazio a partir dos sentimentos mais nobre, mais edificantes e mais transformadores do sentir divino e humano. Observem como este homem sai da montada do seu próprio cavalo e coloca o agonizante no seu lugar. Sai para que o agonizante seja tratado e visto como valioso. Isto é sublime! Mais, este Samaritano não se enoja nem se enfastia por descer para cuidar e elevar o agonizante, para ligar, limpar, tocar e cuidar do desprezado que jaz na periferia. Que testemunho tão desconcertante este! Deus, de facto, está permanentemente a desinstalar-nos, a obrigar-nos a sair para as periferias existenciais, a olhar o frágil e o agonizante com olhos de quem se ama e se é amado, a sair dos nossos projectos e caminhos para que sejamos ‘mãos de Deus’.

Na verdade, precisamos ser mais próximos, ser samaritanos de tantos e quantos vivem tombados na estrada da vida: vítimas da violência, do furto e do abandono premeditado e desumano, esquecidos na agonia, filhos da desistência de um mundo que não se compadece com o frágil e, infortunamente, não tem tempo para acolher e cuidar de quem vive completamente só e desamparado.

Este é um tempo oportuno e único (!) para sermos mais próximos dos descartáveis, dos agonizantes e dos que jazem na periferia existencial. Não nos esqueçamos que toda e qualquer aproximação gera, inevitavelmente, intimidade, silêncio, escuta e doação. Ser próximo do ‘próximo’ é aproximar-se, é fazer desabrochar ligações que nos vinculam, que nos transformam e que nos modelam sob o signo e o toque de Deus Santíssimo, numa nova humanização que torna nosso coração e a nossa alma mais solicita e disponível para todos, em especial para com os mais frágeis, para com os mais sofredores, para com os mais esquecidos, para com os mais agonizantes e para com os mais abandonados e sós. Quem vive isto experimenta já o Reino de Deus. Esta é, na verdade, a grande ciência da Fé e da Santa Igreja.

Compreendemos, deste modo, a vida humana como uma sinfonia de cores e de sons. Como uma unidade na diversidade, como uma harmonia no meio do caos. Assim é o aproximar-me ao outro, àquele que jaz na berma da estrada e da vida. Isto é um apelo incessante por parte de Deus. Deus gera em nós, pela ação do Espírito Santo, um fluxo vital que me impele a sair de mim, de mim mesmo, a libertar-me do meu próprio ego, do meu ‘mundinho’, da minha bolha, a fim de ir ao encontro de um outro que me deslocar e me desinstala. Que belo desafio este para que as festividades desta época sejam vividas também no coração dos mais desfavorecidos e frágeis da nossa comunidade. Peçamos ao Coração Imaculado de Maria que nos ilumine e ajude nesta demanda, nesta oblatividade concertada e assertiva que promova o bem comum e a dignidade inalienável da pessoa humana.