Comunicação de D. Nuno Almeida na Formação diocesana sobre as Unidades Pastorais | Diocese Bragança-Miranda

UNIDADES PASTORAIS QUE FUTURO?

Com a presença do Prof. José Prisco, a quem saudamos e muito agradecemos, abrimos, hoje, um percurso de discernimento pastoral. Esta primeira jornada tem como tema: “Unidades Pastorais como expressão ativa da sinodalidade”.
Com os pés bem assentes no presente, vislumbramos o futuro das nossas paróquias e unidades pastorais.

1.As paróquias e unidades pastorais do futuro serão “comunidade de comunidades”. A expressão recolhemo-la do n.27 da Evangelium gaudium, do Papa Francisco. Mais do que suprimir as paróquias e suas pequenas comunidades, visamos uma configuração que valorize as paróquias e comunidades existentes, partindo e mantendo esta rede eclesial capilar. É uma riqueza com história fecunda que pode desabrochar e frutificar nas Unidades Pastorais. Trata-se de valorizar as pequenas comunidades locais dentro de uma estrutura pastoral mais ampla, formada por estes núcleos eclesiais vivos, entre enraizamento e presença, dinamismo e mobilidade. Esta configuração canónica e pastoral mais ampla pode ter várias denominações.
Não se diluem as relações de proximidade entre batizados, que podem continuar a habitar um lugar eclesial familiar e a reconhecer-se como comunidade. Pelo contrário, é incentivada a responsabilidade de ser Igreja aqui e agora e a gerar vivências em que o Evangelho intercete a vida das pessoas e das famílias.
É importante o termo “comunidade” para indicar a presença da Igreja num determinado lugar e contexto. Há que fomentar as “parcerias” pastorais entre as comunidades, numa lógica de subsidiariedade pastoral.

2.A realidade paroquial e a das unidades pastorais do futuro continuará a ser uma igreja de povo, mantendo a forma popular de cristianismo, onde há interação entre o Evangelho e as vivências humanas.
As paróquias e unidades pastorais do futuro mais do que apontar para a pertença, procurarão intercetar a presença de Deus no mundo: uma igreja que procura hospedar os buscadores de sentido. Está atenta às sementes do Verbo e da ação do Espírito, que pertence ao corpo eclesial no seu conjunto e não a um sujeito específico (Cf. C. Theobald, Urgenze pastorali. Per una pedagogia della riforma, EDB, Bologna, 2019, p. 239.
As múltiplas pertenças sociais, a mobilidade, a fé por escolha, comportarão sempre mais uma ancoragem a lugares significativos e a comunidades afetivas. A comunidade de eleição perfila-se como escolha daqueles que não pretendem viver um cristianismo somente por tradição e mais por convicção. Fenómeno que já está em ato na vivência da piedade popular que faz referências a santuários concretos, mosteiros e comunidades de consagrados. Há frequentemente o desligar de relacionamentos comunitários e a recusa de responsabilidades na própria comunidade. Procura-se uma realidade envolvente do ponto de vista emotivo, afetivo e espiritual. Isto deve estimular cada comunidade local em que se gera a fé sacramental a repensar-se como lugar de significados e de representações fortes para quem a habita ou atravessa. Comunidades paroquiais/eclesiais que antes de ser habitadas procuram habitar a vivência quotidiana; um espaço de sentido que interceta a busca humana. Igreja chamada a ser “instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano” (LG 1), presença que torna audível, visível e tangível o envolvimento de Deus no mundo em Jesus Cristo, pela força suave do Espírito.

3.Nas paróquias e unidades pastorais do futuro será muito mais visível a ministerialidade laical, com uma pluralidade de figuras e de operadores pastorais em sinergia com o sacerdote. A instituição de novos ministérios, o reconhecimento de serviços confiados aos fiéis leigos sem distinção de género, vão nesta direção. O Papa Francisco, em 2021, com o Motu Proprio Spiritus Domini (10 janeiro) e Antiquum ministerium (10 maio) abriu o conferimento dos ministérios instituídos a mulheres e criou o do catequista.
No imaginário comum está incluída a representação não só simbólica de um presbítero sozinho para cada paróquia como “pastor próprio”. Esta é uma tradição secular e rica. Fez tantos santos e mártires! As tentativas de experimentação de uma ação “colegial” dos párocos “in solidum” demonstrou a exigência de uma capacidade relacional e interativa muito elevada e muito difícil. A liderança colegial resulta mais árdua do que a pessoal, sendo necessário sempre prever um moderador (can. 517, 1), cuja figura reclama a responsabilidade de “um”.
A intensificação de figuras ministeriais dotadas de verdadeira responsabilidade, vai requerer que avancemos para além da figura isolada (facilmente equivocável com o pastor) para uma ação de equipas e conselhos (grupos ministeriais, grupos de “direção pastoral”, grupos de proximidade …). Este desenvolvimento da relação entre formas ministeriais diversificadas exigirá sempre mais uma ação de liderança partilhada entre leigos e ordenados. Embora mantendo distintas as funções qualificantes e estruturantes, a condução de uma comunidade cristã nunca poderá estar nas mãos de único sujeito eclesial. E isto não somente por motivos operativos, mas para a valorização do “nós eclesial” que a nova configuração das paróquias integradas em unidade pastoral pode concretizar e aprofundar (Cf. A. Borras, Quando manca il prete. Aspetti teologici, canonici e pastorali, EDB, Bologna, 2018, pp. 100-107).
Papa Leão XIV aos sacerdotes de Roma (19.02.2026): “Num território vasto como Roma, é preciso vencer a tentação da autorreferencialidade, que gera sobrecarga e dispersão, para trabalhar cada vez mais juntos, especialmente entre paróquias vizinhas, compartilhando carismas e potencialidades, planeando em conjunto e evitando iniciativas sobrepostas”.
Estamos no tempo das equipas e dos conselhos. O risco das atuais unidades pastorais é o de se apresentarem como uma simples maquilhagem do modelo canónico vigente, faltando a novidade das coordenadas agora delineadas para uma sustentabilidade a todos os níveis.

Conclusão

Que novas formas institucionais são necessárias para gerar o “nós” eclesial que permite o encontro com o Ressuscitado (ver, escutar e tocar Jesus Ressuscitado!)?
Estamos convocados para forjar uma igreja a partir de um “nós” de relacionamentos em que se interligam os tempos e lugares da vida das pessoas e famílias e os tempos e os lugares eclesiais. Como cruzar e iluminar com o Evangelho os momentos existenciais significativos da vida das pessoas e das famílias: nascimento, casamento, sofrimento, festa e alegria, morte …?
Trata-se de pôr em prática três verbos generativos da igreja: acolher a vida, narrar o evangelho e celebrar o dom de graça. Há que revisitar a existência humana em chave de hospitalidade, recuperar a estruturas narrativas da fé e da sua transmissão, reconstituir e dilatar o universo sacramental para além do momento do rito.
Constatamos uma afirmação clara das sedes de concelho como centros de equilíbrio territorial com papel polarizador e dinamizador e oferecendo excelentes infraestruturas e equipamentos modernos. Também não faltam boas condições institucionais para o fomento de parcerias e trabalho em rede com diferentes entidades. Será que as Unidades Pastorais do futuro corresponderão aos 12 municípios que constituem a nossa Diocese? A vida pastoral das paróquias terá uma sede e centro a partir do qual se organiza? A pastoral urbana da cidade de Bragança vai organizar-se no futuro a partir da Catedral?
Não podemos esquecer que a Diocese e cada Paróquia ou Unidade Pastoral é uma Comunidade de homens e mulheres, que procura ser família de famílias. Tem um projeto e proposta de vida que não se encontra em nenhum outro lugar e que nenhuma outra instituição ou entidade pode oferecer. Procurando pôr em prática o Evangelho, a unidade pastoral como célula viva da Igreja: Tem um projeto litúrgico (Culto) para todos desde o nascimento (Batismo) até à morte (Exéquias); tem um projeto educativo (Cultura): formação cristã integral para as crianças, adolescentes, jovens e famílias; tem um projeto social (Caridade) de promoção e solidariedade, especialmente para os mais carenciados e frágeis.

+Nuno Almeida
Bispo de Bragança-Miranda