Homilia D. José Cordeiro | Eucaristia 52º CEI, Budapeste - 08.09.2021 | Diocese Bragança-Miranda

52º CEI, Budapeste, 8 setembro 2021

Para quem nasceu Maria?

 

1. Na paciência de Deus

A festa da Natividade da Virgem Santa Maria assume um profundo sentido litúrgico, porque está na direta relação com Cristo-Luz, o Sol de Justiça. Maria é a aurora, a estrela que anuncia o sol e, n’Ela, o cristão é como que uma nova criação irradiada pela luz radiante da manhã de Páscoa.

Na oração coleta, pedimos a Deus, que pela celebração desta festa, nos conceda a unidade a paz. De fato, na Natividade de Maria festeja-se a plenitude dos tempos, a luz e a alegria: «quando chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o Seu Filho, nascido de uma mulher» (Gl 4. 4). Maria é a Virgem que será Mãe e conceberá e dará à luz um Filho que salvará o povo dos seus pecados (cf. Is 7, 14), é a Mãe do Homem novo e a aurora do Mundo novo.

A propósito do nascimento da Mãe de Deus, o grande Padre António Vieira proclamou assim: «Quereis saber quão feliz, quão alto é e quão digno de ser festejado o Nascimento de Maria? Vede para o que nasceu. Nasceu para que d’Ela nascesse Deus... Perguntai aos enfermos para que nasce esta celestial Menina, dir-vos-ão que nasce para Senhora da Saúde (pobres-Senhora dos Remédios; desamparados-Senhora do Amparo; desconsolados-Senhora da Consolação; tristes-Senhora dos Prazeres; desesperados-Senhora da Esperança; cegos-Senhora da Luz; discordes-Senhora da Paz; desencaminhados-Senhora da Guia; cativos-Senhora do Livramento, cercados-Senhora da Vitória; parturientes-Senhora do Bom despacho; navegantes-Senhora da Boa viagem; temerosos-Senhora do Bom Sucesso; desconfiados-Senhora da Boa morte; pecadores-Senhora da Graça; todos os devotos-Senhora da Glória...) . E se todas estas vozes se unirem em uma só voz, dirão que nasce para ser Maria e Mãe de Jesus».

Lucas e Mateus colocam o batismo de Jesus no Jordão em relação com a própria genealogia de Jesus, quase a indicar a entrada de Cristo na profundidade da história. O tempo é o sacramento de Deus.

No texto escutado de Mateus sobressaem as figuras de Abraão, David e a pessoa decisiva de São José, como homem da paciência com Deus e com a sua noiva, a Virgem Santa Maria. Na Liturgia da Igreja, José de Nazaré é o «servo fiel, humilde e silencioso», homem justo e prudente, «patriarca do silêncio e do trabalho». São José é um facilitador da vida em Cristo. Cultivar a paciência é um desafio sempre atual. O “martírio” da paciência está intimamente ligado à capacidade de escuta e à humildade.

A nossa realidade pastoral exige a coragem, a confiança e a paciência para ir ao encontro dos homens e das mulheres do nosso tempo, testemunhando que também hoje é possível, belo, bom e justo viver a existência humana à luz do Evangelho.

 

2. Experiência da catolicidade da Igreja

A festa de hoje é expressão da universalidade eclesial. A sua origem foi no Oriente e foi adotada no Ocidente no tempo do Papa Sérgio I (650-701). A participação num Congresso Eucarístico Internacional é sempre uma experiência forte da catolicidade da Igreja.

Fernando Pessoa afirma luminosamente: «Minha pátria é a língua portuguesa» (Livro do Desassossego). Na realidade, como afirma Virgílio Ferreira: «... uma língua é o lugar donde se vê o mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação». Todas as línguas exprimem a fé em toda a terra.

Todavia, na diversidade das línguas e culturas é que se encontra a unidade da fé da Igreja una, santa, católica e apostólica. A língua comum manifesta-se no bem comum da pertença ao Evangelho. Por isso, o essencial do Evangelho acontece no encontro em Cristo, no qual tem uma presença determinante a do coração materno da Virgem Santa Maria.

Caros irmãos e irmãs: é preciso acreditar e amar a Igreja, serva e esposa de Jesus Cristo! Que «num mundo dilacerado pela discórdia, a vossa Igreja resplandeça como sinal profético de unidade e concórdia» (Oração Eucarística V/A).

 

3. Todas as minhas fontes estão na Eucaristia

O Congresso tem como tema: «Todas as minhas fontes estão em Ti» (Sl 87,7). A Eucaristia, fonte da vida e da missão da Igreja.

O Papa Francisco impele-nos a uma cultura eucarística, onde se evidenciem as atitudes: da comunhão, do serviço, da misericórdia: «capaz de inspirar os homens e as mulheres de boa vontade nos âmbitos da caridade, da solidariedade, da paz, da família, do cuidado da criação».

A partir do Salmo 87, que canta com entusiasmo a grandeza de Jerusalém, mãe de todos os povos; o misterioso prodígio da fonte, que é “dançado e cantado” conduz-nos, ao mesmo tempo, ao território bíblico largamente desértico, onde a água faz a diferença entre a vida e a morte. Por isso, as fontes são o sinal da presença de Deus.

A Liturgia, sobretudo a Eucaristia, é apresentada no Concílio Vaticano II como «fonte e vértice da vida da Igreja» (Sacrosanctum Concilium 10). E, São João XXIII gostava de aplicar à Liturgia a imagem da fonte: «ela é como que a fonte da aldeia, na qual todas as gerações vêm beber a água sempre viva e fresca». É também um ponto culminante, porque toda a atividade da Igreja tende para a comunhão de vida com Cristo, sendo na Liturgia que a Igreja manifesta e comunica aos fiéis a obra da Salvação, realizada por Cristo de uma vez para sempre.

Que este 52º Congresso Eucarístico Internacional seja um autêntico sinal de fé, de esperança e de caridade para a unidade a paz na Europa e em todo o mundo, porque a Eucaristia é sacramento que forma o corpo eclesial e é «fonte e centro de toda a vida cristã» (Lumen Gentium 11).

 

+ José Manuel Cordeiro, Bispo de Bragança-Miranda                    

Delegado da CEP aos Congressos Eucarísticos Internacionais
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Fotografia: Delfim Machado/SNL