Nota Pastoral "Caminhamos unidos na Esperança" | Diocese Bragança-Miranda

Com alegria concluímos o primeiro ano de um triénio (2023-26), que tem como objetivo geral: Caminhar juntos para sermos igreja sinodal de todos e para todos. Peregrinar unidos para anunciar, celebrar e testemunhar a alegria e a esperança do Evangelho.

Passou o primeiro ano do meu ministério episcopal na diocese de Bragança-Miranda. Desejo agradecer-vos o acolhimento, a oração e o empenho comum em oferecermos a todos a alegria e a esperança do Evangelho. Esta primeira etapa foi, essencialmente, de aprendizagem. Tenho procurado aprender a ser bispo, escutando a Palavra e o Povo de Deus, nos múltiplos encontros por toda a Diocese, particularmente no âmbito da Visita Pastoral. Têm sido muito importantes e reconfortantes os encontros mensais, em cada arciprestado, com os estimados padres e diáconos.

Gostaria de sublinhar a importância dos grupos que surgiram ao redor da Palavra, a que chamamos “Grupos Semeadores da Alegria”, bem como a eleição e a constituição dos diversos conselhos e organismos de corresponsabilidade, sem os quais não é possível ser igreja sinodal, missionária e samaritana. Com toda a diligência estudaremos e procuraremos pôr em prática tudo o que o Documento Final do Sínodo sobre a sinodalidade nos propõe.

Não poderemos esquecer, neste novo ano pastoral, a oração intensa, confiante e perseverante, pessoalmente, em família e em comunidade, pelas vocações sacerdotais, à vida consagrada e à vida matrimonial.

Agradeço a todos os que generosamente colaboram nas comissões, secretariados e organismos diocesanos e paroquiais. Não é somente um trabalho de voluntariado, mas sim missionário! Peço, em nome do Senhor e do nosso povo, criatividade e entusiasmo para “tecermos” os fios da comunhão, da participação e da missão. 

O Jubileu é um tempo de graça e de misericórdia, uma ocasião propícia para a Igreja e para o mundo percorrerem as vias da renovação espiritual e moral. O perdão de Deus, a conversão pessoal e o crescimento na fé são as colunas sobre as quais se apoia o Ano Santo. O amadurecimento na fé é um processo gradual que acompanha o cristão durante toda a sua vida. Alimenta-se na oração, na meditação e vivência da Palavra de Deus, na participação dos Sacramentos e pelo testemunho de vida, pondo em prática as obras de misericórdia.

O Papa Francisco entrelaça a esperança e a misericórdia como chave de leitura da aventura humana, especialmente para este nosso tempo de cerrado nevoeiro de incertezas, ameaças e violências, em que a fé tem algo de decisivo a oferecer, convidando à abertura do coração e à confiança na presença amorosa de Deus que guia os passos e dá sentido e sabor à vida de todos os homens e mulheres de cada época. Como “Peregrinos de Esperança” percorramos o caminho da busca do sentido da vida e para redescobrir o valor do silêncio, do esforço e daquilo que é essencial para uma vida digna e feliz.

No novo ano pastoral, envolvidos pela luz e pela graça do Jubileu 2025, queremos continuar a construir comunidades sinodais missionárias. Tudo faremos para não abandonar nenhuma das comunidades eclesiais, tecendo “artesanalmente” comunidades acolhedoras, unidas e missionárias. Será decisivo que exista em cada paróquia uma Equipa Pastoral e que reunidas estas Equipas Pastorais, se forme o Conselho da Unidade Pastoral.

Temos hoje ainda mais consciência de que a Palavra de Deus é o coração da sinodalidade e o alicerce da vida e da missão da Igreja. A comunidade cristã nasce da Palavra e alimenta-se da Eucaristia. Procuraremos responder adequadamente à sede que, hoje, os diocesanos têm de Deus. Que através do nosso testemunho pessoal e comunitário todos possam ouvir, tocar e ver Cristo Ressuscitado!

 

1.A “Esperança não engana”

 

Na Bula do Jubileu 2025, “A Esperança não engana”, o Papa Francisco escreveu que “a vida é um caminho que precisa de momentos fortes para nutrir e robustecer a esperança” (n. 5).

O Jubileu é um destes eventos oferecidos, neste nosso tempo, para não cairmos na tentação do pessimismo e do desencorajamento que geram resignação e preguiça, ao passo que a esperança acende o desejo e leva a ação. Queremos, portanto, viver e celebrar o Jubileu como “peregrinos de esperança”, percorrendo um caminho que nos afaste da rotina e do deixar correr e nos torne mais audazes no pensar, sentir e agir.

Não se pode viver sem esperança num amanhã melhor. A esperança, a mais pequena das virtudes, mas a mais forte, convida-nos a olhar com olhos novos a nossa existência, sobretudo nos momentos difíceis e a ver a através dos olhos de Jesus, o autor da nossa esperança. A esperança não é simples ilusão, mas uma virtude concreta que nos ajuda a superar os desafios da vida. É preciso que nos interroguemos sempre se somos realmente homens e mulheres de esperança. O que podemos fazer para que cresça em nós esta virtude?

Para viver e celebrar o Jubileu como um tempo de esperança a partir do encontro vivo e pessoal com o Senhor Jesus, tem importância especial a experiência da Peregrinação, da Porta Santa e do Perdão.

 

2.A Peregrinação

 

A Peregrinação, no sentido tradicional de uma viagem até um lugar “santo”, não pode ser esquecida neste Jubileu. O Papa Francisco insiste que deve ser vivida com verdadeiro espírito penitencial, ou seja, com tempos serenos de oração e reflexão, com a possibilidade de celebrar, sem pressa, a Reconciliação Sacramental e a Eucaristia. A peregrinação deverá levar-nos a uma verdadeira mudança de vida para melhor.

Nos números 8 a 15 da Bula do Jubileu, o Papa Francisco aponta “oito sinais de esperança”, que poderão ser outros tantos percursos de peregrinação, ou êxodos para uma vida nova.

O primeiro e, provavelmente, o mais difícil é a paz. Levar auxílio e alento a países em guerra é uma peregrinação muito arriscada, que muda a vida e pode dar remédio às consequências de muitos pecados.

O segundo sinal de esperança são os filhos. Amar a vida e decidir trazer ao mundo um novo filho ou filha é como empreender uma viagem que durará muitos anos, exigirá sacrifícios e dará muita alegria, tendo consciência de que os filhos pertencem a Deus, à vida e à sua vocação. Que os casais da nossa Diocese se abram generosa e decididamente à vida, para que se atenue o inverno demográfico em que vivemos!

O terceiro sinal de esperança é a proximidade para com os reclusos. Trata-se de uma forma de voluntariado que não se pode improvisar, mas quem faz esta peregrinação muda para sempre a própria vida e o modo de se relacionar com as pessoas e com a sociedade.

A quarta peregrinação de esperança pode realizar-se com as pessoas doentes e portadoras de deficiência. A pessoa frágil é dom que Deus nos dá para fazer-nos descobrir e curar as deficiências do nosso coração.

Os jovens, observa o Papa Francisco, são um grande sinal de esperança, mas necessitam de ser ajudados para terem esperança. Acompanhá-los no seu crescimento pode ser a quinta forma de peregrinação, que muda profundamente a vida de quem escolhe dedicar-se à sua formação e trará muitos e bons frutos que se multiplicarão no tempo.

Apoiar os migrantes no longo percurso de inserção é uma peregrinação que certamente muda a vida, pois “era estrangeiro e acolhestes-me” (Mt 25, 35). Poderá ser a sexta forma de peregrinação.

A sétima peregrinação é a proximidade e assistência aos idosos, que “muitas vezes vivem na solidão e na sensação de abandono” (n. 14). Não é assim com todos, pois, felizmente, existem muitas famílias, instituições e atividades que acolhem, cuidam e acompanham os nossos mais velhos. Por vezes, esta peregrinação exige viagens frequentes, pois há distâncias a vencer para visitar os avós, os pais, familiares e amigos. Mas também quando estão fisicamente próximos, ir ao seu encontro e dedicar-lhes tempo é uma obra que lhes leva alegria e esperança e muito agrada a Deus.

O oitavo sinal de esperança indicado pelo Papa Francisco, refere-se aos pobres. Há que, antes de mais, superar a distância que nos separa deles para compreender os seus problemas e juntos procurarmos soluções. Tudo isto pode tornar-se numa peregrinação longa e difícil, pois implica mudança profunda de mentalidade.

A estes oito sinais de esperança poderíamos acrescentar outros. Por exemplo o perdão aos inimigos, não só aos que nos fizeram mal, mas também aos que nos fazem sofrer agora. Tentemos “peregrinar” até eles, dando o primeiro passo, sempre difícil e até arriscado. Se a indulgência é pedir a ajuda de Deus e da Igreja para dar remédio às consequências do nosso pecado, tentar alguma via de reconciliação com quem nos fez ou faz mal é certamente um dos melhores modos de a obter.

 

3.A Porta Santa

 

Nas principais basílicas romanas existe uma porta que se abre somente nos anos jubilares. Trata-se de dar acesso à indulgência, à remissão da pena para si mesmo e para os defuntos; bem como à libertação das consequências dos pecados e, portanto, passagem (Páscoa) para uma vida nova, no louvor a Deus e no serviço aos irmãos.

Não se trata simplesmente de entrar numa Igreja, mas sim entrar num mundo novo, deixando para trás o passado.

O Papa Francisco escreve que deseja “abrir novamente de par em par a Porta Santa para oferecer a experiência do amor Deus, que desperta no coração a esperança segura da salvação em Cristo” (n.6). É este o mundo novo ao qual a Porta Santa dá acesso: a vida vivida com a consciência de sermos filhos amados de Deus e libertados do peso da culpa para que se instaurem, finalmente, novas relações entre nós e com o Senhor.

Atravessando a Porta Santa deixemo-nos abraçar pela misericórdia de Deus e empenhemo-nos a ser misericordiosos para com todos como o Pai é connosco.

O Senhor abre-nos muitas portas que poderão mudar para melhor a nossa vida e o nosso coração, para nos fazer entrar no seu Reino. O Ano Santo pode ser ocasião que o Senhor espera para renovar a nossa vida, para fazer amadurecer os frutos que Ele deseja: confiemos n’Ele!

Ao passarmos a Porta Santa, seja onde for, poderemos rezar com alegria o hino do primeiro capítulo da Carta aos Colossenses: “Libertastes-nos do poder das trevas e transferistes-nos para o Reino do seu amado Filho”.

Quem faz a santa viagem para chegar à Porta Santa (na nossa Diocese será na Catedral de Bragança e na Concatedral de Miranda do Douro) afasta-se do mundo das trevas – o pecado – para entrar no reino da luz e se deixa envolver por um novo esplendor que é a plenitude do perdão, ou indulgência (libertação da culpa e da pena e consciência profunda do amor de Deus e a alegria e esperança que dele deriva).

Em cada um dos doze concelhos da nossa Diocese haverá uma Igreja Jubilar: oásis de misericórdia, onde será possível, em dias e horário devidamente assinalados, celebrar o Sacramento da Reconciliação. Cada arciprestado é convidado a peregrinar à Catedral e a passar pela Porta Santa.

 

4.O Perdão (Indulgência)

 

A fé cristã não permite que banalizemos o perdão. Pelo contrário, o Código de Direito Canónico é provavelmente o único que distingue o perdão da remissão da pena. É esta distinção que funda a tão contestada e historicamente polémica doutrina das indulgências.

O Catecismo ensina (nn. 1471-1479) que o Sacramento da Reconciliação perdoa e redime os pecados; mas não a pena, ou seja, o castigo. Não tenhamos medo de usar esta incómoda palavra, que hoje parece cancelada do vocabulário religioso e até familiar e educativo.

Como é que se pode falar de uma pena ou de um castigo, se já recebemos o perdão? Então Deus é bom e misericordioso só até certo ponto?

A um terrorista, pelo facto de receber o perdão dos familiares de uma sua vítima, não é reduzida a pena de prisão. Assim aconteceu com São João Paulo II que, logo que as forças lhe permitiram, foi pessoalmente dar o perdão a Ali Agca, que tinha disparado sobre ele, na Praça de São Pedro, no dia 13 de maio de 1981. Foi perdoado pelo Papa e continuou na prisão a cumprir a pena.

A finalidade da pena, também a humana, deverá ser redentiva: conduzir quem errou a tornar-se numa pessoa melhor.

O pecado que cometemos tem sempre consequências negativas em nós e nos outros. Faz sempre vítimas! Temos necessidade da ajuda de Deus e da Igreja para que as consequências do mal realizado sejam anuladas dentro e fora de nós. Só o poder misericordioso de Deus e da Igreja dá remédio às consequências do mal que cometemos, não chega o nosso esforço ou boa vontade. Através da indulgência plenária, torna-se visível e tangível, em cada um de nós, a redenção operada pelo Senhor Jesus.

Para receber a indulgência plenária requerem-se o desapego total do pecado e cumprir, mesmo em dias sucessivos, três condições: a confissão sacramental, a comunhão eucarística e a oração pelas intenções do Santo Padre.

Tudo isto deverá levar-nos a uma profunda mudança de vida, a um novo modo de ser, como filhos amados de Deus Pai, irmãos de todos e cidadãos que caminham, lado a lado, com todos os homens e mulheres de boa vontade. Tudo isto é simbolizado na “Porta Santa”.

 

É esta a esperança para a qual nos exorta veementemente o Papa Francisco: uma renovada fé em Deus que pode mudar para melhor a nossa vida e a do mundo sombrio e violento em que vivemos. Uma fé que nos ajude a crescer na virtude da paciência (cf. n.4) connosco e com os outros, nas provas do tempo presente.

Que o Jubileu seja milagre de salvação, reconhecendo-nos família de famílias a quem Cristo doa o perdão e a reconciliação. Ao passar a Porta Santa, rezemos com fé:

 

Pai que estás nos céus,

a fé que nos deste no

teu filho Jesus Cristo, nosso irmão,

e a chama de caridade

derramada nos nossos corações pelo Espírito Santo

despertem em nós a bem-aventurada esperança

para a vinda do teu Reino.

 

A tua graça nos transforme

em cultivadores diligentes das sementes do Evangelho

que fermentem a humanidade e o cosmos,

na espera confiante

dos novos céus e da nova terra,

quando, vencidas as potências do Mal,

se manifestar para sempre a tua glória.

 

A graça do Jubileu

reavive em nós, Peregrinos de Esperança,

o desejo dos bens celestes

e derrame sobre o mundo inteiro

a alegria e a paz do nosso Redentor.

A ti, Deus bendito na eternidade,

louvor e glória pelos séculos dos séculos. Ámen.

(Papa Francisco)

 

+Nuno Almeida

Bispo de Bragança-Miranda