A santidade é um caminho de peregrinos | Diocese Bragança-Miranda

Homilia da solenidade de santa Joana, padroeira da cidade e da Diocese de Aveiro. Presidiu à Eucaristia o Bispo de Aveiro, D. António Moiteiro e, excepcionalmente, D. José Cordeiro fez a homilia. Esteve presente na celebração festiva uma delegação de 5 pessoas da Paróquia de Salselas, Unidade Pastoral Santo Ambrósio.

A santidade é um caminho de peregrinos

A bela imagem da capela de Santa Joana, princesa de Portugal, em Salselas, na Unidade Pastoral de Santo Ambrósio e a pintura no teto da igreja matriz em Marzagão na Unidade Pastoral de Ansiães unem a nossa Diocese de Bragança-Miranda com a Diocese e a cidade de Aveiro.

Santa Joana representa a vocação à santidade de todos os cristãos e de todas as épocas culturais em Portugal e na catolicidade da Igreja. O Beato papa Paulo VI, em 5 de Janeiro de 1965, em pleno II Concílio do Vaticano, constituiu-a oficialmente como padroeira da Cidade e da Diocese de Aveiro.

No Martiriológio Romano podemos ler: «Beata Joana de Portugal, virgem, filha do rei Afonso V, que, recusando repetidamente as núpcias, preferiu servir na Ordem dos Pregadores, tornando-se refúgio dos pobres, dos órfãos e das viúvas e, depois de uma vida de extraordinária piedade, morreu no mosteiro dominicano de Aveiro, cidade de Portugal (+1490)».

1.Peregrinos do Bem supremo

S. Paulo recorda-nos ao escutar a segunda leitura desta liturgia solene: «Considero todas as coisas como prejuízo, comparando-as com o bem supremo, que é conhecer Jesus Cristo, meu Senhor» (Fil 3, 8).

Conhecer Jesus Cristo significar amá-Lo, escolhe-Lo e segui-Lo e ainda amar como Ele amou. Sim, «Porque, quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la» (Mt 16, 25).

A santidade funda-se na vontade de Deus em Jesus Cristo, na vida de todos os dias na alegria, no trabalho, na oração, na gratidão e na ação de graças (cf. 1 Ts 5, 16-18). Para ser santo não é preciso fazer coisas estranhas. A vontade de Deus é expressa em toda a Bíblia, desde o Génesis ao Apocalipse, bem saliente na afirmação «criou-os à Sua imagem e semelhança» (Gn 1, 26).

2. Amados por Deus, a vida dos Santos

A Igreja é comunhão dos santos, não obstante o nosso egocentrismo, orgulho, individualismo e resistências. «Hoje como nunca, urge que todos os cristãos retomem o caminho da renovação evangélica, acolhendo com generosidade o convite apostólico de “ser santos em todas as ações”» (J. Paulo II).

A vocação à santidade é o testemunho maior da dignidade cristã e conduz à perfeição da caridade ou da misericórdia. Igualmente a vocação à santidade anda de mãos dadas com a Palavra de Deus e com a missão. Por isso, o Evangelho difunde-se quando os seus servidores se convertem, porque a vontade de Deus é a nossa santificação, como no-lo apresenta eloquentemente a Constituição sobre a Igreja Lumen Gentium, no feliz capítulo quinto sobre a vocação de todos à santidade: «todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: “esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1 Tes. 4,3; cf. Ef. 1,4)» (nº 39).

A vida cristã só tem sentido como vida em Cristo. Deus é o Santo e, na Sua santidade, somos chamados à mesma santidade de vida. Isto mesmo reza a Igreja na Liturgia: «Vós Senhor sois verdadeiramente Santo, sois a fonte de toda a santidade» (Oração Eucarística II). Deus é a vida dos Santos.

A finalidade é a de agradar a Deus, que significa fazer a sua vontade, praticando os ensinamentos de Jesus. Deus tem o seu agrado e a sua alegria na santificação e no amor que lhe dá o homem e que o homem acolhe no seu coração.

3. Queres fazer-te santo?

A santidade é o máximo desenvolvimento da graça do Batismo. S. João Paulo II, na carta apostólica Novo Millennio Ineunte escreveu: «Em primeiro lugar, não hesito em dizer que o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade. (…) Assim, é preciso redescobrir, em todo o seu valor programático, o capítulo V da Constituição dogmática Lumen Gentium, intitulado “vocação universal à santidade”. (…) Pode-se porventura “programar” a santidade? Que pode significar esta realidade na lógica dum plano pastoral? Na verdade, colocar a programação pastoral sob o signo da santidade é uma opção carregada de consequências. Significa exprimir a convicção de que, se o Batismo é uma verdadeira entrada na santidade de Deus através da inserção em Cristo e da habitação do seu Espírito, seria um contrassenso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial. Perguntar a um catecúmeno: “Queres receber o Batismo?” Significa ao mesmo tempo pedir-lhe: “Queres fazer-te santo?” Significa colocar na sua estrada o radicalismo do Sermão da Montanha: “Sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste” (Mt 5,48)» (nn. 30-31).

O Beato Bartolomeu dos Mártires, O Arcebispo Santo de Braga, dominicano tal como Joana de Aveiro, escreveu no catecismo e práticas espirituais. «Esta Igreja, como temos dito, se conhece e distingue pelas ditas cinco condições e sinais: una, santa, católica, apostólica e comunicação de Santos. (…) O quinto e último sinal da Igreja Católica é haver nela a comunhão ou comunicação de Santos, que quer dizer que nesta Companhia e família de jesus Cristo estamos todos unidos como membros, pelo que, assim como os membros de um mesmo corpo se ajudam uns aos outros, assim também todos os Cristãos se ajudam e comunicam entre si suas orações e merecimentos».

A santidade é um caminho e não um estado. A confiança no caminho nasce da fonte da santidade, isto é, a misericórdia de Deus. Tudo o que era velho passou, porque o Senhor diz: «Vou renovar todas as coisas» (Ap 21,5). E a Páscoa acontece, pois pela Sua graça passamos de pecadores a justos e de tristes a muito felizes.

+ José Manuel Cordeiro