Homilia de D. Nuno Almeida na Eucaristia no Aniversário de nascimento do prof. Adriano Moreira | Diocese Bragança-Miranda

XXIII DOMINGO COMUM A 2026

Eucaristia no Aniversário de nascimento do prof. Adriano Moreira

Sé de Bragança, 05.09.2026

HOMILIA

Irmãos e Irmãs!

Recordamos hoje, no aniversário de nascimento (104 anos), um português ilustre de Trás-os-Montes, originário de Grijó de Vale-Benfeito, Macedo de Cavaleiros.

Trazermos à nossa memória e coração o Prof. Adriano Moreira para agradecermos a quem sempre alimentou a esperança de fazer convergir os valores da História com as exigências do presente e do futuro.

Juntos agradecemos a Deus o Dom e os dons da vida concedidos ao Prof. Adriano Moreira e tudo o que nos legou pela sua palavra, gestos e ação.

O Prof. Adriano Moreira continua, através dos seus escritos e testemunho, a ajudar-nos a compreender melhor o mundo em que vivemos. As suas palavras foram proféticas e continuam a iluminar o caminho a seguir.

Saúdo, em primeiro lugar, a Dra. Mónica, esposa do Prof. Adriano Moreira, bem como o seus filhos e sobrinha. É sempre uma grande honra e alegria reencontrarmo-nos neste dia de aniversário.

Saúdo o Eng. Jorge Nunes; Autoridades e Entidades, os sacerdotes, diácono, o seminarista e todos os presentes, queridos irmãos e irmãs!

 

1.Ao celebrarmos o domingo, o primeiro dia da semana, sentimos o apelo do encontro com o Senhor e do reencontro com os irmãos. Olhando-nos uns aos outros, aqui reunidos, podemos exclamar, como o salmista: “Ó como é bom e agradável viverem os irmãos bem unidos” (Sl 133/132,1), porque, como escutámos no Evangelho proclamado, “onde dois ou três se reunirem em Meu nome — disse Jesus — Eu estarei no meio deles” (Mt 18,20). Mas, ao olharmos para o nosso lado, sentimos também a falta de quem não veio, de quem desertou, de quem desistiu ou se zangou. Somos todos chamados a sair ao encontro de cada irmão, para o atrair para Cristo, para o reconduzir à alegria da comunhão. Este podia ser então o nosso duplo propósito de setembro: voltar à comunidade e trazer de volta o irmão! “Traz um amigo também!”: cantava José Afonso …!

 

2.O lugar privilegiado do nosso encontro com o Senhor é a comunidade, unida e reunida em Seu nome. Não encontramos Cristo à margem do seu Corpo: encontramo-Lo no meio da Igreja reunida, na Palavra escutada em comum, na Eucaristia celebrada com os irmãos, na oração concorde, no serviço partilhado e no rosto concreto de quem caminha ao nosso lado.

É tempo de voltar à comunidade: à oração comum, à Eucaristia dominical, aos grupos, aos serviços e à missão. É preciso ter a coragem de sair de casa, de se levantar do sofá, de sair de nós mesmos. Vençamos a tentação de uma fé virtual, à distância.

A nossa fé precisa de corpo, de rosto, de mãos se apertam com calor, de assembleia, de mesa, de palavra,  pão e perdão (os famosos três pês, bens de primeira necessidade para a vida pessoal, familiar e da comunidade). Voltemos à comunidade Paroquial!

 

3.Deus confia-nos o outro como irmão: “Coloquei-te como sentinela” (Ez 33,7). Não podemos lavar as mãos, descartando o dever de cuidar da sorte dos irmãos, tornando-nos assim corresponsáveis pelo seu erro! Cada um é constituído guarda e sentinela do seu irmão, não para o vigiar superiormente como acusador, mas para cuidar dele com amor. Na verdade, a chamada de atenção ao irmão, a correção fraterna, não vem da minha superioridade moral sobre o outro. Pelo contrário, alerta-nos São Paulo: “Vigia-te a ti mesmo, não aconteça que sejas tu também tentado” (Gl 6,1). Por isso, a regra suprema da correção fraterna é o amor: aquele amor que suporta com paciência os defeitos, erros e fardos dos outros, aquele amor que repreende e encoraja, que levanta a voz com discrição e ama interiormente. É este amor que devemos uns aos outros (Rm 13,8-10).

Continuam frescas e verdadeiras as palavras do Papa Francisco – a quem o Prof. Adriano Moreira tanto admirava - na “Alegria do Evangelho”: “Sair de si mesmo para se unir aos outros faz bem. Fechar-se em si mesmo é provar o veneno amargo da imanência, e a humanidade perderá com cada opção egoísta que fizermos” (EG 87).

 

4.O Prof. Adriando Moreira usava muitas vezes uma metáfora tirada da vida quotidiana: a do eixo da roda de uma bicicleta. Usava esta imagem para sublinhar o que é comum, os valores comuns da humanidade são este eixo, sem este eixo de valores cresce o caos e multiplicam-se as vítimas: valores morais, de legalidade, de defesa dos mais frágeis, de respeito pela natureza, da valorização e proteção da vida e da dignidade humanas, etc.?

Para o Prof. Adriano Moreira, o Cristianismo não é, simplesmente, um sistema de valores em que se acredita, mas, identitariamente, a realidade de uma pessoa a que se adere (Jesus Cristo) e o seu projeto de vida com o qual se é chamado a identificar. O amor do próximo e o respeito pelo outro não são valores do Cristianismo se não são iluminados pela pessoa de Jesus Cristo, pelo seguimento da sua palavra, e pela conformidade com a sua vida. Amar os outros, respeitar a criação, acolher os estrangeiros, proteger os fracos e deserdados, mais que valores a defender, são compromissos a viver.

É este compromisso, com a pessoa de Jesus Cristo que é específico do cristão.

 

5.O Prof. Adriano Moreira que conhecia bem as Cartas de S. Paulo, sublinha reiteradamente ninguém é superior a ninguém pois tudo o que temos nos foi dado, não é nosso.

No dia de São Francisco de Assis do ano passado, o Papa Leão XIV assinou seu primeiro documento de magistério, intitulado "Eu te amei". “Dilexi te”.

Como aperitivo e convite à leitura e meditação deste documento, aqui ficam algumas passagens: «Todo ser humano é um filho de Deus! Nele está impressa a imagem de Cristo! Trata-se, então, de o vermos, nós, em primeiro lugar, e de ajudar os outros a verem no migrante e no refugiado não só um problema para lidar, mas um irmão e uma irmã a serem acolhidos, respeitados e amados (…).

A Igreja, como mãe, caminha com os que caminham. Onde o mundo vê ameaça, ela vê filhos; onde se erguem muros, ela constrói pontes. Pois sabe que o Evangelho só é crível quando se traduz em gestos de proximidade e de acolhimento; e que em cada migrante rejeitado, é o próprio Cristo que bate às portas da comunidade” (n.75).

“Uma Igreja que não coloca limites ao amor, que não conhece inimigos a combater, mas apenas homens e mulheres a amar, é a Igreja de que o mundo hoje precisa” (n.120).

Todos estes valores e convicções e testemunho podem ser encontrados na vida e na obra do Prof. Adriano Moreira que hoje recordamos com respeito e gratidão e por quem rezamos.

Irmão, irmã: Volta à comunidade! E traz de volta o teu irmão! “Traz um amigo também…!”

 

Senhor, nosso Deus:

Tu fazes de nós sentinelas,

que velam pelo irmão.

Tu fazes de nós guardiães

que cuidam da Criação.

Habita a nossa Casa comum.

Abençoa-nos,

para que cresçamos em família,

no amor de uns pelos outros,

na alegria da comunhão.

Ámen.

 

+Nuno Almeida

Bispo de Bragança-Miranda