Homilia do Padre José Carlos Martins no Encontro de Gerações do concelho de Bragança | Diocese Bragança-Miranda
Ex.ma Senhora Presidente da Câmara M. de Bragança, Sra. Doutora Isabel Ferreira, e permita-me que na sua pessoa saúde todas as demais autoridades autárquicas, civis, académicas, militares e paramilitares;
Ex.mos dirigentes da nossas IPSS s aqui presentes; Caros irmãos sacerdotes e reverendos Diáconos,
Queridos idosos, meus irmãos e minhas irmãs:
Quero em primeiro lugar saudar afetuosamente a todos e a cada um de vós, e simultaneamente trazer-vos um caloroso abraço da parte de SER o Sr. D. Nuno Almeida, nosso bispo que por motivos de agenda não pode estar aqui convosco e me pediu que o representasse.
Que alegria tão profunda inunda hoje o nosso coração! Estamos reunidos neste belíssimo Santuário de Santa Ana, aqui em Meixedo, para celebrar a vida, a fé e o dom da partilha neste Encontro de Gerações do concelho de Bragança. Olhar para esta assembleia é contemplar um espelho da própria Igreja: uma família de famílias, onde a juventude e a senioridade se abraçam, onde o passado de fidelidade se encontra com o presente de gratidão e o futuro de esperança.
Saúdo mais uma vez com imenso afeto cada um de vós, queridos idosos, vindos dos nossos lares e das vossas casas. Saúdo as vossas famílias, que trazem o aconchego do sangue e do afeto, e saúdo, com particular reverência, todos os cuidadores – profissionais das nossas IPSS, voluntários, técnicos e auxiliares – que transformam o dia a dia das vossas vidas numa liturgia contínua de amor e dedicação. Estarmos aqui, sob o olhar terno de Santa Ana, a avó de Jesus e padroeira dos avós, recorda-nos que ninguém caminha sozinho. A santidade e a vida constroem-se na transmissão do amor de geração em geração.
A Palavra de Deus que hoje escutámos, neste XI Domingo do Tempo Comum, parece ter sido escrita de propósito para este nosso encontro. Ela fala-nos de cuidado, de pertença, de raízes e de uma missão que nunca termina, independentemente da nossa idade ou das nossas limitações físicas.
Na primeira leitura, retirada do Livro do Êxodo, Deus dirige-se ao Seu povo com uma imagem de uma beleza poética extraordinária: “Vistes o que Eu fiz e como vos transportei sobre asas de águias para vos trazer até mim”. Queridos idosos, se olhardes para trás, para a longa estrada que já percorrestes nas vossas vidas – pelas terras deste nosso belo Nordeste Transmontano, a lavrar a terra, a criar os filhos, a sustentar os lares com tanto sacrifício – podereis reconhecer que foi Deus quem vos carregou nas Suas asas nos momentos m ais difíceis. Mas há também outra verdade nesta leitura: para as vossas famílias, para os vossos filhos e netos, vós fostes as águias. Fostes vós que, com o vosso trabalho, com as vossas renúncias e com a vossa oração abristes as asas para proteger e lançar as novas gerações rumo ao futuro. A vossa sabedoria e a vossa resiliência são o alicerce daquilo que Bragança é hoje. Por isso, a nossa primeira palavra só pode ser uma: OBRIGADO! Obrigado por terdes siso asas para nós.
Hoje, contudo, a vida convida-vos a uma nova etapa. No plano de Deus, ninguém deixa de ser útil. S. Paulo, na segunda leitura, deixa-nos uma garantia maravilhosa: “A prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”. O amor de Deus por cada um de nós não depende da nossa força física, da nossa agilidade ou de quantos bens conseguimos produzir. A sociedade do descarte, tantas vezes criticada pelo Papa Francisco, avalia as pessoas pela sua produtividade. Mas Deus Não. Deus avalia pelo coração. Quando o corpo enfraquece, quando os passos se tornam mais lentos ou a memória falha, a vossa dignidade permanece intacta e absoluta aos olhos do Pai. A vossa missão hoje, nos lares ou no seio das famílias, é uma missão de altíssimo valor: sois os guardiões da memória, os mestres da paciência e as colunas da oração da nossa diocese. A vossa oração silenciosa e o vosso sorriso sustentam o mundo.
E é precisamente olhando para a fragilidade humana que o Evangelho de S. Mateus nos revela o Coração de Jesus. Diz o texto que Jesus, ao ver as multidões, “encheu-se de compaixão por elas, porque andavas fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor”. Que imagem forte! Quantas vezes, queridos idosos, no silêncio do vosso quarto ou na dor da solidão, não vos sentistes também casados e abatidos? Quantas vezes a saudade dos tempos que já não voltam ou a marca da doença não pesam no vosso peito? Jesus vê-vos. Ele conhece cada uma das vossas dores e enche-se de profunda compaixão por vós.
Mas Jesus não fica apenas a olhar. Diante da multidão cansada, Ele diz aos Seus discípulos:” a seara é grande e o cansaço é muito, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a Sua seara”. E. logo de seguida, chama os doze e envia-os a curar os doentes e a aliviar os seus sofrimentos.
Meus irmãos, este mandato de Jesus ganha carne e osso na vida de cada cuidador e familiar aqui presente. Vós sois os braços de Jesus que curam e aliviam hoje. Quando entrais num quarto de um alar para mudar uma cama, para dar uma refeição, para administrar um medicamento ou, simplesmente, para escutar pela décima vez a mesma história com um sorriso no rosto, vós estais a cumprir o Evangelho. O vosso trabalho não é apenas uma profissão; é uma vocação sagrada. É um ministério de amor. Vós sois os pastores que Jesus envia para que estas ovelhas tão amadas não se sintam esquecidas. Sabemos que o vosso dia a dia é exigente, que a paciência é testada até ao limite e que o cansaço físico e emocional abate à porta. Por isso, neste Santuário, pedimos a Santa Ana que interceda por vós, que renove as vossas forças e que vos dê um coração sempre cheio de ternura. Cuidar de quem já cuidou de nós é a maior prova de nobreza humana e cristã.
Aos familiares, deixo um apelo do fundo do coração: não permitais que a correria da vida vos afaste dos vossos idosos. O melhor remédio contra a solidão não são os comprimidos, é a presença. Um telefonema, uma visita ao lar, uns abraços apertados ao Domingo valem mais do que qualquer ouro ou prata. Eles deram-vos o tempo deles quando éreis crianças; dai-lhes agora o vosso tempo na sua velhice.
Querida comunidade de Bragança, este Encontro de Gerações não é apernas uma festa de um dia. É um compromisso que levamos daqui, do Santuário de Santa Ana em Meixedo. O compromisso de edificar uma comunidade onde os mais velhos sejam escutados, os cuidadores sejam valorizados e os mais novos aprenda a arte da gratidão.
Que Santa Ana, que soube acolher e educar a Virgem Maria, acolha hoje as preces de todas as nossas famílias e das nossas instituições. que ela vos abençoe com saúde, com paz e acima de tudo, com a certeza de que sois profundamente amados por Deus.
Santa Ana e S. Joaquim, rogai por nós!
Padre José Carlos Martins, Arcipreste de Bragança
14.06.2026, Santuário de Santa Ana, Meixedo
Fotografia: Rádio Brigantia





