Homilia D. José Cordeiro | Bênção do órgão da Catedral - 19.12.2021 | Diocese Bragança-Miranda

«Órgão, instrumento sagrado,

leva o conforto da fé a todos os que vivem na dor e no sofrimento»
IV Domingo do Advento – Catedral, 19 dezembro 2021

 

1. Maria evangelizadora missionária

O Amor corre! Aquele Amor que «faz mover o sol e as outras estrelas» (Dante Alighieri). Disto é testemunha acreditada, a Virgem Santa Maria. A Jovem Maria tem pressa em constatar o sinal recebido pelo Anjo na anunciação e dar a Boa notícia urgente à sua prima, a velha Isabel. As duas mulheres da esperança são mensageiras de vida cheia.

A visitação transfigura o coração para correr apressadamente. Corremos juntos para a mesma meta: evangelizar. Este processo envolve-nos a todos, especialmente aos adolescentes e jovens, no caminho esperançoso da JMJ, Lisboa 2023.

Conforme escutámos: «Maria levantou-se, foi apressadamente para a montanha...». A vida é peregrinação! Levantar-se, caminhar, saudar, amar, louvar, participar, servir, agradecer e reconhecer a presença de Deus nos outros, são verbos dinâmicos da comunhão missão.

Além disso, do coração desta jovem grávida explodiu o belo cântico do Magnificat com vibrante ação de graças, nos inícios de uma vida marcada pelo sofrimento e pela alegria, da morte do filho e sua Ressurreição.

Nós começamos a existir no corpo de uma mulher – a mãe. Jesus, também, como reconheceu Isabel: «donde me dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor». O corpo é o lugar da habitação de Deus. A Senhora Mãe das Graças, a evangelizadora missionária de “coração em saída” é modelo da hospitalidade e acolhimento. Onde há fé, há liberdade e gratuidade para servir com amor incondicionado, sem “se” nem, “mas”.

 

2. Uma passagem entre o céu e a terra

O órgão da Catedral que hoje benzemos e inauguramos mostra-nos, antes de mais, a atitude do orante e contemplativo – está em silêncio durante a escuta da Palavra.

Após um longo, paciente e persistente caminho, o grande órgão da Catedral é uma obra admirável! O Papa Francisco disse recentemente: «A beleza não é a ilusão fugaz de uma aparência ou um ornamento: ao contrário, brota da raiz de bondade, de verdade e de justiça, que são os seus sinónimos. Mas não devemos deixar de pensar e falar de beleza, pois o coração humano não precisa unicamente de pão, não tem necessidade só daquilo que garante a sua sobrevivência imediata: precisa também de cultura, daquilo que toca a alma, que aproxima o ser humano da sua profunda dignidade. Por isso, a Igreja deve dar testemunho da importância da beleza e da cultura, dialogando com a particular sede de infinito que define o ser humano».

Bragança continua a capacitar-se para uma cada vez maior oferta cultural de excelência. Todos os que nos visitarem para escutar o órgão de tubos, escutarão uma voz de justiça e de paz, porque a cultura tem uma função social: «a Igreja recorda a todos que a cultura deve estar orientada para a perfeição integral da pessoa humana, para o bem da comunidade e de toda a sociedade humana. É, por isso, necessário cultivar o espírito para que se desenvolva a capacidade de admiração, de intuição, de contemplação e de formar um juízo pessoal e cultivar o sentimento religioso, moral e social» (Gaudium et Spes 59).

Alegramo-nos com a celebração da bênção e inauguração do órgão de tubos da igreja Catedral de Bragança-Miranda, casa aberta a todos. A igreja Catedral fica agora mais bela e mais capaz de celebrar, com a nobre simplicidade da exultação da confissão da fé, o culto divino. Ao mesmo tempo, o culto divino abraça a cultura humana nas dimensões da arte e da alma que a Liturgia celebra nos mistérios da fé.

A igreja Catedral, igreja mãe e o centro de convergência da Diocese, assume um serviço inteiro: catequese, culto, caridade e cultura. Com efeito, a Catedral é a casa para todos, «O culto arranca-nos da bolha sufocante do nosso próprio ser. Rejeita o narcisismo e a autocontemplação. Liberta-nos de um egoísmo complacente e expressa a nossa relação fundamental de uns com os outros (...) uma casa verdadeiramente humana tem as portas abertas, dando as boas-vindas ao estranho. A liturgia abre uma porta para a transcendência, uma passagem entre o céu e a terra» (T. Radcliffe).

Nas celebrações litúrgicas, a arte musical tem como fim principal a glorificação de Deus e a santificação dos homens. Por isso, o som do órgão, o melhor dos melhores instrumentos, é um sinal eminente do cântico novo que devemos cantar a Deus na harmonia universal da criação. A música, a música sacra, a musica sacra litúrgica do som do grande órgão de tubos está nos caminhos da demanda do essencial. A música é linguagem da Esperança! A Igreja é um povo que canta, porque «cantar é próprio de quem ama» (Santo Agostinho).

Agradecemos a todos os que tornam possível a beleza da Liturgia e da cultura universal. Manifestamos a nossa gratidão: ao Governo de Portugal; à Secretaria de Estado para a valorização do Interior; à Comissão de Coordenação da Região Norte; à Direção Regional de Cultura do Norte com o programa “Rota das Catedrais a Norte”; à Câmara Municipal de Bragança; ao Colégio dos Consultores e outros organismos de participação e comunhão na missão da Diocese numa feliz colaboração recíproca para a construção do Bem comum e a dignidade integral e integrada da pessoa humana. O órgão de tubos é um bem cultural comum ao serviço de todos, acrescentando mais valor ao inestimável património cultural, artístico, histórico e espiritual da nossa cidade e Diocese.

Bem-hajam! Muito obrigado pela coragem criativa e visão: Dr. Hernâni Dias; P. José Bento; Dr. Luís Teixeira; Mons. Agostinho Borges; Giampaolo di Rosa; P. Paulo Pimparel; Diác. Emílio Falcão; Prof. Francisco Cepeda; Dr. Manuel Pereira; Dr. Marcolino Gonçalves; o Eng. Jorge Nunes pelo aconselhamento aos membros do Conselho Diocesano dos Assuntos Económicos; P. António Magalhães e Seminário de São José; P. Sobrinho Alves; P. Pedro Ferreira; Dr. Hélder Pires, Equipa Pastoral da Catedral e à Casa Organaria de Zanin Francesco.

Que o som do órgão de tubos contribua para renovar os caminhos já percorridos e aqueles ainda não trilhados para prosseguirmos firmes na fé, alegres na esperança e generosos no amor.

A Igreja sempre cultivou a música. Quando a Igreja reza e canta, Cristo está presente (cf. Mt 18, 20), manifestando-se melhor a fé celebrada na Liturgia da Igreja. Contudo, não basta que uma música seja bela aos ouvidos para se cantar na Liturgia. Nem tudo pode ser cantado ou tocado, ou seja, «verdadeiramente, em liturgia, não podemos dizer que tanto vale um cântico como outro» (Bento XVI, Sacramentum Caritatis 42).

A música é um caminho para dizer Deus. É muito acertado o que muitos experimentam: «A música, a literatura, a arte são elementos preciosos para reencantar os corações» (M. C. Bingermer).

São Bento, padroeiro da nossa querida Diocese, diz claramente na regra dos Monges acerca a maneira de salmodiar, ou seja, de cantar: «que o nosso espírito concorde com a nossa voz».

O canto e a música, que são arte sacra e ação litúrgica, sejam a expressão da maior glória de Deus e da santificação dos fiéis no Mistério da Liturgia com nobre simplicidade e sóbria beleza. O culto e a cultura nos confirmem nos caminhos da fraternidade universal e da amizade social, porque Cristo é a nossa Paz e a nossa Esperança.

+ José Manuel Cordeiro

Fotografia: Irene Rodrigues/Secretariado diocesano das Comunicações Sociais