Homilia da Eucaristia de Ação de Graças pelos 100 anos do nascimento de Camilo António de Almeida Gama Lemos de Mendonça | Diocese Bragança-Miranda

Ação de Graças pelos 100 anos do nascimento

de Camilo António de Almeida Gama Lemos de Mendonça

Vilarelhos, UP São Bartolomeu dos Mártires, 9.7.21 (23.7.1921)

 

            Hoje, ao celebrarmos a Liturgia ressoa o canto e a música da gratuidade do dom do justo que emprega os seus bens com generosidade para o desenvolvimento integral do Bem comum e da Casa comum –  A salvação dos justos vem do Senhor –  assim o cantamos no refrão do salmo. Todavia, e por este motivo, no discurso missionário Jesus relembra aos discípulos as dificuldades da missão: «envio-vos como ovelhas para o meio de lobos. Portanto, sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas» (Mt 10, 16). Na complexidade da vida, a astúcia da serpente e a simplicidade da pomba mostram a limpidez da verdade em que acredita e se testemunha, amando e servindo.

Em tão nobre simplicidade da justa, porque lhe é devida, memória a um grande da nossa terra, sabe bem lembrar a ecologia integral aqui em Vilarelhos, onde sentimos neste vale da Vilariça que: «tudo é carícia de Deus. A história da própria amizade com Deus desenrola-se sempre num espaço geográfico que se torna um sinal muito pessoal, e cada um de nós guarda na memória lugares cuja lembrança nos faz muito bem. Quem cresceu no meio dos montes, quem na infância se sentava junto do riacho a beber, ou quem jogava numa praça do seu bairro, quando volta a esses lugares sente-se chamado a recuperar a sua própria identidade» (Francisco, LS 84). Ter um chão e um horizonte faz-nos sonhar e experimentar a felicidade.

No propósito de São Paulo VI, o Papa Francisco sublinha muitas vezes que: «A política é a forma mais alta, maior, da caridade. O amor é político, isto é, social, para todos». O reconhecimento agradecido a um transmontano local e global, nascido há 100 anos e falecido com 63 anos, deixa marcas tão positivas que hoje respondem a uma vasta obra concretizada e muita por realizar: «Passados alguns anos, ao refletir sobre o próprio passado, a pergunta não será: “Quantos me aprovaram, quantos votaram em mim, quantos tiveram uma imagem positiva de mim?” As perguntas, talvez dolorosas, serão: “Quanto amor coloquei no meu trabalho? Em que fiz progredir o povo? Que marcas deixei na vida da sociedade? Que laços reais construí? Que forças positivas desencadeei? Quanta paz social semeei? Que produzi no lugar que me foi confiado?”» (Francisco, FT 197).

Podemos responder com a dimensão contemplativa da vida que o jovem poeta Daniel Faria, nascido há 50 anos e falecido com apenas 28 anos, escreveu:

            «Homens que são como lugares mal situados

            .... Homens de cabeça aberta exposta ao pensamento

            Livre. Que se vêm devagar abrir

            Um lugar onde amanheça.

            Homens que se sentam para ver uma manhã

            Que escavam um lugar

            Para a saída».

            O Eng. Camilo Mendonça pertence aos grandes deste traço diferenciador. Precisam-se pessoas que são como lugares mais situados! Precisam-se pessoas que sonhem em grande! Precisamos de sonhar juntos um futuro melhor!

            Deus é próximo como escutámos no diálogo com Jacob: «Eu sou Deus, o Deus de teu pai. Não tenhas medo... Eu próprio descerei contigo... Eu próprio te farei regressar». Sejamos seus colaboradores na obra da criação, na partilha do pão da fraternidade universal, na amizade social pelos caminhos da justiça e da paz.

+ José Manuel Cordeiro

 

Fotografia: Presidência da República