[1]Sex, 25/03/2016 - 17:26
Alocução Sexta-feira santa, 25.03.2016
Relembremos o que significa a Misericórdia: é a combinação do verbo misereor (tenho compaixão e tenho piedade) com o termo cor (coração).
1. A santa casa de Bragança
Em 2018 celebraremos o Jubileu da Santa Casa da Misericórdia de Bragança – 500 anos. Criada em 1518, para fazer bem sem olhar a quem. Este dito popular traduz a nobre missão e desafiante vocação desta casa, ontem, hoje e amanhã. O grande Mons. José de Castro, ilustre membro do Presbitério de Bragança-Miranda, cujos aniversários, o centésimo trigésimo do nascimento e o cinquentenário da morte celebraremos em 2016, escreveu um livro em 1948 sobre «a santa casa de Bragança» e dedicou-o «à queridíssima e veneranda memória do Padre Francisco Manuel Alves – Abade de Baçal – o maior bragançano de todos os tempos». E acrescenta o Mons. Castro: «Diga-se agora o que todos sabem. Este sábio era padre, um padre de iniciativa, amigo do seu povo e da sua classe. Neste padre, um sábio e uma pessoa de bem».
Mons. José de Castro afirma: «Santa porque é filha de Deus. (…) Casa da Misericórdia porque alimentada pelo coração em proveito dos necessitados».
Nesta igreja existe o magnífico retábulo de Nossa Senhora da Misericórdia de 1681, 163 anos depois da fundação da santa casa: «teria 33 palmos de altura, (…), com 12 colunas colobrinas, todas revestidas de talha a mais perfeita que daria a arte, com quatro nichos para quatro evangelistas de relevo inteiro com seus timbres, tendo de altura 7 palmos grandes. Ao meio do retábulo e a meio relevo, o painel de Nossa Senhora da Misericórdia com 12 figuras, necessárias para o painel ficar perfeito. No alto do retábulo, um painel da Visitação de Nossa Senhora a sua prima Isabel, em alto relevo, e em cima do painel da Misericórdia com as armas de meio relevo, a figura do Espírito Santo. Em baixo, um sacrário de 4 palmos de altura em proporção, e o banco teria 4 paineis de meio relevo com os 4 passos da Paixão de Cristo nas pilastras. Em cima, e aos lados do alto relevo de Nossa Senhora da Visitação e à frente de 2 colunas colobrinas, as estátuas de São Pedro e São Paulo proporção de altura. Em nicho central, colocar-se-ia o Santo Cristo que seria da casa, imagem da igreja que se reconstruia agora», conforme a descrição de Mons. Castro.
2. Das obras de Misericórdia à Misericórdia das Obras
Continuamos a ser todos convidados a reaprender a gramática básica da Misericórdia. É um grande bem que revivamos concreta e intensamente as 14 obras de Misericórdia:
As sete obras de misericórdia corporal: 1. Dar de comer a quem tem fome 2. Dar de beber a quem tem sede 3. Vestir os nus 4. Dar pousada aos peregrinos 5. Visitar os enfermos 6. Visitar os presos 7. Enterrar os mortos.
As sete obras de misericórdia espiritual: 1. Dar bons conselhos 2. Ensinar os ignorantes 3. Corrigir os que erram 4. Consolar os tristes 5. Perdoar as injúrias 6. Suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo 7. Rezar a Deus por vivos e defuntos.
Na catequese, todas as crianças aprendiam de cor este compêndio de solidariedade cristã, fruto da sabedoria milenar que propõe gestos muito simples para por em prática o tesouro da bondade divina.
Quantas vezes já nos dispusemos a isto? Dediquei mais tempo a Deus na oração, na contemplação, na lectio divina; aos outros na escuta, no voluntariado, na ajuda?
Se não o temos feito, como recomeçar? Temos consciência que ao praticarmos estes gestos é ao próprio Cristo que o fazemos, ou seja, que das obras de misericórdia passamos à Misericórdia das Obras em Cristo?
Todavia, as obras de Misericórdia sem a caridade não bastam e não servem à autêntica fraternidade e à santidade de vida. Sem o amor não somos humanos nem cristãos. S. Paulo adverte: «Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita» (1Cor 13, 3). A caridade dá muito que fazer, porque: «O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, 5nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento.6Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade.7Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta» (1Cor 13, 4-7).
O bem faz sempre bem e nunca faz barulho. O bem não confunde os meios com os fins, porque sabe que o fim é a salvação na cruz ressuscitada e ressuscitadora de Cristo, que me leva a ver, olhos nos olhos, o Pai e os irmãos.
Pelo contrário, o mal faz sempre mal e faz barulho e até mata. Conhecemos pela comunicação mais uma situação dramática no aeroporto e no metro em Bruxelas, onde tantos nossos irmãos e irmãs morreram e estão feridos por causa do terrorismo, cobardia e fanatismo que instalam o medo, a intolerância e a desconfiança. Os meios absolutizados destroem os fins e causam a morte, a vingança, o desespero.
Os meios que tenho (carro, casa, dinheiro, autoridade, oração, tempo, dons, qualidades, capacidades) são fins em si mesmos?
Ao contemplar e adorar a cruz, sentimos que a espiritualidade do Bom Samaritano é o caminho a seguir. Para sublinhar ainda mais esta consciência pastoral na nossa cidade, na Unidade Pastoral da Sraª das Graças e na Santa Casa da Misericórdia, escolhemos como logótipo da Semana Santa deste Ano Santo, o ícone de Cristo, o Bom Samaritano da Comunidade de Taizé. O meu próximo é aquele de quem sou próximo. O meu próximo é toda a pessoa que precisa de mim.
Não tenhamos medo do perdão, da misericórdia e da ternura de Deus. A Páscoa é a constante passagem das obras misericórdia à Misericórdia das obras. Coragem e confiança para continuarmos peregrinos na santidade.
3. Alma de Cristo
Alma de Cristo, santificai-me.
Corpo de Cristo, salvai-me.
Sangue de Cristo, inebriai-me.
Água do lado de Cristo, lavai-me.
Paixão de Cristo, confortai-me.
Ó bom Jesus, ouvi-me.
Dentro das Vossas Chagas, escondei-me.
Não permitais que de Vós me separe.
Do espírito maligno, defendei-me.
Na hora da minha morte, chamai-me.
E mandai-me ir para Vós,
para que Vos louve com os Vossos Santos, por todos os séculos. Amen.
(St. Inácio de Loyola)
+ José Manuel Cordeiro
Fotografia: Comunicações Sociais Diocese.
