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Homilia de D. Nuno Almeida nas Exéquias do Padre José Telmo Ferraz [1]Sex, 09/10/2026 - 18:57

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EXÉQUIAS DO PE. TELMO FERRAZ Casa do Gaiato de Paços de Sousa, 09.10.2026   Leitura: Gálatas 3, 7-14 (do dia) Evangelho.: Jo, 21, 15-17.   Em nome pessoal e das nossas Dioceses (Bragança-Miranda e Porto), dirijo uma palavra de condolências ao Pe. Júlio Pereira e a toda a família do Pai Américo, nesta hora de despedida do Pai Telmo. Um abraço de profunda comunhão para os familiares do Pe. Telmo. Os presbitérios e as dioceses de Bragança-Miranda e do Porto unem-se em oração de ação de graças e de sufrágio pelo nosso muito querido Pe. Telmo.   Homilia   Estimado Pe. Júlio, Caríssimos Sacerdotes e Diáconos, Familiares, conterrâneos e amigos do Pe. Telmo, todos aqueles que privaram com ele nas paróquias e nas Casas do Gaiato, especialmente os doentes, as colaboradoras, os voluntários, os Gaiatos e os amigos do Calvário. Um abraço especial e grato para com o Pe. José Alfredo que acompanhou, com esmerada dedicação o Pe. Telmo na sua última etapa neste mundo. Que belo testemunho nos deixou nas deslocações a Bragança-Miranda. Esta homilia só poderia ser a quatro mãos e dois corações com P. José Alfredo. Bem hajas! Estimadas Autoridades, Irmãos e irmãs!   1.Pedro foi pescado por Jesus no Mar da Galileia para se tornar pescador de homens. A partir daquele primeiro encontro, toda a sua vida estará centrada em Jesus Cristo e no serviço aos irmãos. Pedro ensina-nos, hoje e mais uma vez, que nada há mais belo e mais importante na vida do que seguir Jesus Cristo! É o segredo da santidade de Pedro: “Pedro tu amas-me?” “Sim, Senhor, Tu sabes que te amo!” “Apascenta as minhas ovelhas!”. Ou seja, servir da Cristo significa dar vida e dar a vida pelos irmãos. A vida de Pedro está centrada em Cristo e no amor aos irmãos! Vida centrada em Cristo e no amor aos irmãos: assim foi a vida do Pai Telmo ao longo de 75 anos de sacerdócio. Os seus 100 anos de vida foram um sopro veloz que não deixou ninguém indiferente e a sua dedicação a Cristo e à Igreja dos mais pobres uma brisa que suavizou muitas dores. Ele foi um homem da Palavra escutada e escrita e um homem de testemunho eloquente. Um ser humano completo e que ajudou muitos a completarem-se diante das adversidades e problemas.   2.O P. Telmo Ferraz, membro do clero da Diocese de Bragança-Miranda, nasceu em Mogadouro a 25 de novembro 1925 e começou cedo o seu sacerdócio de rebeldia e compromisso social. Denuncia a tragédia humanitária provocada pelas condições péssimas em que viviam quantos davam a vida na construção de barragens naquele Trás-os-Montes longínquo e abandonado dos anos 50. Dedica-se a todos os deserdados e denuncia as violações dos direitos destes pobres trabalhadores. O seu primeiro livro, ‘O lodo e as estrelas’ (1960) é tão duro e profético acerca da vida dos trabalhadores na construção da Barragem do Picote, que foi visado e proibido pela censura. Mas – e talvez por isso mesmo - já em 1959 estava em Angola com os trabalhadores da barragem de Cambambe.  Um padre poeta e escritor, pobre ao serviço dos mais pobres. Um grande obrigado ao Henrique Manuel … cuja amizade e veneração para com o Pe. Telmo permitiu a publicação de muitas das suas obras que permanecerão como precioso legado.   3.O percurso existencial do Pai Telmo é um marco no sacerdócio católico recente. Serviu as mais variadas comunidades cristãs ao longo de 75 anos, feitos em junho passado. Por terras onde se fala o mirandês, o Pe Telmo Ferraz praticou e ensinou o “amorês”: a língua do Evangelho e do Espírito. É uma língua essencialmente gestual, feita de proximidade, de atenção, de ternura …!  Amou as paróquias de Genísio e Vilar Seco; as barragens de Picote e Cambambe; a Obra da Rua nas diversas casas em Portugal e Angola e particularmente a que as suas mãos transmontanas edificaram em Malanje e orientaram ao longo de várias décadas entre revoluções e guerras. Aldeia onde sempre triunfou o amor paterno e a inspiração de Pai Américo, que o cativou e puxou para a sua Obra, que o fundador dizia ser Obra de Jesus. Foi este amigo comum de tantas horas e desafios que os aproximou na missão e na busca da perfeição cristã, que muitos designam por santidade.   4.O sorriso e a serenidade de Pai Telmo emanavam paz e graça simples. Com ele, como com os grandes sábios, podia aprender-se muito sobre o mundo, as pessoas, os animais, as plantas. Ele falava dessas realidades porque se demorava a contemplá-las. Encontrava disposição para isso. Um talento natural para dar vida ao outro. Foi isso que fez dele um grande educador, não pela força dos argumentos ou das utopias, mas pela eloquência da esperança cristã semeada em corações simples e puros. Os seus amigos mais fiéis foram o cavalinho Rocha, os livros, os engenheiros barragistas, os trabalhadores, os Gaiatos, os Batatinhas, os leprosos, os homens ilustres diante de quem se humilhava para pedir e os homens simples diante de quem se vergava para levantar do pó da miséria. Não admira que o P. Telmo tenha escrito: “Quando troteamos pelos caminhos do planalto, as minhas conversas com o Rocha são de rir. E quando vamos sós, canto as minhas canções sem leis e fraco ritmo. Canto aos lameiros, às searas, aos bandos de estorninhos e às vaquinhas que pastam. Algumas levantam a cabeçona. Um cumprimento? Sabe-se lá! Rocha, gostas das minhas canções? Ele acena que sim! com sua linda cabeça. Parece-me” (p.  43).   5.O Pai Telmo foi um homem em movimento perpétuo e ascendente a quem não conseguimos travar na sua partida para o Pai. Tocam-nos profundamente as lágrimas de homens adultos diante do corpo jacente de Pai Telmo, elas ecoam no umbral do pórtico da casa de Deus e dos homens bons como ele. Obrigado, Pai Telmo. Até breve, Adeus, até Deus! Obrigado, Pai Telmo, por estes 75 anos de sacerdócio tão cheios de Missão, tão cheios de tudo! Como seria bom que nos reencontrássemos no Céu! Voltaremos a tomar um cafezinho, e o Pai Telmo vai narrar-nos mais um acontecimento singelo da vida do dia a dia para ilustrar o mistério da eternidade que sempre manteve viva a sua curiosidade de menino nado e criado no planalto mirandês de tantos encantos. Pedimos a Maria a quem o Pe. Telmo, filialmente sempre amou, que lhe abra as portas do Paraíso! Guardemos na nossa memória e no coração este belo poema do P. Telmo:   Modela, Senhor, O pobre barro que sou; Pois, modelado, dará Uma cantarinha de brinquedo. Em silêncio Aceito este pouco E espero o último retoque Do Teu dedo. (Telmo Ferraz, A Mulemba e o grão de areia)       +Nuno Almeida, Bispo de Bragança-Miranda e Padre José Alfredo da Casa do Gaiato   Fotografia: Olímpia Mairos/Rádio Renascença

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