[1]Seg, 05/10/2026 - 12:10
XXIX JORNADAS CULTURAIS DE BALSAMÃO
01-04 outubro de 2026
“As Festas em Trás-os-Montes. Entre o Sagrado e o Profano”
A Festa entre o Sagrado e o Profano
Introdução
As festas populares e romarias combinam a dimensão sagrada das celebrações litúrgicas com a vertente profana do convívio comunitário, da música e das feiras tradicionais.
A dimensão religiosa (sagrado) está centrada na Eucaristia, nas novenas, promessas e nas solenes procissões em honra dos santos oragos ou padroeiros. Representa o momento espiritual e de fé que fundamenta a origem da festividade.
A dimensão recreativa (profano) manifesta-se através dos concertos, folclore, fogo de artifício, tasquinhas com gastronomia local e os tradicionais arraiais.
Profano, significa, na sua origem etimológica, o que está "fora do templo", integrando o quotidiano e a alegria do convívio social sem perder o respeito pela essência da festa.
No início desta breve reflexão, evoco o testemunho de um ilustre transmontano, o Prof. Adriano Moreira, na obra "A Espuma do Tempo. Memórias do Tempo de Vésperas": “A festa anual da freguesia (Grijó, Macedo de Cavaleiros) era ali dedicada ao Senhor do Calvário que se ia buscar a uma capela que então ficava fora da aldeia numa pequena colina. Quando, em 1953, ganhei o Prémio Abílio Lopes do Rego da Academia das Ciências, doei o dinheiro, a pedido da minha Mãe, para reconstruir a Capela, e o Dr. Trigo de Negreiros subsidiou parte dos trabalhos, também a solicitação dela. (…).
Nas procissões em que ao mesmo tempo desfilavam o andor do Senhor do Calvário e o andor do Menino Jesus, não ocorria pensar que era sempre Cristo o representado, às crianças parecia-lhes mais que o Menino estava a ser obrigado a contemplar a privação iminente, e dolorosa, de alguém mais velho a quem tinha amor. (…).
As festas religiosas promovidas anualmente em cada freguesia, no dia do seu patrono, eram expressão de uma cultura popular arreigada, que misturava homens e bichos nos apelos à proteção divina.”
Um pouco por todo o país e por Trás-os-Montes, celebram-se, com entusiasmo, as festas populares. São manifestações cheias de valores: dos artísticos aos conviviais, dos económicos aos espirituais. Mas nem tudo é ouro de lei!
A festa exerce uma função regeneradora da vida humana. Precisamos de festas para viver com harmonia, desde que nos ajudem a tomar consciência de sermos filhos amados de Deus (filializam-nos?), verdadeiramente irmãos e irmãs (fraternizam-nos?) e cidadãos livres e participativos (responsabilizam-nos?) pelo bem comum.
1.Com as profundas mutações verificadas nos últimos tempos em todos os domínios da vida humana, nomeadamente no domínio cultural, era natural que as festas populares, como expressão da vivência religiosa e da componente cultural, fossem gradualmente atingidas no seu conteúdo e no seu significado.
O secularismo tem de facto provocado uma erosão do conteúdo cristão das festas, tentando encará-las como meros acontecimentos de natureza laica e profana.
A complexidade do problema, tal como se apresenta hoje, reside no facto de tratar-se de tradições solidamente enraizadas na existência das pessoas, das famílias e das instituições. Assim se compreende que, mesmo quando baixa a prática sacramental e enfraquece a adesão à vida comunitária, as pessoas normalmente mantêm-se fiéis às tradições das festas. É, de algum modo, a própria identidade como povo que está em causa. As raízes históricas têm muito peso.
Ninguém consegue cancelar eventos onde os famosos três “c”, o do culto, da cultura e da caridade se entrelaçam! Quando o divino e o humano se encontram torna-se visível a força do Reino de Deus, a luz da eternidade!
Torna-se por tudo isto importante não perder de vista a perspetiva da evolução histórica, se quisermos perceber, na sua verdadeira dimensão o fenómeno das festas populares, nas suas vertentes, religiosa, cultural e civil, e dar-lhes o tratamento que merecem.
A evolução destas festividades estruturou-se em quatro grandes etapas históricas:
1.As Raízes Pré-Cristãs e Pagãs: Antes da fixação do Cristianismo, as comunidades locais já realizavam rituais de celebração ligados aos ciclos agrícolas, à fertilidade dos campos e à proteção do gado. Muitos dos santuários cristãos primitivos foram deliberadamente erguidos sobre antigos locais de culto pagão.
2.A Cristianização e a Idade Média: A partir do século XI, o culto mariano (devoção à Virgem Maria) e a veneração de relíquias ganharam enorme força. As romarias passaram a ser organizadas estritamente em torno da "memória de um santo", cuja imagem ou ermida isolada se tornava um ponto de confluência geográfica e espiritual. Peregrinar a estes locais isolados servia para pagar promessas, pedir curas ou agradecer milagres.
3.A Consolidação do Modelo "Sacro-Profano" (Séculos XVI a XIX): Após o Concílio de Trento (1545–1563), a Igreja Católica procurou disciplinar as procissões e festas, tentando separar o clero dos rituais laicos. Contudo, a força da cultura popular prevaleceu, moldando o formato que conhecemos hoje. A vertente lúdica e a comercial das feiras de gado, de artesanato e de bens agrícolas fundiu-se de forma definitiva com a festa religiosa.
O arraial noturno passou a ser visto como um espaço de alívio social das regras quotidianas rígidas. Cantares ao desafio, danças tradicionais e o consumo de gastronomia e vinho locais tornaram-se indissociáveis do ato religioso.
4.A Modernidade e a "Festa do Povo" (Séculos XX e XXI): Durante o século XX, eventos de grande escala foram elevados ao estatuto de "Festas do Concelho". O regime do Estado Novo usou o folclore e o revivalismo religioso como marcas de identidade nacional.
Nas últimas décadas, a evolução das romarias tomou rumos surpreendentes:
a)O retorno da diáspora: Apesar do forte êxodo rural nas décadas de 1960 e 1970, o período de verão (especialmente julho e agosto) converteu as romarias no ponto central de regresso dos emigrantes, que financiam e mantêm vivas as comemorações da sua terra natal.
b)Evolução musical: O figurino tradicional alterou-se parcialmente. Embora os ranchos folclóricos e as bandas filarmónicas continuem presentes, há uma forte aposta em palcos de música moderna e bandas de baile de grande produção tecnológica (Ultrapassei, na A4, há poucos dias 4 camiões TIR do Grupo República).
c)Património turístico: Hoje, muitas destas romarias deixaram de ser apenas rituais locais para se transformarem em grandes cartazes turísticos e eventos de preservação do património cultural imaterial, atraindo milhares de visitantes nacionais e internacionais.
No Nordeste Transmontano, a fusão entre o sagrado e o profano verifica-se, por exemplo, no O Entrudo Chocalheiro e os Caretos de Podence (Macedo de Cavaleiros), nas Festas e Feira em Honra de Santo Ambrósio (Vale da Porca); na Feira e Festa de São Pedro (Macedo de Cavaleiros) e em tantas outras.
2.Profano não significa imoral ou ofensivo, significa apenas não religioso. Com o tempo, a palavra passou a ser usada em oposição a sagrado. Enquanto o sagrado está ligado ao culto, ao rito e à religião, o profano refere-se à vida comum, ao quotidiano e às atividades sociais.
Na sociologia da religião, autores como Mircea Eliade (1907–1986) e Émile Durkheim (1858-1917) distinguem claramente essas duas esferas: o sagrado e o profano organizam a vida social de formas diferentes. O sagrado envolve crença e reverência; o profano diz respeito ao mundo comum e às práticas sociais ordinárias.
Aconselho, para quem desejar aprofundar este tema, a leitura da obra de Mircea Eliade, O sagrado e o profano: A essência das religiões, Lisboa, Livros do Brasil, 1978, 1983, 1999 (Título original: Das Heilige und das Profane, 1956).
Muitas das nossas festas têm origem ligada a celebrações de santos católicos. No entanto, ao longo do tempo, incorporaram danças, comidas típicas, músicas populares e brincadeiras que pertencem à esfera cultural e social.
O mesmo acontece em festas de padroeiro, romarias e eventos tradicionais em várias regiões. Durante o dia, pode haver cerimónias religiosas. À noite, apresentações musicais, barracas de comida e encontros comunitários assumem carácter mais profano.
3.Há, de facto, uma imensa variedade de festas. As que celebram as grandes etapas do ciclo da vida, como o Batismo, o Casamento, o aniversário do nascimento, etc.; ou as quadras do ciclo litúrgico ligado ao ciclo cósmico (Natal, Páscoa, Santos Populares, Santo padroeiro).
É muito importante a festa anual de cada localidade, pois desempenha uma função decisiva no fortalecimento da identidade e da vida comunitária das populações. É o momento em que as pessoas se reencontram com as suas raízes, evocam as suas memórias comuns, convivem de forma simples e alegre, abrem as portas e procuram apresentar aos de fora a sua melhor imagem. Num tempo de individualismo e de estranheza mútua, devemos apreciar e salvar as festas dos padroeiros como uma oportunidade de enriquecimento pessoal, social e cristão.
Estas festas têm características próprias. Antes de mais, são participadas por todos: a festa é de todos, feita por todos, vivida por todos. Mesmo quando se convidam os de fora, é para vir à “nossa festa”. Revestem, por outro lado, uma dimensão solene, sagrada, que leva a contemplar a dimensão transcendente da vida. A vida está envolvida pelo mistério e encontra sentido e grandeza à luz da fé celebrada nestes ritos religiosos.
Mas a comunidade cristã não limita as celebrações festivas à sua dimensão estritamente religiosa. Há também uma componente recreativa, lúdica, com as ruas e praças ornamentadas, com bandeiras, com música e outras diversões. A festa é o tempo do encontro, da alegria, da confraternização. A dimensão religiosa e esta dimensão recreativa não estão desligadas; formam um todo.
4.Nos nossos dias, apesar das alterações rápidas que continuam a observar-se na sociedade, muitas comunidades souberam situar-se na modernidade, sem perder a sua autenticidade cristã.
Há um princípio que importa sempre salvaguardar: o da identidade e da dignidade do ato religioso. O ato religioso não pode laicizar-se; não pode ser tratado como peça de museu, ou ser visto apenas nas suas potencialidades para o desenvolvimento da indústria turística, ou utilizado para fins político-partidários. Não pode ser equiparado, no conjunto dum vasto programa, a uma prova de ciclismo ou à atuação dum grupo musical. É preciso ter cuidado com os cartazes, que muitas vezes escandalizam!
A festa religiosa é uma celebração festiva da fé. Ela deve conservar uma tal índole, ao lado de outras expressões da vida social, igualmente legítimas. O ideal seria que os festejos civis, com as suas manifestações folclóricas, artísticas e desportivas, se mantivessem integrados num todo, juntamente com a dimensão religiosa, e não em contraposição, e sem dela destoarem. Só deste modo se torna possível salvaguardar, no quadro da mentalidade atual e dos novos padrões, o rico e estruturante património cultural e religioso das populações, tornando-o vivo e inspirador de outras dimensões da vida social.
Considerações finais
As festas populares, na sua riqueza cristã, cultural e humana, constituem uma herança preciosa, que as gerações anteriores nos legaram e que nos compete acolher com respeito e com a determinação de lhes dar continuidade.
Numa perspetiva cristã, a festa é a experiência dos acontecimentos nos quais Deus realiza e manifesta a salvação: Deus que nos filializa, fraterniza e responsabiliza como cristãos e cidadãos livres, participativos e felizes.
Se às festas religiosas populares lhe retirarmos a dimensão sagrada, ficamos com um monstro nos braços. O que está largamente a acontecer! Em grande parte porque algumas autarquias e comissões autonomeadas, a quem só interessa o folguedo, operaram uma tal metamorfose que da festa cristã ficou apenas … o nome do santo. Na melhor das hipóteses! E são hoje as “Festas do Concelho” ou a “Romaria de qualquer coisa”.
Em nome do pluralismo e da tolerância para com os não crentes, caiu-se num tal laicismo cuja fundamental preocupação é evitar, ostensivamente, que nada de religioso apareça. Vejam-se, por exemplo, os cartazes com que se anunciam ou as iluminações noturnas. Enfim, festa «religiosa» sem santo e, muito mais, sem santidade…!
Mas este laicismo desequilibrado representa, objetivamente, uma grave lacuna de conhecimento das razões pelas quais a comunidade celebra. Como tal, fica um ato privado de razões ou de fundamentos, de sentido. E a falta de códigos de reconhecimento gera o vazio, o absurdo e, mais tarde ou mais cedo, a repulsa.
Creio bem que para salvarmos as festas populares, só há uma via: salvarmo-nos deste laicismo pobre e provinciano.
Não deixemos laicizar as festas religiosas populares! Nesse sentido, para salvar estas festas devemos dar relevo ao que é verdadeiramente importante: participar na Missa e na procissão como um ato central e unificador de todos os elementos do programa festivo. Enfeitar as ruas e as casas para este momento é uma forma de mostrar o apreço por estes atos religiosos e exteriorizar a alegria e a beleza da vida iluminada pela fé.
Nota-se, atualmente, uma tendência para sobrevalorizar os espetáculos em detrimento das festas. Os espetáculos cada vez mais caros e mais ruidosos são, no meu entender, a grande ameaça das festas. Em vez da participação, os espetáculos favorecem a passividade e o individualismo.
Precisamos, por tudo isto, de gente com criatividade, coragem e imaginação para salvar o verdadeiro significado das festas. Oxalá continuemos a encontrar cristãos empenhados e autarcas e mordomos com esta visão e coragem.
Por exemplo nas festas de Nossa Senhora, a Virgem Maria, nossa Mãe, todo o afeto deve passar pela estrutura do espaço e pela organização do dia, pela música e pelos gestos, como versos conjugados de um poema a oferecer com carinho. A harmonia e a beleza das diferentes expressões serão o lugar de acesso a um outro esplendor para quantos persistem em contemplar Maria como mãe.
A encerrar, cito Paul Claudel, fascinado pela luz de Fátima e pelo surpreendente “milagre do Sol”: “Nela (Maria), como num puro espelho, vemos Deus e vemo-nos, tais como somos essencialmente, como o indica uma palavra forte de um dos três pastorinhos. Maria faz-nos compreender no meio das nossas trevas que é no fundo destas trevas que Deus nos chama para a Sua luz admirável (1 Ped. 2,9)”.
+Nuno Almeida
Bispo de Bragança-Miranda

