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Comunicação de D. Nuno Almeida no I Congresso Internacional de Espiritualidade em Cuidados Paliativos [1]Dom, 07/06/2026 - 00:34

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ESPIRITUALIDADE EM CUIDADOS PALIATIVOS I CONGRESSO INTERNACIONAL BRAGANÇA, 5 e 6 de junho de 2026   Espiritualidade e sentido da vida   A todos saúdo com amizade! Permitam-me que comece com o testemunho que, com a devida vénia, peço ao neurocirurgião João Lobo Antunes, falecido em 2016: "Já há largos anos, num domingo de Verão, telefonou-me um colega neurologista, dizendo-me que tinha uma menina internada num hospital particular de Lisboa, pedindo-me que a observasse. Perguntei-lhe se era uma situação urgente e ele respondeu-me que não lhe parecia, pelo que foi combinado eu visitá-la depois do jantar. Eu estava em Cascais, num almoço à beira de uma piscina, num animado convívio social. Subitamente, sem qualquer motivo, decidi interromper o almoço e parti para Lisboa. Quando cheguei, a menina tinha entrado em coma naquele momento, e foi salva por uma intervenção urgente. Ela é hoje mãe de uma Madalena. A segunda história passou-se, estava eu ainda em Nova Iorque, e regressava de avião de um congresso quando, a caminho de casa, decidi parar no meu hospital. Lá também, por uma qualquer razão que ainda hoje me escapa, desloquei-me ao hospital de crianças anexo ao meu edifício para ver um rapazinho que operara dias antes. No momento em que entro no quarto ele fez uma paragem respiratória de que é salvo in extremis por uma nova intervenção. Tenho contado estas histórias (e poderia acrescentar outras) a alunos, internos e colaboradores. Não me atrevo a atribuir-lhes um sentido transcendente, mas também não as reduzo a situações de simples acaso ou sorte. Digo apenas que é preciso estar atento a uma voz interior e responder sem hesitações ao seu comando. Para tal, é preciso, pois, estar sempre à escuta, como se conta do jovem profeta Samuel (cf. 1 Sm 3, 1-20) - " (João Lobo Antunes “Sofrimento, medicina e o transcendente”, in Anselmo Borges (2016) Diálogo, sobre "Religião e (In)felicidade") Este médico de fama mundial, professor ilustre, homem da cultura, mestre da escrita, humanista, cristão, escreveu que "a espiritualidade na prática médica exige grande virtude, coragem, perseverança e o que alguém chamou de "fidelidade criativa". E, evidentemente, esperança, pois, como dizia S. Paulo, "é na esperança que somos salvos" (Rm 8, 24)." Nesta breve reflexão gostaria de sublinhar o valor do invisível e apresentar a espiritualidade como fundamento do sentido e do cuidado.   1.Existe uma dimensão do humano que não se capta no microscópio, que não se mede com sondas nem com análises sanguíneas e nem se pode codificar em protocolos. Eis o invisível que sustenta o visível, eis o sentido que dá forma ao gesto, qual centelha de luz que habita o cuidado. Chamamos-lhe Espiritualidade. E são tantas e decisivas as realidades que só o coração compreende! A espiritualidade é, cada vez mais, o espaço onde a dor pode encontrar abrigo e pode ser um eixo essencial do cuidado integral. Trata-se de proporcionar, a quem o desejar, uma profunda experiência espiritual, transformadora, ressignificadora, vibrante de sentido. No limiar entre o visível e o invisível, entre o corpo que sofre e a alma que busca o sentido, a espiritualidade ergue-se como um sopro de eternidade nas rotinas do cuidar e do proteger. Em tempos de tecnologias apuradas e de protocolos exatos, o que dá sentido às nossas ações não é apenas o que fazemos, mas essencialmente a razão pela qual o fazemos. Mas também o modo como o fazemos!   2.Somos permanentemente desafiados a ver cada pessoa como um ser inteiro: com corpo, com emoção, com história, com esperança; perante a capacidade de encontrar significado no sofrimento, de reconhecer-se a si mesmo e a cada pessoa como parte integrante de algo maior, além da simples corporalidade. A escuta espiritual, a presença compassiva, o silêncio respeitoso e o acolhimento da transcendência não são simples gestos místicos ou piedosos, são antes práticas clínicas profundamente humanas, que devolvem dignidade à experiência da vulnerabilidade humana – tudo isto é espiritualidade encarnada. E é nesse espaço de intimidade e de respeito que muitos doentes reencontram forças para lutar, para aceitar a sua condição ou simplesmente para descansar em paz. No meio de tanto ruído tecnológico, a espiritualidade oferece um importante lugar de religação – de ligação com a vida, de ligação com o transcendente, de ligação com os outros, de ligação consigo mesmo, de ligação com os valores fundamentais da existência.   3.A alma, quando cuidada, fortalece também o corpo. E o corpo bem cuidado reforça o entusiasmo da alma. Na identidade cristã, esta missão ganha ainda mais brilho. E é o Mestre dos Mestres que nos convida a integrar esta dimensão na nossa prática quotidiana: O “estava doente e cuidastes de mim” (Mt 25, 36), do Evangelho de S. Mateus, é mais do que um versículo: é um eterno desafio! No silêncio de um quarto de hospital, onde a dor murmura segredos à alma, a espiritualidade faz-se presença, não com grandes palavras, mas com gestos pequenos que curam. Ali, onde o corpo vacila e o tempo se suspende, Deus aproxima-se com mãos humanas, em cada olhar que acolhe, em cada toque que consola, em cada escuta que não julga, mas que permanece. “Estava doente e cuidastes de mim” (Mt 25, 36) – ecoa como um apelo, que atravessa séculos, a transformar o cuidar em presença sagrada e convoca os corações a tornarem-se abrigo.   4.Acompanhar e cuidar do doente é, assim, tocar a sacralidade da existência, reconhecer que há mais do que feridas, que há histórias, que há esperanças, que há fé e uma luz que insiste em brilhar, mesmo nas noites mais longas da dor. Não se trata só de curar o corpo, mas de acolher a alma, de lembrar ao outro que ele é visto, que ele é amado, que ele é esperado, mesmo quando já não pode falar. É ali, à beira do leito, que a fé se ajoelha e a espiritualidade se levanta, com mãos que enxugam lágrimas e olhos que veem além da enfermidade. “Foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 40). E cada gesto de cuidado transforma-se, assim, em oração viva, em sacramento do amor, em ponte entre o céu e a terra.   5.A sempre necessária reconciliação com a vida (Versöhnung mit dem Leben), segundo Viktor Frankl 1905-1997), fundador da Logoterapia, pode acontecer mediante a busca e a ativação do sentido para a existência pessoal e coletiva. Para que isto se realize, há que desenvolver a capacidade pessoal de entrega, de saída de si mesmo e percorrer as vias da autotranscendência. Trata-se de orientar a vida para algo ou para alguém (Alguém), vencendo permanentemente a tentação da autossuficiência e de uma existência centrada (ocupada e preocupada) em si mesma. A capacidade especificamente humana é a de auto-transcender-se, orientando a existência para algo, para uma causa ou pessoa. (Cf. Viktor Frankl, O Homem en Busca de um Sentido, Lisboa, 2022).   6.A luz do sentido ocupa, no ser humano, o espaço que este lhe der, dependendo da ousadia que tiver de se esvaziar, perdendo todos os medos que o impeçam de aceitar a experiência de despojamento de si. Esta dimensão de oblatividade amorosa permite encontrar o sentido, sempre e a “apesar de tudo”, mesmo nas situações mais dramáticas da vida, como são o sofrimento inevitável, a culpa grave ou a morte. O homem é um ser de grandes possibilidades para o bem e para o mal e, segundo a perspetiva de Frankl, é um ser que decide, se decide e continuará sempre a decidir o que será no próximo instante.   7.A espiritualidade é apontada como estratégia para proteger a saúde mental em situações extremas, chamadas por Viktor Frankl de “experimentum crucis”. Baseando-se na sua experiência nos campos de concentração, Frankl destacou a capacidade humana de se transcender, manter a liberdade interior e encontrar significado na vida mesmo em cenários críticos. A espiritualidade, universal ao ser humano, refere-se à busca por um significado, propósito e conexão consigo mesmo, com os outros e com o sagrado. Já a religião é uma expressão da espiritualidade, manifestada por convicção, ritos e práticas externas a um ser superior e compartilhada dentro de uma cultura. Espiritualidade é mais do que religiosidade e religião, é uma dimensão profunda do ser humano, de articulação das perguntas humanas essenciais, de relação e conexão consigo mesmo, com as pessoas, com o mundo, a natureza, o cosmos e com o transcendente.   8.Enquanto a espiritualidade se manifesta pela via da interrogação a respeito das questões fundamentais da existência, e impulsiona o ser humano para a busca de sentido, a religiosidade, por sua vez, expressa-se como sendo o âmbito das respostas a essas questões existenciais de sentido. Desta forma, religião e religiosidade não deixam de ser uma expressão da espiritualidade, mas não se confundem.     9.Depois de tudo o que foi dito, urge entrelaçar a explicação científica com a “sentificação” (Miguel Panão) teológica e espiritual, procurando ser fiéis à honestidade empírica que mede, compara e corrige; e à atenção contemplativa que acolhe o mistério sem o expulsar do real. A ciência explica, a espiritualidade “sentifica”. Explicar é necessário para não nos enganarmos e mantermo-nos ligados à realidade física. “Sentificar” é fundamental para não nos perdermos em ilusões virtuais que nos afastam do sentido que tem a experiência da realidade física. Nesta dupla fidelidade, a questão aberta da consciência torna-se uma prática a habitar que une a exterioridade científica à espiritualidade e à interioridade teológica: compreender participando, conhecer pertencendo. Participar dá sentido (“sentifica”) à explicação; pertencer dá horizonte e responsabilidade à interpretação. Assim entrelaçar explicação e “sentificação” é o caminho!   10.A espiritualidade é a marca de uma inquietação que continuamente se refere para algo além de si. Espiritualidade é uma infinita viagem interior. “Digo apenas que é preciso estar atento a uma voz interior e responder sem hesitações ao seu comando. Para tal, é preciso, pois, estar sempre à escuta, como se conta do jovem profeta Samuel (cf. 1 Sm 3, 1-20)." - João Lobo Antunes   +Nuno Almeida Bispo de Bragança-Miranda Fotografia: Irene Rodrigues

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