[1]Dom, 29/03/2026 - 17:44
Domingo de Ramos
Catedral de Bragança, 29 de abril de 2026
Sedentos da Paz de Jesus Crucificado-Ressuscitado
Is 50,4-7; Sl 21(22); Fl 2,6-11; Mt 26, 14 – 27, 66
1.Neste Domingo de Ramos, prelúdio da Páscoa do Senhor, a Liturgia convida-nos a abrir os olhos para contemplar, com o olhar iluminado pela fé, o grande mistério do Amor. Os nossos olhos estão agora cheios de dor e de luz, de dor e de amor!
O Senhor Deus abriu-nos e despertou-nos os ouvidos. E nós escutámos, a dramática história da Paixão de Jesus. Diante dos nossos olhos, passaram, como que numa galeria de quadros, os rostos de variadas pessoas, que se confrontaram com Jesus, no caminho da cruz! Todos e cada um deles, com uma resposta diferente: traindo ou acusando, negando ou entregando, magoando ou ferindo, ou então ajudando e olhando, acolhendo e compadecendo-se! Mas todos eles, estão diante de Jesus, que permanece sempre sereno no seu comportamento, mesmo se a hostilidade e a violência vão aumentando!
Ferem Jesus, açoitam-no, impõem-lhe mesmo uma coroa de espinhos, batem-lhe na cabeça, tiram-lhe as vestes! E Jesus não dispara, com o seu arco de guerra, as flechas do ódio, da vingança, da raiva. Pelo contrário, “entrega-se às nossas mãos, deixando-se pregar numa cruz, estendo os braços, como sinal indelével da aliança”. E ali, exposto ao nosso olhar, deixa a nossa alma, “ferida de amor”! Ali, morto na cruz, Jesus, o único Justo, dobra, move e comove o coração dos tementes a Deus, “para que os inimigos procurem entender-se, os adversários deem as mãos e os povos se encontrem na paz e na concórdia.
2.Trouxemos ramos de palma e de oliveira para louvar O que vem trazer-nos a verdadeira paz. Porque está connosco o Príncipe da Paz, no contexto de violência e de guerras em que vivemos, não podemos deixar-nos paralisar sendo pessimistas, nem ficar alheios a tudo como ingénuos otimistas. Queremos ser ativistas sem nunca deixarmos apagar a esperança, conscientes de que a oração é a mais potente arma da paz e os atos de caridade e os gestos de bem são as munições desta arma.
As circunstâncias que vivemos fazem-nos fixar e sublinhar ainda mais a palavra Paz. A Paz, que traduz o termo hebraico shalom, na sua raiz, significa integridade, totalidade, e por isso a Paz, na linguagem bíblica, é a síntese ou a plenitude de todos os bens, é a felicidade de quem, mesmo no meio das dificuldades e dramas, vive em Paz, porque se confia às mãos de Deus, como um filho ao colo de sua mãe.
Essa é a Paz, por que justamente anseia o nosso coração, pois todos os dias acordamos e adormecemos com as imagens das guerras a ferirem-nos, deixando-nos na tristeza e na angústia.
A verdadeira Paz é dom de Deus, fruto da ação Espírito Santo, mas também é um exigente trabalho artesanal, “que requer serenidade, criatividade, sensibilidade e destreza” (GE 89). De pouco nos vale desejar a Paz lá longe, se não a semeamos, em nossa casa, com as pessoas da nossa família e das nossas relações mais próximas, na nossa escola, no nosso local de trabalho e de lazer.
Não podemos opor-nos a uma injustiça com outra injustiça, a uma violência com outra violência; devemos recordar que só podemos vencer o mal com o bem! Vencer o mal com uma inundação de bem. Se deixarmos o amor de Cristo transformar o nosso coração, então poderemos mudar o mundo.
É nossa missão semearmos, construirmos e espalharmos a Paz. É nossa missão rezarmos com perseverança pela Paz e pela Fraternidade!
3.Das belas obras de nossa Catedral, gosto particularmente da Pietà de José Rodrigues. Como está num lugar discreto, muitos ainda não conhecem esta obra de beleza sublime. A Pietà da nossa Catedral é fruto de uma aproximação ao Mistério por parte de um filho ilustre deste torrão transmontano, o mestre José Rodrigues.
No rosto belo da Mãe, da Pietà da nossa Catedral, admiramos os traços de uma mulher transmontana.
Ao contemplarmos a beleza da Pietà da nossa Catedral, sintamo-nos também nós no seu regaço! Quando as tragédias do viver humano nos entristecem e enchem de lágrimas os nossos olhos, quando as notícias de tantas violências nos deixam no coração a melancolia, quando a dor nos atormenta a alma e o corpo, olhemos para a Mãe de Jesus e nossa Mãe e Mãe! Que Ela nos console sempre com o seu materno abraço!
Nesta encantadora imagem em bronze do mestre José Rodrigues, Jesus e a Mãe não têm mãos porque querem precisar das nossas. Contam com as nossas mãos, pois a fé lança-nos e relança-nos no caminho de amor e de encontro, da esperança à caridade!
Queridos irmãos e irmãs, diante da Pietà da nossa Catedral, somos convidados a "ousar o amor". A não desejar nada para a nossa vida que seja inferior a um amor forte e belo, capaz de tornar toda a existência numa jubilosa realização da doação de nós mesmos a Deus e aos irmãos, à imitação d'Aquele que mediante o amor venceu para sempre o ódio e a morte (cf. Ap 5, 13).
Diante da Pietà da nossa Catedral, podemos ter a certeza de que o amor é a única força capaz de mudar os corações e a humanidade inteira, tornando felizes as relações entre homens e mulheres, entre ricos e pobres, entre povos, culturas e civilizações.
Diante da Pietà da nossa Catedral, rezamos pelas Irmãs do Carmelo de Moncorvo que com a sua oração sustentam a nossa vida e suavizam as nossas dores, sofrimentos e fragilidades, partilhando com elas, neste domingo, o fruto da nossa renúncia quaresmal.
Senhora das Dores,
Senhora ao pé-da-Cruz,
Serva e Rainha da Paz,
Maria, minha Mãe,
Que seguiste até ao fim os passos de Jesus,
Acompanha e protege sempre os nossos passos também! Amen!
+Nuno Almeida
Bispo de Bragança-Miranda

