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Comunicação de D. Nuno Almeida na Abertura do Conselho Nacional da Pastoral Familiar [1]Sáb, 14/03/2026 - 20:51

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CONSELHO NACIONAL PASTORAL FAMILIAR Fátima, Casa dos Silenciosos da Cruz,  14.03.2026 Palavras de abertura Que vias percorrer para, em família e com a família, sermos “povo da vida”?   “O povo da vida e pela vida”: assim se referia São João Paulo II à Igreja, sublinhando que, no próprio seio deste povo, “resulta decisiva a responsabilidade da família: é uma responsabilidade que brota da própria natureza – uma comunidade de vida e de amor, fundada sobre o matrimónio – e da sua missão que é “guardar, revelar e comunicar o amor (…). A família cumpre a sua missão de anunciar o Evangelho da vida, principalmente através da educação dos filhos” (São João Paulo II, Evangelium Vitae (1995), n. 78). Antes de mais, é preciso passar de uma pastoral sobre a família ou para a família a uma pastoral em família, com a família, da família, de modo que as famílias se tornem sujeitos ativos da pastoral familiar (cf. Papa Francisco, Amoris Laetitia (2016) AL 200; 287). E são-no, desde logo, pela própria vida familiar, onde se afirma e cresce a família como Igreja doméstica. E são-no, pelo testemunho de santidade quotidiana, vivendo de modo extraordinário as coisas ordinárias. E são-no pela relação de ajuda a outras famílias. E são-no pela participação em grupos, associações, movimentos, eclesiais, sociais ou culturais, que promovam a vida e a família. Colocar as famílias no coração da pastoral familiar é um desafio exigente. Não é fácil, porque elas próprias se encontram numa encruzilhada de tarefas, horários, problemas, fraturas e feridas, em que sobra pouco espaço e tempo para desenvolver o espírito familiar em casa, qualificar o seu compromisso pastoral na comunidade e valorizar o seu empenho social. Para que a família possa anunciar o “Evangelho da Vida”, consideremos quatro prioridades:   1.Fazer descobrir aos nossos filhos e netos que a vida humana é um dom. “A vida humana é um dom recebido a fim de, por sua vez, ser dado” (EV, n.92). Como se pode dar isto a entender às crianças, adolescentes e jovens? Seguramente sem grandes discursos. Por exemplo: as crianças sentem perfeitamente, sem necessidade de muitas palavras, se os pais aceitam a vida como um dom – a sua própria vida, a vida dos filhos que lhes são dados e, num sentido mais lato, a vida de todo o homem e mulher. Não se trata de pairar sobre as nuvens, como se tudo fosse sempre de uma facilidade maravilhosa: a vida aqui na terra é marcada pela cruz. Toda a vida é um presente, o mais belo de todos, mas esse presente é acompanhado, de vez em quando, por pesadas provas. Tendo isso em conta, podemos ser muito realistas sobre as dificuldades da vida, mas continuar a ter um olhar maravilhado. Uma das pessoas que mais me ajudou a entender a vida como um dom foi o meu Bisavô, Tibério, que já muito idoso e frágil, conservava sempre um espírito de louvor agradecido a Deus e a todos. Tinha sempre laranjas a dois rebuçados … para nos dar. Mas dava-nos sobretudo o seu olhar luminoso e de amor! Qual o segredo dos corações maravilhados? O dom de si: aquele que ama, que procura dar a sua vida, que se volta para os outros em vez de ficar centrado na sua pequena e burguesa felicidade egoísta e friorenta, esse descobre a beleza da vida.   2.Dar aos nossos filhos e à jovens gerações uma verdadeira educação sobre a sexualidade e o amor. “A banalização da sexualidade conta-se entre os principais fatores que estão na origem do desprezo pela vida nascente: só um amor verdadeiro sabe defender a vida. Não é possível, pois, eximir-nos de oferecer, sobretudo aos adolescentes e aos jovens, uma autêntica educação da sexualidade e do amor, educação essa que requer a formação da castidade (EV, n.97). Essa educação incumbe prioritariamente aos pais, mas também aos outros educadores: não esqueçamos, com efeito, que o adolescente passa mais tempo fora de casa do que em família, e que ele é particularmente permeável às influências extrafamiliares. Não há que deplorá-lo – a vida é mesmo assim – mas devemos manter-nos vigilantes e ativos para que as escolas (de modo muito particular as escolhas católicas) e os vários movimentos de jovens trabalhem no sentido dessa “autêntica educação”, em que a castidade não é apresentada como uma coação retrógrada, mas como o único meio de viver uma sexualidade livre, digna e responsável, ou seja, plenamente humana.   3.Ajudar os nossos filhos e as jovens gerações a perceber o sentido do sofrimento e da morte. “O sofrimento, embora permaneça em si mesmo um mal e uma prova (e mistério), sempre se pode tornar fonte de bem” (EV, n.67). É certo que nós gostaríamos de proteger os nossos filhos do sofrimento, mas não podemos: a nossa missão será, portanto, ajudá-los a descobrir que o amor pode conferir uma fecundidade misteriosa, mas real, a todo o sofrimento – compreendemo-lo olhando para o Crucificado – e que a morte longe de ser “uma aventura sem esperança”, é a “a porta da existência eu se abre de par em par para a eternidade” (EV 97).   4.Rezar em família. Oração de louvor, em primeiro lugar, pois é nessa oração que se renova o nosso deslumbramento frente ao dom da vida. Oração de intercessão, também: “É urgente uma grande oração pela vida, que atravesse o mundo inteiro. Com iniciativas extraordinárias e na oração habitual, de cada comunidade cristã, de cada grupo ou associação, de cada família e do coração de cada crente, eleve-se uma súplica veemente a Deus, Criador e amante da vida “(EV, n. 200). E em tudo isso, conservar a confiança. “Quando anunciarmos este Evangelho da Vida, não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambiguidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo. Com a força recebida de Cristo, que venceu o mundo pela sua morte e ressurreição, devemos estar no mundo, mas não ser do mundo” (EV, n. 82).   Conclusão   Que vias percorrer para, em família e com a família, sejamos “povo da vida”? Precisamos de acreditar na força profética do testemunho da família como “via da Igreja (cf. AL 69). Trata-se de nos deixarmos surpreender e maravilhar perante o que realmente a família é: “comunidade de vida e de amor” (GS 48), em que todos, crianças e adultos, são capazes de profetizar e até os anciãos são capazes de sonhar (cf. At.2,17; cf. Joel 3,1-5). Gravemos na nossa memória e no nosso coração quatro verbos estruturais para uma renovada pastoral familiar: acolher; formar; celebrar; acompanhar. A família é um lugar de Deus. Não é por acaso que a família é uma temática que atravessa toda a Sagrada Escritura (Cfr. Vivaldelli, G., «Famiglia», 470. (in Penna, R. – Perego, G. – Ravasi, G., ed., Temi teologici della Bibbia, San Paolo, Cinisello Balsamo 2010, 470-476), narrando assim a História do Povo de Israel (e da Igreja) como «uma história de famílias». O próprio filho de Deus encarna no seio de uma família (Mt 1,25; Lc 2,7), genealogicamente ligada à descendência da primeira família, a família de Adão (Lc 3,38), cresce e forma-se no seio familiar (Lc 2,52), vai ao encontro das famílias (ex.: Mc 1,29-31; Mc 5,38-43; Lc 7,11-17; Lc 9,37-43) e envia os discípulos a anunciar a Boa-Nova à casa das famílias (Mt 10,11-14). A Pastoral Familiar procura dar continuidade a esta “história de famílias”, de tal modo que todos se tornem “familiares de Deus” (Ef 2,19). Não é apenas a família que deve ser uma Igreja Doméstica, mas a Igreja também deve assumir em si um estilo familiar. Tal como a imagem da mãe que se levanta a meio da noite com o choro do seu bebé para o ir apoiar, assim deve ser a Igreja que, mais do que ignorar o choro do bebé ou reprimi-lo por chorar, deve andar ao seu encontro e ajudá-lo ao seu crescimento, tornando-se assim uma «mãe de muitos filhos» (Sl 113,9). E Deus jamais abandona as suas famílias (Tb 11,12-15), que são a sua quarta obra da criação.     +Nuno Almeida, Bispo de Bragança-Miranda e presidente da CELF    

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