Diocese Bragança-Miranda
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Homilia Solenidade da Virgem Santa Maria, Rainha, sob a invocação “das Graças” [1]Sáb, 22/08/2020 - 20:49

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Um Coração que ouve e que vê é dom e responsabilidade Solenidade da Virgem Santa Maria, Rainha, sob a invocação “das Graças” Catedral, 22 de agosto de 2020   1. Ouvir e olhar é dom e responsabilidade Hoje, festejamos a Padroeira da cidade, do município, da unidade pastoral e da catedral. Ela é a Mãe, Mulher Admirável, Rainha de caridade e de paz: «Quando o céu beijou a terra nasce Maria que quer dizer a simples, a boa, a cheia de graça (...) Deus, quando se adormeceu, sonhou Maria» (A. Merini). Sim, com a Jovem de Nazaré, da Galileia, Deus ousa o impossível. Ela é a toda bela, a grande peregrina da fé. Muitas pessoas perguntam-se porque é que a iconografia da Senhoras das Graças não tem o Menino Jesus ao colo? A expressiva, quanto bela, imagem da nossa padroeira aparece com o coração ardente e cintilante fora do peito, que dá amor por amor. Aqui está a representação de Jesus Cristo, seu filho. O filho ou a filha não é o coração da Mãe? Maria é Mãe com um coração que ouve e que vê (Anunciação), a quem se aplica a recomendação do salmo: «Ouve, minha filha, vê e presta atenção» (Sl 44). Maria é a realização perfeita da reciprocidade entre a Palavra de Deus e a fé. O seu coração arde e ilumina. Desde a Anunciação ao Pentecostes, vemo-La como mulher totalmente disponível à vontade de Deus. É a «cheia de graça» de Deus (cf. Lc 1, 28), incondicionalmente dócil à Palavra divina (cf. Lc 1, 38). Ao celebrarmos o eterno abraço do amor de Deus na proteção da Mãe de Misericórdia na vida nas nossas vidas, pedimos-lhe que nos ajude a ser fazedores de paz, aprendendo com Ela a ser mais “nós” (Bem Comum) que “eu” (individualismo), ao serviço do dom da caridade, como exercício da gratuidade gratuita. Senhora, Mãe das Graças, ponde o vosso olhar nos rostos lavados em lágrimas, nunca enxutos, dos mais velhos, dos doentes, dos tristes, dos angustiados, dos migrantes e de todas as famílias. Olhai que nos avós e netos, pais e filhos, nas casas, nas IPSSS’s, nas aldeias, vilas e cidades há muita solidão, tristeza, medo e dor. Mãe da Esperança, sede companhia, alegria, confiança e conforto no caminho de todos. Cada um de nós, ao ser ouvido e olhado, possa igualmente ouvir e olhar os outros como irmãos e a criação como a casa comum. Não aconteça de sentir o que o profeta dizia: «Eles têm olhos para ver e não veem, têm ouvidos para ouvir e não ouvem: é uma geração de rebeldes» (Ez. 12, 2). O uso da máscara exercita ainda mais o ouvir e o olhar.   2. Unidos em Cristo com(o) Maria Mãe da Igreja A primeira comunidade cristã, como escutamos na segunda leitura dos Atos dos Apóstolos, busca continuamente o sentido da sua missão, rezando com(o) Maria, Mãe de Jesus. Este é o modelo para conhecer o Evangelho e para dar testemunho dele no mundo de hoje. Em tempos duros de pandemia que atravessamos, Ela é a “Mulher eucarística” que ouve e olha com ternura a cidade e a diocese, com as mãos sempre abertas de luz e de paz cuida de nós, oferecendo as carícias de Deus. Quando entramos na catedral abrimos as mãos para os cuidados sanitários às mãos estendidas da equipa de acolhimento. A mão é sinal do amor cristão e do serviço de fraternidade. As mãos servem o próximo nas obras de misericórdia e na caridade, curando as feridas, tomando a iniciativa e criando a proximidade. As mãos são páscoa cristã da indiferença à compaixão. No símbolo da nossa fé (Credo) professamos: creio na Igreja una, santa, católica e apostólica. Estas notas da Igreja serão o lema do próximo triénio litúrgico e pastoral ‘rumo à JMJ Lisboa 2023’, que estamos a construir em sinodalidade na diocese, destacando: Uma Igreja Serva que educa, celebra e festeja. A Igreja é Missão. Tu interessas-me. «Sim, a Igreja, toda a Igreja, a das gerações passadas que me transmitiram a vida e os seus ensinamentos; (…) a que trabalha e reza, que age e contempla, que recorda e procura; (…) esta Igreja é minha mãe. É assim que desde o início comecei a conhece-la, nos joelhos da minha mãe terrena» (H. Lubac). Todavia, às vezes: «Nós próprios ajudámos a apagar a luz que os nossos pais tinham acendido. Trocámos a santidade pela utilidade, a lealdade pelo êxito, a sabedoria pela informação, as orações pelos discursos, a tradição pela moda» (A. Heschel). A Igreja é uma realidade dinâmica. Eu pertenço à fé da Igreja. A fé da Igreja está primeiro, ou seja, o corpo está primeiro, existe antes de mim, não o invento eu. A convicção pessoal ou uma particular disciplina de vida não bastam para fazer de um homem cristão. Uma existência cristã pressupõe a incorporação, a participação na comunidade. Este tempo inaudito, convida-nos à conversão, isto é, a mudar a escuta e o olhar. Que passos para uma vida nova na Igreja?   3. A Igreja é Missão O Papa Francisco continua a mostrar alguns desafios que se colocam à Igreja como sacramento e mistério de comunhão e que marcam o nosso roteiro eclesial, para uma conversão pessoal, pastoral e missionária. Por isso, com a Virgem Santa Maria, Mulher, Mãe e Rainha, Senhora das Graças, ousamos gritar: Não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização! (EG 83); Não deixemos que nos roubem a esperança! (EG 86); Não deixemos que nos roubem o Evangelho! (EG 97); Não deixemos que nos roubem o entusiasmo missionário! (EG 80); Não deixemos que nos roubem a comunidade! (EG 92); Não deixemos que nos roubem o amor fraterno! (EG 101).   Ser fiel à Palavra de Deus e às palavras que dizemos uns aos outros “palavra de honra”, no dom e responsabilidade de ouvir e de ver, qual caminho de esperança e de confiança! Esforcemo-nos por cuidar uns dos outros, cuidar o próximo, aproximando-nos de quem precisa, mesmo em tempos de pandemia e com todo o cuidado integral. Estes dias de verão são férias para muitas pessoas e famílias no nosso território, valorizando o interior e a interioridade. Que seja uma boa ocasião para se surpreenderem na beleza das maravilhas da criação, da humanidade, da hospitalidade, da cultura e da espiritualidade, olhando para o alto com o ouvido e o olhar das crianças, sempre prontos a perguntar os porquês das coisas e da vida e das coisas da vida de todos os dias. + José Cordeiro

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