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«Evangelizado, evangeliza (EN 24) / Do Mistério aos mistérios» [1]Ter, 13/06/2017 - 14:12

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Apresenta-se Comunicação de D. José Cordeiro, esta manhã, no âmbito do Iº Congresso Eucarístico Nacional de Angola, que decorre no Huambo, até ao próximo dia 18 de junho de 2017. Introdução        Com profunda e grata alegria aceitei o convite para participar no Iº Congresso Eucarístico Nacional de Angola, promovido pela CEAST.        O tema geral deste acontecimento eclesial, que seja um verdadeiro “evento”, qual sinal de que Cristo vive no meio de nós, é iluminado pela narração pascal: «reconheceram-No ao partir do pão» (Lc 24, 31), inserindo-se bem a temática que me foi confiada – evangelizado, evangeliza.        Hoje, a Liturgia da Igreja reza este texto na tarde do Domingo da Solenidade da Páscoa, apresentando a narração lucana dos discípulos de Emaús, como uma autêntica celebração da Eucaristia: «E, começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito» (Lc 24, 27); «Ó homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na sua glória?» (Lc 24, 25-26); Procissão de entrada até ao lugar da celebração, «Entrou para ficar com eles» (Lc 24,29); Abertura dos olhos e da mente, «E, quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no; mas Ele desapareceu da sua presença» (Lc 24,30-31).        Neste texto evangélico encontramos o primeiro paradigma de toda a liturgia cristã: proclamar/escutar. A Liturgia parte o pão da Palavra que é proclamada e escutada na Assembleia reunida em nome de Cristo; revelar/ver. Na Eucaristia realiza-se a experiência do único mistério de Cristo que nasce da Páscoa; gostar/experimentar. A Liturgia, e não apenas a Eucaristia, é um todo orgânico que conduz à participação activa, consciente e frutuosa da obra da Redenção. 1.   (Re)conhecer Jesus Cristo no caminho          Na verdade, antes de «partir o pão», Cristo «começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito» (Lc 24,27). O sinal luminoso é a celebração da Eucaristia.          A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II reintroduziu o ambão como lugar obrigatório do anúncio e com a metáfora da «mesa da Palavra», «onde a palavra é como o pão» assinalando o significado teológico do anúncio da mesma Palavra.          O ícone evangélico, segundo a narração lucana, atinge o seu vértice quando o desconhecido peregrino, ou melhor, Cristo peregrino que não reconheceram logo, sentando-se à mesa com os dois discípulos desiludidos com o fim trágico de Jesus de Nazaré, «tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no». Jesus Cristo, o Ressuscitado, manifesta-se vivo com o mesmo gesto (fractio panis) o grande gesto que realizou na noite da instituição da Eucaristia.          Por isso, a celebração eucarística da ceia do Senhor deve ser um «studium Christi», o grande momento do reconhecimento «os seus olhos abriram-se e reconheceram-no» e da visão «vimos o Senhor» (Jo 20,25).          De facto, como se exprime a Oração Eucarística V «sois verdadeiramente Santo e digno de glória, Deus, amigo dos homens, que sempre os acompanhais no seu caminho. Verdadeiramente bendito é o vosso Filho, que está presente no meio de nós quando nos reunimos no seu amor e, como outrora aos discípulos de Emaús, Ele nos explica o sentido da escritura e nos reparte o pão da vida».        Na celebração litúrgica, a Palavra torna-se presente e opera em nós, graças à abertura da fé: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?». O princípio da presença contínua da Palavra de Deus – nenhuma acção litúrgica sem a Palavra – tem como objectivo restituir ao ritmo antigo «mais abundante, variada e bem adaptada a leitura da Sagrada Escritura nas celebrações litúrgicas». Outro objectivo é promover continuamente nos fiéis e, em primeiro lugar, nos Sacerdotes, o «amor suave e vivo da Sagrada Escritura de que dá testemunho a venerável tradição dos ritos tanto orientais como ocidentais». A razão é «para se poder ver claramente que na liturgia o rito e a palavra estão intimamente unidos». Efectivamente, o que se lê na Escritura é o mesmo que se realiza na liturgia. 2. Celebrar o mistério de Cristo Todo o texto bíblico proclamado na acção litúrgica é, de facto, Palavra viva, porque «está presente [Cristo] na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura». Em Cristo, a Escritura manifesta a sua realização plena: «toda a Escritura é um só livro e este livro é Cristo». A Bíblia na Liturgia não é um elemento entre outros, mas o seu elemento essencial, porque «a liturgia é a Bíblia transformada em palavra proclamada e em palavra rezada e actualizada: a liturgia é a palavra celebrada». Desde os inícios da Igreja, a leitura das Escrituras é parte integrante da Liturgia. «Hoje ainda, é principalmente pela liturgia que os cristãos entram em contacto com as Escrituras, particularmente durante a celebração eucarística do Domingo. Em princípio, a liturgia, e especialmente a liturgia sacramental, onde a celebração eucarística constitui o grau máximo, realiza a actualização mais perfeita dos textos bíblicos, pois ela situa a proclamação no meio da comunidade dos fiéis reunida em torno de Cristo a fim de se aproximar de Deus». Com extrema inteligência espiritual a Liturgia ortodoxa, na proclamação do Evangelho, quer que o diácono, levantando o texto, exclame: «estai atentos à sapiência de Deus», ou: «estai atentos, é Deus que fala». Felizmente, está ultrapassada a visão redutiva que olhava a Liturgia da Palavra como preparação à Liturgia eucarística. A Liturgia da Palavra é parte integrante e constitutiva da celebração da Eucaristia e em relação com a Liturgia eucarística forma todo um conjunto. A Escritura é mistério ou sacramento, ou seja, está cheia de símbolos da verdade, os quais se manifestaram inteiramente em Cristo. Tanto na Palavra como nos outros sinais sacramentais está presente o único e verdadeiro Cristo. Nos Padres da Igreja era muito clara a consciência de que o Evangelho é presença de Cristo no meio da assembleia litúrgica. O sepulcro aberto proclama a alegria da presença viva e ressuscitada de Cristo e a Igreja pede-Lhe incessantemente: «Fica connosco, Senhor», para que seja sempre Hoje. 3. A alegria de viver e comunicar o Evangelho A alegria do primeiro e fundamental anúncio é sempre o mesmo: «“Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!” E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão» (Lc 24, 34-35). O caminho conduz-nos ao encontro com Jesus Cristo e com os outros, com a comunidade cristã e com aqueles a quem somos enviados a testemunhar com a vida, a fé que acreditamos e celebramos. O tema do caminho está sempre presente na evangelização. A fé dos discípulos nasce no caminho, que não é apenas geográfico, mas é espiritual e atravessa a desilusão, o desalento, as dúvidas, o vazio, a desconfiança da sua peregrinação na história. Na verdade, a fé em Cristo ressuscitado dá origem a uma nova presença cristã no mundo que S. Pedro descreve como paroiki,a ou seja, um caminho de peregrinação no temor e na esperança, próprio de quem está fora da pátria como estrangeiro residente. Os discípulos passaram da (de)missão à missão de evangelizar. Este continua a ser o grande desafio! Ensinar o Evangelho, significa apresentar sinais e chaves interpretativas para o viver. Ninguém o pode fazer se o não viver primeiro. Na Missa vespertina da Ceia do Senhor, a abertura da celebração do Tríduo Pascal, faz-se o gesto do lava-pés, que João nos transmite como gesto fundante da Eucaristia, sacramento da Caridade evangelizadora. Jesus, depois de lhes lavar os pés, disse a todos os discípulos: «compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também». E acrescentou ainda: «Garanto-vos: o servo não é maior do que o senhor, nem o mensageiro é maior do que aquele que o enviou. Se compreendestes isto, sereis felizes se o puserdes em prática». Este texto joanino, com o texto lucano, constituem o modelo da mistagogia cristã, «daquela arte catequética que explica aos fiéis os gestos realizados na liturgia, que põe em relação a liturgia com a Palavra de Deus e esta com a vida de cada crente e de toda a comunidade cristã». Por outras palavras, a mistagogia «é aquela explicação teológica dos sacramentos – considerados nos próprios sintagmas rituais nos quais se articulam – que quer guiar o acesso ao mistério de Deus celebrado na liturgia, ao entrar nos mistérios sacramentais que a Igreja celebra por ritus et preces, através da ritualidade litúrgica, feita por sinais, gestos e palavras». Estes dois textos eucarísticos mostram que o gesto é acompanhado por uma palavra e «Cada gesto, com efeito, tem necessidade de ser iluminado por uma palavra, e cada palavra, aspira à visibilidade expressiva do gesto, do “símbolo em ação”». Compreender estes gestos é conhecer e encontrar Jesus Cristo, sublinhando o que declara a Sacrosanctum Concilium: «qualquer celebração litúrgica, enquanto obra de Cristo sacerdote e do seu Corpo que é a Igreja, é acção sagrada por excelência, cuja eficácia não é igualada, sob o mesmo título e grau, por nenhuma outra acção da Igreja». Realmente, «Para os Padres da Igreja a celebração do “mistério” da encarnação, paixão, morte e ressurreição do Senhor não deve, com efeito, ter nada de “misterioso”, nada de mágico: a celebração eucarística não alimenta o “fascínio do arcano”, aquela atração pelo numinoso e tremendo próprio do “sagrado” de cada religião, mas alimenta a fé e inspira as obras dos cristãos, a começar pelos mais simples, que são também os mais atentos a colher o alcance dos gestos e os mais solícitos a traduzi-los em ações concretas no próprio quotidiano». Conclusão Precisamos de novos evangelizadores para a Evangelização. Não podemos enfrentar os desafios de hoje com respostas de ontem. Na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi, o documento pós-conciliar mais importante, segundo o Papa Francisco, somos interpelados pelo Beato Paulo VI: «Conservemos o fervor do espírito, portanto; conservemos a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas! Que isto constitua para nós, como para João Batista, para Pedro e para Paulo, para os outros apóstolos e para uma multidão de admiráveis evangelizadores no decurso da história da Igreja, um impulso interior que ninguém nem nada possam extinguir. Que isto constitua, ainda, a grande alegria das nossas vidas consagradas. E que o mundo do nosso tempo que procura, ora na angústia, ora com esperança, possa receber a Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e deprimidos, impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo, e são aqueles que aceitaram arriscar a sua própria vida para que o reino seja anunciado e a Igreja seja implantada no meio do mundo». Evangelizar é a maior alegria da Igreja, que está sempre em caminho... Na verdade: «não há nada de mais belo do que ser alcançado, surpreendido pelo Evangelho, por Cristo. Não há nada de mais belo do que conhecê-Lo e comunicar aos outros a amizade com Ele». A Missa leva sempre à Missão! É-me grato, concluir com palavras de um santo Bispo de língua portuguesa: «Missão é partir, caminhar, sair de si. É quebrar as crostas do egoísmo que nos fecham no nosso eu! Missão é parar de dar voltas ao redor de nós mesmos Como se fossemos o centro do mundo, da vida.  Missão é não nos deixar bloquear Nos problemas do pequeno mundo a que pertencemos. A humanidade é maior. Missão é sempre partir, mas não devorar quilómetros. É sobretudo abrir-se aos outros como irmãos, descobri-los e encontrá-los. E para os descobrir e amar é necessário atravessar mares, e voar pelos céus, então missão é partir até aos confins do mundo!»          Ser missionário é ser discípulo missionado no Evangelho da Esperança!          Sejamos pois «teimosos na Esperança»! + José Manuel Cordeiro  --------------------------- 1 Cf. SC 51; cf. DV 21. 2 DANIEL FARIA, Poesia. 3 Missal Romano, Oração Eucarística V 1159. 1164. 1170. 1176. 4 SC 35,1. 5 SC 24. 6 SC 35; cf. DV 21. 7 SC 7. 8 HUGO DE S. VICTOR «De arca Noe morali 2,8», PL 176, col. 642. 9 R. DE ZAN, «Bibbia e Liturgia», in CHUPUNGCO (ed.), Scientia Liturgica. Manuale di Liturgia, vol. 1, Piemme, Casale Monferrato 1998, 49. 10 COMISSÃO PONTIFÍCIA BÍBLICA, A interpretação da Bíblia na Igreja, Editora Rei dos Livros, Lisboa 1994, 146. 11 Cf. SC 56. 12 «Vós chamais Pai Àquele que não faz distinção entre as pessoas, mas que julga cada um segundo as próprias obras. Portanto comportai-vos com temor durante o tempo em que vos encontrais fora da pátria» (1Pd 1, 17). 13 Jo 13, 12-17. 14 E. BIANCHI, Prefazione, in L. VALVA (ed.), Entrare nei mistero i Cristo. Mistagogia della liturgia eucaristica attraverso i testi dei padri greci e bizantini, Edizioni Qiqajon, Comunità di Bose 2012, 7. 15 E. BORSOTTI-C. FALCHINI (edd.), Un solo corpo. Mistagogia della liturgia eucaristica attraverso i testi dei padri latini, Edizioni Qiqajon, Comunità di Bose 2016, 26. 16 E. BORSOTTI-C. FALCHINI (edd.), Un solo corpo. Mistagogia della liturgia eucaristica attraverso i testi dei padri latini, Edizioni Qiqajon, Comunità di Bose 2016, 25-26. 17 SC 7. 18 E. BIANCHI, Prefazione, in L. VALVA (ed.), Entrare nei mistero i Cristo. Mistagogia della liturgia eucaristica attraverso i testi dei padri greci e bizantini, Edizioni Qiqajon, Comunità di Bose 2012, 7-8. 19 PAULO VI, Evangelii Nuntiandi 80. 20 BENTO XVI, Homilia (24 de abril de 2005), Acta Apostolicae Sedis 97 (2005) 711. 21 D. HÉLDER DA CÂMARA. 22 Papa Francisco aos jovens em Génova, 27 de maio de 2017. Comunicação e fotografias: D. José Cordeiro.
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