Ordenação Episcopal de D. Delfim Gomes | Homilia do Ordenante Principal | Diocese Bragança-Miranda

Mistério onde o ministério é graça

Ordenação episcopal de D. Delfim Gomes, Titular de Dume e Auxiliar de Braga

Catedral de Bragança, 4 de dezembro de 2022

             

  1. Uma voz de Advento

O tempo do Advento oferece a chave de leitura de todo o Ano litúrgico e reavivada oportunidade para uma maior compreensão do mistério de Jesus Cristo. Hoje, João Baptista anuncia: «Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus (Mt 3,2) e, protagonizou aquela voz que clama no deserto: «Preparai os caminhos do Senhor, endireitai as suas veredas» (Mt 3,3).

Há três verbos que ressoam interligados: converter, preparar e endireitar. A contínua conversão pessoal, pastoral e missionária é a resposta à graça com a própria graça, isto é, receber e dar sem mérito ou interesse.

A voz que grita ao coração impele-nos ao estilo de fazer e ser sinodalidade num caminho de escuta para a comunhão, participação e missão na vida eclesial. A proximidade na reciprocidade e na circularidade dinâmica entre os pastores e, entre os fiéis e os pastores, requer a inteireza e a liberdade.

Os sinais dos tempos e a alegre presença dos tempos messiânicos convidam a uma mudança de mentalidade e de vida, mediante o Evangelho, «a fim de que, pela paciência e consolação que vêm das Escrituras, tenhamos esperança» (Rm 15, 4).

O Bispo é, sobretudo, um servidor do Evangelho da Esperança, pela palavra, pelo testemunho de vida, pelos sacramentos, pelo governo pastoral, que conduzirá a todos à unidade da caridade. Tamanho mistério, onde o ministério é graça, converge no gesto sacramental da imposição das mãos feita só pelos Bispos, enquanto todos guardam silêncio e rezam no seu coração para a descida do Espírito supremo. «O Espírito do Senhor é: sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, conhecimento e temor de Deus», como escutámos no belo poema de Isaías (Is 11, 2).

 

2. Confiados à Esperança

O Bispo é confiado à Palavra e não a palavra ao Bispo, é Paulo quem o diz na despedida que em Mileto fez aos presbíteros-bispos (anciãos) da Igreja de Éfeso: «e agora, confio-vos a Deus e à Palavra da sua graça que tem o poder de construir o edifício e de vos conceder parte na herança com todos os santificados» (At 20, 32). Com efeito, a pregação do Evangelho foi a primeira missão confiada aos Apóstolos.

O dever da santificação lembra ao Bispo que recebeu a plenitude do sacramento da Ordem, por isso, também é Sumo Sacerdote e como tal recebeu a dispensação dos meios da graça com que Cristo quis enriquecer a sua Igreja. Quem preside não se senta num trono nem retira a centralidade do altar, sabendo que a ação nasce da contemplação.

Conduzir o Povo de Deus é a terceira função confiada aos Bispos. O governo será exercido como um serviço, ou melhor, servir sem se servir.

É oportuno recordar o Santo Arcebispo Bartolomeu dos Mártires: «três coisas se requerem no prelado: 1ª – pureza de intenção, que consiste nisto: desejar mais servir que presidir; procurar em tudo não a honra, não a própria comodidade, mas a pura vontade de Deus e a salvação das almas; 2ª – conversação santa e irrepreensível, para que de nenhum modo se possa objetar-lhe: médico, cura-te a ti mesmo; 3ª – humildade interior e sincera, para que não presuma interiormente ou se glorie da própria santidade, como usurpador e ladrão da glória que só a Deus é devida, em quem deve confiar e de quem deve depender».

            O Bispo, antes de ser um fazedor de ordens deve ser um fazedor de comunhão, o elemento visível e ativo da sinodalidade na Igreja. A escola do serviço episcopal é uma entrega total e nupcial com a Igreja esposa de Jesus Cristo, da qual Ele é cabeça, pastor, esposo e servo. Ora a missão não mudou, mas o diálogo com o presente pede que ela seja traduzida com criatividade e profecia.

Muitos bispos pediram ao Cardeal Carlo Maria Martini para traçar um perfil do Bispo. Ele aceitou o desafiante pedido e, Arcebispo emérito de Milão, em 2011, um ano antes da sua Páscoa eterna, sintetizou assim o serviço episcopal:

«Integridade. O livro do Eclesiastes ensina: «Não digas: “Porque que é que os tempos passados eram melhores que os de hoje?” Não é a sabedoria que te faz levantar essa questão». Lealdade. Precisam-se homens verdadeiros, capazes de não mentir por nenhum motivo. Paciência. Cinco são as virtudes do Bispo: primeiro, a paciência; segundo, a paciência; terceiro, a paciência; quarto, a paciência; quinto, a paciência com aqueles que nos demandam a ter paciência. Misericórdia. A dor e o sofrimento deste mundo pedem à Igreja que exerça a sua função de proximidade como mãe terna e atenta. Boa educação. Ternura no trato. Firmeza paterna. Amor pela beleza e as suas formas.  Saber rir de si e das próprias fragilidades. Saber pôr-se em discussão e reconhecer os próprios erros sem muitas autojustificações. Isto para que não se tenha a impressão de falar com um “autómato”, demasiado rígido e seguro das próprias respostas. Homem humilde que vence as durezas com a docilidade e sabe ser discreto. Mas, tudo isto só se pode obter na centralidade do Evangelho de Jesus Cristo, a Palavra do Pai atuada pelo Espírito Santo, do qual desceu e desce todo o bem sobre a terra, por todos os séculos dos séculos».

Caríssimo irmão D. Delfim é um desafio imenso, mas Deus é infinitamente maior!  O lema que escolhestes, inspirado em São Francisco de Assis, o peregrino da fraternidade universal – é dando que se recebe – relembra o Apóstolo Paulo: «que tens tu que não hajas recebido? E, se o recebeste, porque te glorias como se não o tivesses recebido?» (1Cor 4, 7). Ou melhor ainda, aponta para Cristo ressuscitado, fundamento da nossa fé: «transmiti-vos, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo recebi» (1Cor 15, 3)

Na proximidade paterna, fraterna, pastoral e amiga, doa-te a todos quantos Deus confia ao teu cuidado: os Presbíteros, os Diáconos, as Pessoas consagradas, os seminaristas, os ministérios laicais, as famílias, os jovens e os mais velhos, os pobres, os doentes, os migrantes, os reclusos, os refugiados e quem mais precisa da compaixão, ternura e misericórdia.

 

3. A alegria do azeite

Nas tuas insígnias episcopais sobressai o azeite, um precioso fruto das nossas terras transmontanas, lugar de encanto e encontro com a beleza da casa comum. O sumo da azeitona da oliveira, onde cai, marca. Com razão, o azeite perfumado do Crisma é o bálsamo da unção espiritual.

            A alegria do azeite é mostrada admiravelmente por Santo Agostinho: «Este é o caminho mais excelente, isto é, a caridade, que apropriadamente está prefigurada no azeite. Com efeito, o azeite é o mais excelente de todos os líquidos. Toma água e deita-lhe azeite por cima: o azeite vem ao de cima. Toma agora azeite e deita-lhe água por cima: o azeite vem ao de cima. Se observares a ordem, o azeite é vencedor, se alterares a ordem, continua a ser vencedor. “A caridade nunca desaparece” (1Cor 13, 8) ... Aí é que está o azeite, o grande azeite. Trata-se de um dom de Deus este azeite. Enfim, os homens podem recolher o azeite, mas não podem criar uma oliveira. “Eis que eu tenho azeite”, poderá dizer alguém, mas acaso foste tu que criaste o azeite? Trata-se de um dom de Deus. Se tens azeite, trá-lo contigo. Que é que quer dizer trá-lo contigo? Quer dizer isto: guarda-o no interior, agrada aí a Deus».

Caros irmãos e irmãs,

na felicidade agradecida pelo dom recebido num membro do Presbitério de Bragança-Miranda para o episcopado e na espera ativa de um novo Pastor para esta querida Diocese, continuemos juntos a peregrinar com coragem, paciência e confiança os caminhos do Advento do Reino dos Céus.

A Senhora da Assunção e das Graças e de todos os nomes belos, São José, São Bento e os Santos Arcebispos de Braga intercedam por todos nós.

A oliveira é sinal da paz, como escreve o salmista: «eu, porém, como oliveira viçosa na casa de Deus, confio para sempre na sua misericórdia» (Sl 15,10). Por isso, caríssimo D. Delfim «o Senhor teu Deus te ungiu com o azeite da alegria» (Sl 45, 8).

 

+ José Manuel Cordeiro