«O itinerário discipular: do escutar ao ver» | Opinião do Pe. Manuel Ribeiro | Diocese Bragança-Miranda

Após termos vivido intensamente o Tempo Santo da Quaresma, onde a escuta atenta e obediente da Palavra – uma Palavra que brota da fonte viva e que jorra incessantemente no nosso coração – nos conduziu ao encontro visível e presencial com a mesmíssima Palavra (entenda-se, Jesus Cristo, o Verbo Deus incarnado).

Caso quiséssemos resumir o Antigo Testamento num só verbo, esse verbo seria o verbo “escutar”. Desde os Génesis, passando por Abraão e Moisés e terminando com Profetas, o Senhor fala de Si pela palavra. Na verdade, a Palavra, na sua inquietante debilidade, numa materialização que não se mede ou agarra, ela é um leve e suave sopro que perfura e perfuma a nossa alma. Como um sussurro, a Palavra surge quando me silencio, quando me permito sair da minha bolha, quando me esvazio de mim mesmo. Recomendo, vivamente, a leitura do Primeiro Livro de Reis, capítulo dezanove, versículos onze e doze (1 Reis 19, 11-12), onde poderemos viajar na experiência viva e única do Profeta Elias que entenderá que a voz de Deus é como um “murmúrio de uma breve brisa” (1 Reis, 19, 12).

O encontro com o Senhor acontece sempre por meio de uma palavra que me atravessa e se cruza no meu caminhar. É sempre pela palavra de um outro, que me fala e que me inquieta, que me confronta com uma outra e nova realidade, quase sempre uma realidade que me desinstala e que me perturba. Isto é deveras curioso porque a Palavra precede (quase) sempre a Presença. Neste processo de encontros no Encontro, fundante e fundamental com Deus, é sempre uma palavra que me conduz à Palavra e, conduzido por Ela, sou envolvido pela Presença deste Outro que se vai desvelando e revelando, que se vai dando a conhecer e que, paradoxalmente, me faz conhecer a mim mesmo e aquilo que realmente sou, descobrindo muito mais do que podia pensar ou imaginar.

Se o Antigo Testamento pode ser resumido pelo verbo “escutar”, já o Novo Testamento pode ser resumido pelo verbo “ver”. Depois da escuta, surge a presença visível. O Verbo faz-se um connosco, torna-se visível. O Senhor Jesus revela-se, vê-se e toca-se. Na sua imanência somos conduzidos à Transcendência, na sua Palavra somos introduzidos no Mistério, no seu ministério somos levados até à Cruz redentora e no seu amor somos libertados e regenerados.

Por isso, todo o carisma da Fé pressupõe a conversão permanente ao Senhor, a escuta atenta e obediente à Palavra, o testemunho visível que contagia encontros e testifica a presença real de Deus Nosso Senhor. É esta atitude preferencial por Jesus Cristo que nos permeia e nos possibilita sermos autenticamente livres, autenticamente nós mesmo.

Nunca será de mais recordar e relembrar que o maior inimigo de nós mesmos é nosso “eu”, o nosso orgulho. Mais, o orgulho escraviza-nos, torna-nos maleáveis, fúteis, carentes, desequilibrados, possessivos e violentos. Já deram conta como o nosso orgulho nos impede tanto de nos dar, de viver a vida com mais paz e tranquilidade? Quantas vezes não estamos nós presos a tanta coisa que, na verdade, não passam de coisas? Ou até presos a tantas ideias e ideologias que não passam de uma vã glória? E do orgulho nascem os ódios e as inimizades...! Quando somos envolvidos pelas cadeias asfixiantes do ego e do orgulho, a nossa vida regressa lamentavelmente ao sepulcro, aquele lugar onde a escuridão reina, onde a luz é inexistente, onde os nossos olhos e o nosso coração se fecham para a luz, para a vida e para o amor. Saibamos não entrar nesta espiral que nos leva ao fechamento, ao lugar do sepulcro e da morte. Antes, peçamos insistentemente ao Senhor que nos faça escutar a sua Palavra para que Ele se torne visível aos nossos olhos e ilumine a minha alma e o meu coração. Só Ele nos pode trazer a vida que é vida, a liberdade que é liberdade e o amor que é amor.

Aliás, o Senhor grita constantemente por cada um de nós. Ele deseja ardentemente que possamos sair do sepulcro em que nos metemos para que possamos voltar e regressar à Vida. Ao lermos o episódio bíblico de Lázaro (cf. Jo 11, 1-45), atestamos isto mesmo: o Senhor Jesus “bradou com voz forte: «Lázaro, sai para fora»! O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário” (Jo 11, 43-44). Ao grito de libertação e de vida de Jesus só nos resta uma atitude: dizer ‘sim’ de forma obediente, generosa e humilde. Só assim o Senhor Jesus nos poderá libertar dos nossos próprios túmulos, nos retirará as ligaduras que nos prendem na morte e o sudário que nos impede de ver, de enxergar e de presenciar a luz da Luz.