Homilia de D. Amândio Tomás - Cerejais, 28.05.2022 | Diocese Bragança-Miranda

Homilia de D. Amândio Tomás, Bispo Emérito da Diocese de Vila Real, no primeiro dia da Peregrinação anual ao Santuário diocesano do Imaculado Coração de Maria, em Cerejais.

Caros Irmãos e Irmãs, que viestes ao Santuário do Coração Imaculado de Maria, na Festa da Ascensão, para adorar a Deus Pai, que nos deu o Filho e o Espírito e para venerar a Virgem Santíssima, elevada ao Céu, que, por graça do Espírito, concebeu a carne do Filho de Deus. Ela é a primeira discípula, a Mãe de Deus e da Igreja, que após a Ascensão de Jesus, recebeu o Espírito, no Cenáculo, sendo digna do culto de especial veneração.

1.- O culto é estéril, sem a virtude e a conversão. A veneração à Virgem pede a mudança da mente, da vontade e do agir, segundo Deus, como Maria pede: Fazei o que o meu Filho vos disser. A verdadeira devoção à Virgem consiste em imitar suas virtudes, crendo, esperando, amando, obedecendo. Deus fala para ser ouvido. Pede a obediência da fé e a conversão. A devoção de fachada, sem conversão e santidade é uma aberração. Por isso, rezamos: seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu, imitando Jesus que disse: Pai faça-se a Tua vontade e não a minha. Deus pede obediência. A Palavra de Deus espera ser recebida, meditada, rezada, posta em prática. Sem resposta afirmativa, Deus fala em vão e é rejeitado. Maria obedeceu e nós odiamos, desobedecemos e desesperamos. Ao ver como os homens respondem ao amor de Deus, S. Francisco chorava, arrasado em lágrimas, e gritava: “o amor de Deus não é amado, o amor de Deus não é amado” e o Coração de Jesus disse a Santa Margarida: “vê filha o coração que tanto tem amado os homens e dos quais só tem recebido ofensas e ingratidões”.

2.-Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o Único Mediador entre Deus e os homens e Maria é a criatura mais perfeita, a mais perto de Deus. É a primeira discípula, de Jesus, o maior exemplo humano de fé, esperança, caridade e desprendimento. Porque acreditou e obedeceu, foi proclamada feliz por cumprir a Vontade divina. Meditou no coração, foi exemplo ímpar de virtudes e deve ser imitada. Acreditou, esperou, amou, na simplicidade e escondimento. Respondeu ao que Deus pedia, em liberdade, sendo toda relativa a Cristo e correlativa à Igreja. Ao pedir “Fazei o que o meu Filho vos disser”, pede para fazermos o que Ela sempre fez e teve como norma, crendo no que Deus Lhe pediu. Deus respeita a liberdade. Não violenta ninguém. Espera a obediência. Só, após a adesão livre de Maria, é que Deus realiza o milagre da Encarnação.

3.- A Anunciação, Visitação, Nascimento, Apresentação e Reencontro são os Mistérios da Alegria, e revelam as virtudes teologais e morais de Maria. O Arcanjo Gabriel convida Maria a alegrar-se, na presença de Deus, e alude à profecia de Sofonias que exorta a Filha de Sião, Israel, a rejubilar, porque Deus está no seu seio. A presença de Deus produz alegria, revela o Seu Poder e a esperança e o amor dos humildes e Pobres de Jahveh, sedentos do amor de Deus. O Anjo diz: alegra-te ó agraciada e escrínio de graça. O imperativo grego Chaire, alegra-te, diz muito mais que o convencional Ave da saudação romana. O Anjo saúda a Imaculada, cheia de graça. A presença do Filho de Deus, concebido, pelo Espírito Santo, cumpre a promessa do Salvador. O texto irradia a alegria da esperança messiânica em Deus, que salva o Povo e não falha às promessas. Deve ser acreditado, pois só Ele é digno da nossa resposta ao Seu infinito Amor, que sempre nos precede.

A Anunciação narra a Encarnação, a grata e alegre notícia de Jesus que vem salvar e instaurar o Reino de Deus e disse: Ide por todo o mundo e anunciai a Boa Nova a toda a criatura. A Boa Nova da Vinda, vida, pregação, morte e Ressurreição de Jesus, que a Igreja anuncia, está já na Encarnação do Filho de Deus, ao assumir a carne humana, em Maria Imaculada. 

Maria obedece a Deus, sem compreender e abarcar os desígnios divinos, que são surpreendentes e inefáveis. Ela peregrina, na fé, escuta e medita, conduzida ao mistério da Trindade, pela autorrevelação do Filho, do qual é aluna e primeira discípula, respondendo positivamente, crente no poder de Deus a quem nada é impossível. Maria abre-se às surpresas de Deus e ao Seu Poder Omnipotente e diz: “eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua palavra”. A fé em Deus, em quem cremos, supõe a escuta e a obediência à Sua Sacrossanta Vontade.

Como diz S. Agostinho, Maria concebeu crendo e é mais bem-aventurada por crer do que por dar à luz o Filho de Deus. O insondável mistério da Encarnação é obra do Omnipotente, que fez grandes coisas, em Maria, mas não sem o seu livre consentimento. Ela aceita ser instrumento e colaborar com Deus. A decisão é mérito de Maria, que é mais feliz por crer do que por dar à luz o Filho, concebido, por graça do Espírito Santo. Somos chamados a agir com Deus, diz Santo Agostinho: “ Deus que te criou sem ti não te salva se tu não quiseres”. Maria é o mais excelso exemplo do bom uso da liberdade humana, ao responder positivamente, obedecendo, como Jesus que não veio para ser servido, mas para servir e fazer a vontade do Pai, dizendo: “ Pai, não se faça a minha vontade mas a Tua”.     

4. O Mistério da Visitação mostra duas grávidas crentes e gratas pelo dom dos filhos, que exultam de alegria, no Espírito. Sentindo pular de alegria o menino, no seu seio, Isabel cheia do Espírito, declarou bendita a Virgem e confessou como Deus e Senhor, o Menino que Maria trazia no ventre. Ao adorar Jesus como Deus, Isabel exalta a Virgem por “ ter acreditado no que o Senhor anunciou e não deixará de cumprir”. A Fé une o culto de adoração ao Filho de Deus, com o culto de veneração à Virgem que O deu à luz e diz: “daqui em diante me proclamarão bem-aventurada todas as gerações ”. A Visitação mostra a solidariedade da humilde serva do Senhor, modelo de caridade, que comunica a alegria e corre a servir Isabel, pois “ninguém pode dizer que ama a Deus a quem não vê, senão ama o irmão que vê”. O amor tem o Filho de Deus, como medida padrão, modelo e exemplo, porque Ele não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida, em redenção.

5.- Os mistérios da alegria exaltam o Menino Jesus, despido da glória, que obedece, se oferece e é sinal de contradição. Ao ver a simplicidade dos Pastores, Simeão e Ana e dos Pais de Jesus, que, no Templo O encontram, sem O compreender, revela-se a grandeza de Maria, que serve, escuta e medita a palavra e gestos do Filho, luz das nações, esperança de Israel e cumpridor das promessas de Deus. Maria é aluna e discípula do Filho. É a indicadora do caminho ou Hodegita, como os orientais gostam de dizer. De facto, Ela indica Cristo Caminho, Verdade e Vida, exorta à fé, à escuta e ao serviço, com a alma trespassada, pela dor, junto do Filho, de cujo coração saiu sangue e água, símbolos do Batismo, da Eucaristia e dos Sacramentos da Igreja, que brota do amor e do coração de Cristo.

Que Deus Pai, pela intercessão de Maria nos livre da fome, peste e guerra e  do egoísmo e da violência contra a natureza e a dignidade humana. O homem esqueceu Deus, a verdade, a justiça e o bem comum, valores perdidos nas nações, nas famílias, nos indivíduos. Que Maria nos dê a graça de consagrar a vida ao serviço dos outros, sendo construtores de paz e de humanidade, contra a injustiça, a mentira e a guerra. Amemos a vida e as realidades do alto, vivendo no amor mútuo, de modo que nas famílias e nos povos reine a justiça, a paz, o bem comum, assentes em bases seguras e imorredoiras, para glória de Deus e salvação do género humano. Amen.

 

+ Amândio José Tomás