Breve Nota Pastoral 2021-2022 | Diocese Bragança-Miranda

Uma Igreja Católica. Tu interessas-me!

O crescimento. «Levanta-te! Eu te constituo testemunha do que viste» (cf. At 26,16)

 

Graça, Misericórdia e Paz!

Juntos somos a Igreja serva, que educa, celebra e festeja. Somos um povo em caminho e recomeçamos no itinerário de acesso à vida eterna: por Cristo, com Cristo e em Cristo. Na necessidade pastoral e no encanto de caminhar juntos, propomo-nos prosseguir no triénio litúrgico e pastoral eclesiológico de “Igreja em saída” com todos, acompanhando e escutando na fé adulta, nomeadamente, as crianças, os adolescentes e os jovens num renovado sentido eclesial: Uma Igreja Serva que educa, celebra e festeja, rumo à Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa, 1 a 6 de agosto de 2023.  Igreja é missão. Tu interessas-me!

No Credo, assim professamos: «creio na Igreja una, santa, católica e apostólica». Para o segundo Ano litúrgico e pastoral, gostaríamos de testemunhar a terceira nota da Igreja –Católica–  guiados pela palavra de Jesus Ressuscitado a Saulo, que passou a ser Paulo: «Levanta-te! Eu te constituo testemunha do que viste» (cf. At 26,16), dedicada para o segundo ano do caminho para a JMJ.

Em agosto de 2022 a nossa Diocese acolherá os símbolos da JMJ em articulação com o encontro europeu de jovens a realizar no início do mesmo mês em santiago de Compostela. Eis agora o nosso atual desafio. Portanto, levanta-te e testemunha a missão do essencial!

Durante o Ano decorre também o Ano “Amoris Laetitia”. A família é a terra natal do amor e da vida: «na família, é necessário usar três palavras: com licença, obrigado e desculpa. Três palavras-chave. Quando numa família não somos invasores e pedimos “com licença”, quando na família não somos egoístas e aprendemos a dizer “obrigado”, e quando na família nos apercebemos de que fizemos algo incorreto e pedimos “desculpa”, nessa família existe paz e alegria» (Amoris Laetitia 133).

Este ano oferece-nos ainda a enorme graça de percorrermos um caminho sinodal com toda a Igreja Católica, sob o tema: «Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão».

Os três pilares no processo sinodal são: comunhão, participação e missão. Não se trata de recolher opiniões, mas de encontrar o Espírito Santo no discernimento da escuta recíproca e de sentir a voz e a presença de Deus.

A abertura diocesana, comum para todas as Dioceses do mundo, já aconteceu no dia 17 de outubro. Nós também abrimos o processo sinodal com a celebração da Eucaristia na nossa igreja Catedral, porque a sinodalidade tem a sua fonte, o seu centro e o seu cume na celebração litúrgica. A primeira fase deste processo sinodal, a etapa de consulta diocesana, que vai de outubro de 2021 a final de março de 2022, está norteada pelo Documento Preparatório, pelo Vademecum para o Sínodo sobre a Sinodalidade e por outros documentos e, sobretudo, pela escuta pessoal e comunitária da Palavra de Deus e a escuta e o diálogo de uns com os outros. Na verdade, a sinodalidade é muito mais que um Sínodo.

A sinodalidade é o estilo próprio da vida e da missão da Igreja, que queremos consolidar nos âmbitos permanentes da comunhão e da sinodalidade: no Conselho Presbiteral, no Colégio dos Consultores, no Conselho Pastoral Diocesano, no Conselho episcopal, no Conselho diocesano para os assuntos económicos, conselhos paroquias dos assuntos económicos (fábricas da igreja), direções e colaboradores das IPSS’s e outras realidades da diaconia da caridade, nas Comissões diocesanas, nos Secretariados e Serviços diocesanos, nos Conselhos pastorais das Unidades Pastorais, no Conselho pastoral dos Arciprestados, nas comunidades e pessoas de vida consagrada, nos Movimentos, nos grupos eclesiais e na Piedade popular.

Com as nossas possibilidades e limites, propomo-nos também escutar outras realidades da pastoral antropológica e territorial: sociais, políticas, económicas e culturais. Gostaríamos, ainda, de escutar outras pessoas que raramente são ouvidas: os pobres, os reclusos, os migrantes, as pessoas com deficiência, as minorias étnicas e as outras periferias existenciais que são invisíveis na cidade, na vila ou na aldeia.

Enfim, a sinodalidade é uma dimensão integrante da Igreja, ao mesmo tempo, «um ato de governo e um evento de comunhão», segundo a lógica da circularidade dinâmica de: “todos”, “alguns” e “um”. Todos os membros da Igreja somos convocados à consulta, alguns (equipa e assembleia sinodal) são chamados a discernir, um (o Bispo Diocesano) é quem tem a decisão.

 

1. Companheiros de caminho

A Igreja diz a cada pessoa, em especial a cada adolescente e a cada jovem: Tu interessas-me! Será que cada um de nós também diz o mesmo à Igreja: Tu interessas-me! O Papa Francisco recorda-nos bem o sentido do interesse da escuta: «Uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta, ciente de que escutar “é mais do que ouvir”. É uma escuta recíproca, onde cada um tem algo a aprender». Queremos, portanto, escutar o que o Espírito Santo nos quer dizer, escutando-nos uns aos outros.

Na verdade, conforme o Vademecum para o Sínodo sobre a sinodalidade: «se escutar é o método do Processo sinodal e discernir é o objetivo, então a participação é o caminho». Que seja um diálogo sinodal que dê frutos abundantes.

Por isso, a grande linha de ação na pastoral juvenil será o crescimento: «a pastoral juvenil deve sempre incluir momentos que ajudem a renovar e a aprofundar a experiência pessoal do amor de Deus e de Jesus Cristo vivo. Fá-lo-á com diversos recursos: testemunhos, canções, momentos de adoração, espaços de reflexão espiritual com a Sagrada escritura e até com diversos estímulos através das redes sociais. No entanto, nunca se deve substituir esta experiência gozosa do encontro com o Senhor por uma espécie de “doutrinação”» (Christus vivit 214).

Queremos continuar neste caminho. Como adverte o Papa Francisco: «o mundo, em que vivemos e que somos chamados a amar e servir mesmo nas suas contradições, exige da Igreja o reforço das sinergias em todas as áreas da sua missão. O caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio».

Todavia, «Quantas vezes ouvimos dizer: “Jesus sim, a Igreja não”, como se um pudesse ser alternativa à outra. Não se pode conhecer Jesus, se não se conhece a Igreja. Só se pode conhecer Jesus por meio dos irmãos e irmãs da sua comunidade. Ninguém pode dizer-se plenamente cristão, se não viver a dimensão eclesial da fé». 

 

2. O universal no local e o local no universal

No símbolo da fé (Credo) professamos: creio na Igreja una, santa, católica e apostólica. Estas quatro notas específicas mostram a beleza, o dom e a missão da Igreja.

As duas primeiras caraterísticas, a unidade e a santidade, estiveram particularmente presentes no Ano Pastoral da Busca. Neste Ano pastoral do Crescimento, gostaríamos de aprofundar o sentido da Igreja Católica, una e santa, apesar da sua multiplicidade.

Ao dizermos Igreja Católica não estamos a usar um conceito quantitativo, mas um conceito qualitativo, indicando a totalidade, a universalidade e até mesmo a plenitude. O número 868 do Catecismo da Igreja Católica sintetiza claramente: «a Igreja é católica: anuncia a totalidade da fé; guarda e administra a plenitude dos meios de salvação; é enviada a todos os povos, dirige-se a todos os homens; abrange todos os tempos; “É, por sua própria natureza, missionária” (Ad Gentes 2)». A Igreja é católica porque conserva a inteireza da fé e é enviada ao mundo para congregar a todos, realizando o universal no local e o local no universal.

A unidade da Igreja Católica no “caminhar juntos” implica a fé, como advertiu já no século III São Cipriano, Bispo de Cartago: «como pode alguém acreditar que tem fé se não guarda a unidade da Igreja? (...). Há um só Deus, um só Cristo, uma só é a Igreja, uma só a fé, um só povo cristão, estreitado em firme unidade pelo cimento da concórdia: e não se pode separar o que é uno por natureza».

A Igreja aparece como um povo unido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Na verdade, «O Espírito habita na Igreja e nos corações dos fiéis, como num templo (cf. 1Cor. 3,16; 6,19), e dentro deles ora e dá testemunho da adoção de filhos (cf. Gl 4,6; Rom. 8, 15-16. 26). A Igreja, que Ele conduz à verdade total (cf. Jo 16,13) e unifica na comunhão e no ministério, enriquece-a e guia-a com diversos dons hierárquicos e carismáticos e embeleza-a com os seus frutos (cf. Ef. 4, 11-12; 1 Cor. 12,4; Gl 5,22). Pela força do Evangelho rejuvenesce a Igreja e renova-a continuamente e leva-a à união perfeita com o seu Esposo. Porque o Espírito e a Esposa dizem ao Senhor Jesus: «Vem» (cf. Ap 22,17)!» (Lumen Gentium 4).

A unidade visível da Igreja é muito mais que a sua organização. Uma coisa é clara, a Igreja não se apresenta a partir da sua organização, mas a organização pastoral é que se pensa e realiza a partir da própria compreensão da Igreja una, santa, católica e apostólica.

Por isso, às vezes podemos perguntar: «Porque dividimos e dilaceramos os membros de Cristo e movemos guerra ao próprio Corpo, chegando a tal ponto de insensatez que nos esquecemos de que somos membros uns dos outros?» (São Clemente I – séc. I).

Na verdade, a Diocese é a porção do Povo de Deus «reunida no Espírito Santo [...], na qual está e opera a Igreja de Cristo, una santa, católica e apostólica» (Christus Dominus 11). De facto, a Diocese é «a Igreja encarnada num espaço concreto, dotada de todos os meios de salvação dados por Cristo, mas com um rosto local» (Evangelii gaudium 30).

 

3. Escutar, discernir e participar

Cada ano pastoral é um recomeçar, ou melhor, é um começar de novo na continuidade da peregrinação da fé. «Um começar de novo – para onde? Naturalmente para o princípio que sempre foi proposto e vivido, para Jesus Cristo, ontem, hoje e em toda a eternidade, para a sua graça, a única que salva e que nos abre a porta par o Deus vivo». Com razão assim escreveu o grande teólogo Karl Rahner e acrescentou: «Começar de novo, de tal forma que Jesus Cristo e a sua Igreja, de hoje e de amanhã, se encontrem verdadeiramente. Isto é, um começar de novo por uma Igreja de nosso Senhor e Salvador, por uma Igreja da Palavra de Deus, da fraternidade, da esperança, do amor e do serviço humilde, da alegria no Espírito Santo, de um amor que ultrapassa todo o legalismo; para uma Igreja que no ser mais profundo da sua missão se deixa interpelar pela misteriosa saudade do que há de vir e pelas necessidades do tempo presente; que aprende enquanto ensina, que recebe enquanto dá, que reina enquanto serve; começar de novo de uma Igreja que já era, mas que ainda se está a tornar no que verdadeiramente é, sempre de regresso à sua única origem, princípio e Senhor da história do mundo, em cujo futuro sombrio a Igreja se deixa conduzir por este único Senhor. Para que seja um autêntico começar de novo, ainda falta muito, falta fazer quase tudo».

Igreja serva, quer dizer, a Igreja que escuta a Palavra de Deus e que escuta a realidade do povo santo de Deus, com a mente e o coração abertos sem preconceitos.

Ao anunciar o Evangelho, uma Igreja sinodal “caminha em conjunto”: como é que este “caminhar juntos” se realiza na nossa Igreja diocesana? Que passos o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso “caminhar juntos”?

Ao responder a estas perguntas, somos convidados: a recordar as nossas experiências, a reler estas experiências mais profundamente e a colher os frutos para compartilhar.

Caros irmãos e irmãs: é preciso acreditar e amar a Igreja, serva e esposa de Jesus Cristo, na alegria e na beleza de caminhar juntos! «Renovai, Senhor, a vossa Igreja de Bragança-Miranda com a luz do Evangelho. Fortalecei o vínculo da unidade entre os pastores e os fiéis do vosso povo, (...) de modo que, num mundo dilacerado pela discórdia, a vossa Igreja resplandeça como sinal profético de unidade e concórdia» (Oração Eucarística V/A). Ao mesmo tempo, sejamos uma Igreja da escuta!

Caminhemos juntos!

Catedral, 7 de outubro de 2021, XXº aniversário da dedicação

+ José, Bispo de Bragança-Miranda

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Fotografia: BLR/SDCS