Homilia de D. António Montes Moreira no Santuário diocesano da Senhora da Assunção | 21.05.2023 | Diocese Bragança-Miranda

ASCENSÃO

1. A convite de Monsenhor Adelino Paes, Administrador Diocesano, convite que muito agradeço, tenho a alegria de presidir à celebração da solenidade da Ascensão do Senhor neste histórico santuário diocesano da Assunção da Virgem Santa Maria. Na qualidade de Bispo Emérito, sinto-me deste modo em ativa comunhão com a Diocese que servi durante dez anos como Bispo Diocesano.

No mesmo espírito de comunhão eclesial saúdo cordialmente o vosso pároco e reitor do santuário, o estimado Pe Francisco Pimparel, e todos vós, caros peregrinos, que subistes a esta montanha abençoada neste dia da Ascensão de Cristo ao céu.

 

2. Este santuário, dedicado à Assunção de Nossa Senhora, celebra também com relevo a Ascensão do Senhor. Não se trata de mera justaposição de duas datas do calendário litúrgico, uma do tempo pascal e a segunda em pleno verão. Ascensão eAssunção são dois mistérios distintos, mas intimamente relacionados.

A Ascensão designa o mistério da subida ao céu de Jesus Cristo ressuscitado, ou seja, da entrada da sua humanidade, em corpo glorificado, no seio da Santíssima  Trindade à qual Jesus, como Deus, esteve sempre intimamente unido durante o seu peregrinar em terras da Palestina. Na Ascensão, a humanidade ressuscitada e glorificada de Cristo, em virtude da união à sua pessoa e natureza divinas, ascendeu, subiu, a partilhar o convívio eterno da Trindade e a interceder por nós junto do Pai, «à direita do Pai», conforme S. Paulo escreve na segunda leitura desta Eucaristia, tirada da sua carta aos cristãos da cidade grega de Éfeso (Ef 1, 19-20).

 O céu não é um lugar, não está acima ou distante deste mundo terrestre em que agora habitamos fisicamente. O céu é «um modo de ser» (declara o Catecismo da Igreja Católica, n.º 2794), liberto dos constrangimentos do espaço e do tempo, no qual viveremos eternamente em união com Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Sendo um estado de vida superior, eminentemente superior, justifica-se chamar subida à caminhada para o céu.

Na Assunção  celebramos o mistério pelo qual a Virgem Santa Maria, no termo da sua vida mortal, por especial privilégio de Deus foi assumida, assunta, elevada ao céu em alma e corpo glorificado antes da ressurreição no fim dos tempos para usufruir em plenitude da bem-aventurança eterna. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica, «a Assunção da santíssima Virgem é uma singular participação na ressurreição de seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos» (n.º 966).

4. Depois da ressurreição, informa a primeira leitura, extraida do início dos Atos dos Apóstolos (At 1,1-11), Cristo manifestou-se aos discípulos «durante quarenta dias efalando-lhes do reino de Deus», isto é, confiando-lhes as últimas recomendações para asua futura missão. Na última aparição, a da Ascensão, Jesus renova a promessa da vinda do Espírito Santo, que os Apóstolos iriam receber pouco depois no dia de Pentecostes e ordena: «Sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra». Por sua vez, o evangelho desta solenidade (Mt 28, 16-20) explicita: «Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei». E termina com uma garantia: «Sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos».

Deste modo, a Ascensão foi simultaneamente despedida e envio para a missão.

No final do evangelho de Lucas (Lc 24, 50-53) o relato da Ascensão contém dois dados que não figuram nos Atos dos Apóstolos: Jesus, «erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, separou-se deles e elevava-se ao céu. E eles, depois de se terem prostrado diante d’Ele, voltaram para Jerusalém com grande alegria».

Comentando esta passagem, o papa Bento XVI escreve: «Ascensão é gesto de benção. As mãos de Cristo tornam-se cobertura que nos protege, e ao mesmo tempo força que abre as portas do mundo para o alto. Parte com a bênção, mas também ao contrário: a benção fica. Daqui para a frente esta será a maneira de se relacionar com o mundo e com cada um de nós. Ele abençoa e tornou-se Ele mesmo bênção para nós. Talvez que esta expressão nos possa explicar melhor o sentido do acontecimento e esclarecer a estranha contradição duma despedida toda perpassada de alegria. Foi de bênção o acontecimento que os discípulos experimentaram, E foi como abençoados que partiram, não como abandonados. Eles sabiam que eram abençoados para sempre e que, para onde quer que fossem, estavam em mãos de bênção» (Esplendor da glória de Deus - Meditações para o Ano Litúrgico, Braga, Editorial Franciscana, 2007, p. 103).

A alegria e a bênção da Ascensão sustentaram o entusiasmo dos Apóstolos na missão grandiosa de anunciar o evangelho do Senhor Jesus. E nós sentimos e vivemos a alegria de ser discípulos de Cristo?

5. Nesta celebração inauguramos solenemente cinco obras de arte com as quais o espaço litúrgico desta cripta fica muito enriquecido: o altar, o ambão e a cadeira presidencial, da autoria da arquiteta Joana Delgado; o painel de Nossa Senhora da Assunção, do pintor Avelino Leite, e a escultura da Ascensão de Cristo, de Artur Moreira. Graças ao talento destes mestres, as verdades da fé são aqui apresentadas com reconhecida qualidade, numa fecunda simbiose entre fé e arte. Aos três, o nosso agradecimento com felicitações cordiais pelo trabalho realizado.

Procederemos à bênção destas obras de arte e, no caso do altar, à dedicação ou sagração, rito litúrgico reservado a um Bispo.

Por exprimir bem a necessidade de unidade entre a celebração litúrgica e a vivência quotidiana, termino com um extrato da oração de dedicação do altar:

«Seja lugar de íntima comunhão convosco e de paz, de modo que, alimentados com o Corpo e o Sangue de vosso Filho e cheios do seu Espírito, cresçam sempre no vosso amor.

Seja fonte de unidade da Igreja e de concórdia entre os irmãos, em volta da qual se reúnam os vossos fiéis, para aí beberem o espírito da mútua caridade.»

  

Santuário da Assunção, Vilas Boas (Vila Flor), 21 de maio de 2023

 

+António Montes Moreira, OFM

Bispo emérito de Bragança-Miranda

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Fotografia: Padre Francisco Pimparel